05/09/2026

Competição aborda guerra do Vietnã e desajustes adolescentes

Veneza - A competição pelo Leão de Ouro entrou em tom alto com filmes que literalmente gritam temas contundentes. A culpa pelos crimes na guerra do Vietnã, no concorrente japonês Mr. Nelson, Did You Kill People?, de Shinya Tsukamoto, e os distúrbios de adolescentes vítimas de violência no francês 15/18 (A Place to Heal), de Cédric Khan.

Os dois filmes são, cada um a seu modo, incômodos, pelo tema e pela forma. Mr. Nelson, Did You Kill People? não se furta a mostrar cenas chocantes de massacres na guerra, provocadas pelo exército norte-americano, e que são a base do desequilíbrio de um ex-soldado, Allen Nelson (Rodney Hicks na fase adulta, Mark Merphy quando jovem).

Retornado do front, Nelson não consegue esquecer as muitas mortes que praticou, que habitam seus pesadelos e o impedem de ter uma vida normal. Ele não tem condições emocionais de lidar com uma culpa que nem mesmo entende que sente e que começa a emergir a partir das sessões de terapia com o dr. Daniels (Geoffrey Rush).

Seria de se perguntar porque o diretor japonês se interessou por esta história tão norte-americana, mas isto decorre de Allen Nelson ser uma pessoa real e, a partir de um determinado ponto de sua vida, ter-se especializado em palestras sobre a experiência real da guerra, inclusive em países como o Japão, onde ele está sepultado, e até no Vietnã. Ao contrário de seu país, Allen, ao menos, fez o círculo completo, assumindo sua culpa e pedindo perdão pelos crimes cometidos em nome de um patriotismo distorcido, além de impregnado de racismo contra os asiáticos. É um filme forte e duro de se ver e não deixa de ser oportuno quando o imperialismo norte-americano entra numa nova onda.

Adolescentes perdidos

Já o diretor Cédric Kahn focaliza em seu 15/18 uma unidade de atendimento a adolescentes vítimas de violência familiar e toda sorte de abusos, inclusive sexuais. Trata-se de outro filme com muitos gritos e explosões emocionais, partindo destes jovens, tratados por uma dedicada equipe de psiquiatras e enfermeiros, que procuram ouvi-los e direcioná-los a uma possibilidade de cura e vida posterior à internação naquele lugar.

O filme não deixa de ser realista em seu tom, deixando claro que não é simples, em nenhum dos casos, reintegrar a uma sociedade e a famílias com inúmeros problemas, estes jovens, sofrendo de distúrbios tão distintos quanto depressão, bulimia, alguns tipos de psicose e outros desajustes. A narrativa procura iluminar as personalidades diferentes de cada um, numa gama imensa de personagens, abrindo brechas também para os questionamentos da própria equipe de atendimento. Submetida a um estresse permanente, esta equipe atua, em vários casos, como uma espécie de família substituta para seus jovens pacientes - que ainda não têm estrutura psíquica formada, nem experiência de vida para encarar seus desafios imensos.

Melodrama de Amelio

Veterano italiano já vencedor de um Leão de Ouro em 1998 (pelo drama Assim Eles Riam), Gianni Amelio entregou em Nessun Dolore um melodrama sobre imigração, fora de competição. O tema é sempre muito oportuno e o elenco conta com atores experientes, como Alessandro Borghi, Valeria Golino e Valerio Mastandrea, mas o roteiro, de Amelio e Davide Serino, não dá conta de sustentar a história.

O protagonista é Borghi, interpretando Davide, um homem solitário, dono de um quiosque de livros usados, cuja vida se entrelaça com a de um garotinho imigrante. Quando um acidente atinge
o menino, Davide se enche de culpa e começa a acolher em sua casa diversos refugiados - o que não tardará a trazer-lhe problemas legais. Valeria Golino interpreta uma professora que é sua amiga e também tem seu segredo. Mas o enredo se perde em mal-resolvidos fios melodramáticos e perde a oportunidade de abordar um tema sempre urgente numa Europa cada vez mais dominada por governos de extrema-direita.