Veneza abre com filmes explorando origens das fake news e do fascismo
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 02/09/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Veneza - O primeiro dia do festival, como se poderia esperar, foi de aberturas das seções Competição e Horizontes, com dois filmes que, ambientados no passado, repercutem em temas cruciais do presente: as fake news e o crescimento do fascismo.
Ink, do diretor inglês Danny Boyle, abriu a corrida ao Leão de Ouro com um filme que recorda a ascensão meteórica do jornal sensacionalista The Sun, no final dos anos 1960, a partir de uma associação, que a esta altura se pode considerar sinistra, entre o empresário australiano Rupert Murdoch (interpretado com veneno por Guy Pearce) e o jornalista Larry Lamb (Jack O’Connell), que se torna o editor-chefe do jornal.
Com seu habitual estilo frenético e embalado em rock pesado, na trilha assinada por Daniel Pemberton, refletindo a alta voltagem dos acontecimentos, Boyle desenvolve a relação visceral entre estes dois homens altamente ressentidos pela rejeição sofrida em suas trajetórias, e que se transforma num combustível mais inflamável para alimentar uma ambição que não conhece limites - muito menos éticos - para atingir um único objetivo: levar o nanico The Sun a superar seus concorrentes tradicionais, tornando-se o jornal mais vendido do mundo.
É um filme de época, que começa em 1969, mas que ao expor as vísceras dessa exacerbação sensacionalista, seduzindo o público com o apelo à violência, nudez e as emoções mais primárias, permite conectar essa fome pelo escândalo e o exótico com a onda atual das redes sociais, procurando manter cativas as atenções de milhões não importa de que maneira.
De todo modo, Ink serve para lembrar que nada disso que vemos hoje começou ontem e nem Rupert nem Lamb foram os únicos a recorrerem a esse apelo desenfreado - mas certamente foram dos mais empenhados. O que interessa à narrativa é o processo de como estes dois associados jogaram por terra qualquer barreira, que travava até certo ponto outros jornais populares da Inglaterra, como o Daily Mirror. Essa falta de limites fica escancarada no trágico episódio do sequestro de Muriel McKay (Lucy Russell), mulher do sócio de Murdoch, Alick McKay (Jonathan Hyde).
Não será pouca coisa também Ink servir como material de reflexão sobre o real significado de jornalismo.
Guerra da Espanha
Já o filme de abertura da seção Horizontes, La Ragazza con la Leica, de Alina Marazzi, uma coprodução entre Itália e Alemanha, resgata a figura da fotógrafa Gerda Taro (Emilia Schüle) e sua ligação com Robert Capa (Aaron Altaras). Materializando sua ficção, mas utilizando-se de considerável quantidade de materiais de arquivo, o filme retrata a personalidade livre desta jovem, que não viveu sequer 27 anos, mas consumiu sua chama amorosa e criativa com um fôlego e paixão admiráveis.
O valor que esta história possa ter refere-se mais à atenção com o crescimento do fascismo, que angustiava sobremaneira Gerda - uma alemã de origem polonesa e judia, que fugiu do nazismo que se iniciava, radicando-se em Paris, e dedicou sua curta vida a retratar a luta dos republicanos espanhóis contra os golpistas de Francisco Franco.
É pena que, num determinado momento, o filme sucumba à tentação de focalizar demais as ligações amorosas de Gerda com outros homens, como o médico Georg (Lucas Englander), o amigo Willy (Thomas Schubert, de Afire) e também a amiga Ruth (Luna Wedler, que venceu o prêmio Marcello Mastroianni como revelação aqui em Veneza, no ano passado, no filme húngaro Amiga Silenciosa). Gerda Taro continua à espera de uma biografia à sua altura.
