05/09/2026

O veneno político de “Wild Horse Nine” empolga Veneza

Veneza - O cineasta britânico Martin McDonagh injetou seu melhor veneno sarcástico no ótimo concorrente ao Leão de Ouro Wild Horse Nine - uma história profundamente política, ambientada no Chile de 1973, às vésperas do golpe militar de Augusto Pinochet.

A situação é acompanhada pelo ponto de vista de dois agentes da CIA, Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell), que justamente estão no Chile operando na desestabilização do governo recém-eleito do socialista Salvador Allende - um dos muitos golpes que a CIA promoveu pelo mundo, como no Congo em 1960 e na Guatemala em 1954. Chris, o mais veterano entre os dois, carrega uma memória fragmentada de todos estes golpes de que participou, o que tem a ver com a deterioração de sua saúde, por conta de um câncer terminal. Por isso, ele se apressa a gravar suas memórias num ditafone, o que inquieta seu chefe, MJ (Steve Buscemi), temeroso de que ele revele segredos inconvenientes - um deles, relativo ao assassinato de John Kennedy.

Como sempre nos filmes de McDonagh - como os brilhantes Na Mira do Chefe e Três Anúncios para um Crime - , a morte tem um peso dentro da história, não só pela doença de Chris como pelo permanente clima de suspeita entre os próprios agentes - entre os quais há um pacto misterioso, cujo epílogo deve se dar na Ilha de Páscoa, num belo cenário de montanhas verdejantes, repletas dos Moai (as esculturas de cabeças feitas pelos indígenas Rapa Nui) e cavalos selvagens soltos pelo lugar.

A grande qualidade de McDonagh como diretor e roteirista é justamente esta precisão nos diálogos, sempre na ponta da faca, afiadíssimos, infiltrando o humor em situações em que aparentemente ele não surgiria - mas explode a toda hora. Para isso, contribui o entrosamento perfeito entre os atores, com um jogo afinado entre Malkovich e Rockwell, que oscila entre diversos sentimentos e humaniza dois indivíduos que são claramente vilões e assassinos, mas tem suas nuances, sem que com isso o filme pretenda, evidentemente, tentar absolvê-los. Nem se esperaria isto de um diretor refinado como McDonagh, ainda mais num filme produzido pela engajada dupla chilena Pablo e Juan de Dios Larraín.

Tanto como dois filme do primeiro dia do festival, Ink, de Danny Boyle, e La Ragazza con la Leica, de Alina Marazzi, Wild Horse Nine mergulha no passado para comentar o presente - afinal, os poderosos de hoje não mudaram suas táticas sujas para dominar o mundo. É cedo ainda para cravar, mas até agora, Wild Horse Nine mostra-se o filme mais forte - e com toda a cara de que vai conquistar prêmios e indicações ao Oscar, particularmente para estes atores no auge de sua forma, Malkovich, Rockwell e Buscemi, com direito a uma ponta descolada de Tom Waits, no cenário do Monument Valley, remetendo a tantos faroestes. Afinal, o jogo da
CIA nunca deixou de parecer-se com um interminável faroeste.

As irmãs de Herzog

Werner Herzog reencontrou seu gosto pelo bizarro na ficção com outro concorrente ao Leão, Bucking Fastard - um título que remete a um trocadilho -, resgatando uma história baseada em fatos reais, nos anos 1980, sobre duas irmãs obsessivas e inseparáveis, as gêmeas inglesas Greta e Freda Chaplin.

Como as personagens verdadeiras, as irmãs (não gêmeas) Rooney e Kate Mara vivem na tela as protagonistas, aqui rebatizadas de Joan e Jean Holbrooke, emulando sua sincronicidade para tudo na vida, andando, falando, escrevendo cartas ou fazendo limpeza na casa. Inseparáveis, elas se apaixonam por um vizinho cafajeste, Gareth Mulroney (Orlando Bloom), que divide seus favores sexuais. Quando ele decide romper com elas e casar-se com outra mulher, elas começam a assediá-lo com atos violentos, incapazes de aceitar a separação, o que as leva ao tribunal.

Até aí, a história baseia-se em fatos reais, mas Herzog vai além, imaginando que futuro poderiam ter estas duas criaturas tão inadequadas para a realidade cotidiana, vivendo num mundo próprio - e que o roteiro conduzirá a caminhos cada vez menos realistas, incluindo uma misteriosa caverna que se torna um símbolo para todo tipo de utopia.

Se o octagenário diretor alemão construiu seu prestígio no começo da carreira, nos anos 1970, com histórias estranhas, como Aguirre, A Cólera dos Deuses (1972) e O Enigma de Kaspar Hauser (1974), mais recentemente ele se deu melhor com documentários, como A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010) ou até Elefantes Fantasmas (exibido aqui em 2025). Bucking Fastard não tem a consistência de nenhum de seus melhores trabalhos. Avança na bizarrice, conta com interpretação empenhada das duas intérpretes mas não empolga.