31/08/2026

Veneza desembarca seu bloco europeu com poucas presenças latino-americanas

O 83º Festival de Veneza começa na próxima quarta (2/9), trazendo uma seleção que privilegia, mais uma vez, a produção europeia e com pouca presença hollywoodiana, apenas nomes norte-americanos mais independentes - o que tem sido uma tendência nos últimos grandes festivais.

A presença latino-americana será novamente modesta. Porém, na competição principal, foi incluída uma coprodução entre Brasil e Itália, Retorno a Buenos Aires (foto ao lado), de Marco Bechis, com elenco protagonizado pelo italiano Adriano Giannini, ao lado dos atores brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy. As filmagens transcorreram entre Porto Alegre e Turim. Por questões logísticas, aliás, Porto Alegre acabou substituindo a maior parte das locações de Buenos Aires, dada a semelhança entre as duas cidades. Fachadas, ruas secundárias, uma fábrica abandonada, um bar e um clube da capital gaúcha forneceram a maioria dos ambientes portenhos. Alguns planos de passagem, filmados com drones, foram realmente feitos em Buenos Aires, segundo um dos produtores, Beto Rodrigues.

Esta é a segunda vez que o realizador chileno Bechis entra na competição veneziana com uma coprodução com o Brasil. A primeira foi em 2008, com o drama Terra Vermelha, que reunia Matheus Nachtergaele e Leonardo Medeiros no elenco.

Drama político, Retorno a Buenos Aires retrata a volta do ex-prisioneiro político Mariano Guerra (Giannini) à capital argentina para testemunhar no julgamento daqueles que o aprisionaram e torturaram durante a ditadura local. A ocasião serve para que reencontre outros sobreviventes e se coloque a questão sobre o significado de ter permanecido vivo.

Semana da Crítica

Outro filme brasileiro, London (foto ao lado), escrito e dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, conhecidos pelo premiado curta Zagêro (2024), foi selecionado para a Semana da Crítica.

Na trama, London (protagonizado pelo diretor e roteirista Victor Di Marco) é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência através de um exame médico. Com os resultados em mãos, ele terá que decidir se sua vida será guiada por um diagnóstico ou pelos seus sonhos. Ao se encontrar um mundo hostil à sua presença, o protagonista terá que reinventar forças para se libertar e descobrir quem realmente é.

O elenco é formado por Victor Di Marco, Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A direção de arte é de Valeria Verba. Bruno Polidoro é o diretor de fotografia e a trilha sonora vibrante é assinada por Vito O. Azevedo.

A diretora da Settimana Della Critica, Beatrice Florentino, afirmou que há anos não via um longa de estreia realizado com tamanha segurança, precisão e maturidade emocional: “London é uma celebração da vida, da delicadeza, do desejo e do amor. Um filme que abraça a sexualidade como uma força vital, recusa rótulos e nos lembra que o maior ato de coragem é simplesmente habitar o presente”.

Concorrentes ao Leão de Ouro

Além de Retorno a Buenos Aires, outros 19 filmes concorrem ao Leão de Ouro e demais prêmios da seção principal. Entre eles, o já anunciado filme de abertura britânico Ink, de Danny Boyle; Company, do norte-americano Casey Affleck, drama que tem Nick Nolte e Ben Mendelsohn no elenco; Kami Nour (A Bit of Light), do iraniano Ali Asgari; Un Bon Petit Soldat, de Stéphane Brizé, com Alba Rohrwacher e Vincent Lindon; o italiano Il Fuoco che Ti Porti Dentro, de Edoardo di Angelis; Woman Unknown, da diretora dinamarquesa May El-Toukhy (Rainha de Copas); Bucking Fastard, retorno à ficção do premiado alemão Werner Herzog, com Kate Mara, Rooney Mara e Orlando Bloom no elenco; 15/18 - A Place to Heal, do francês Cédric Kahn; Dau, do diretor russo Ilya Khrzhanovsky; Look Back, do diretor japonês Hirokazu Kore-eda; Possible Love, do veterano sul-coreano Lee Chang Dong; Wild Horse Nine, do britânico Martin McDonagh (Os Banshees de Inisherin), com John Malkovich e Sam Rockwell; Succederà Questa Notte (foto acima), de Nanni Moretti, com Louis Garrel e Jasmine Trinca; Primetime, do norte-americano Lance Oppenheim, com Robert Pattinson; The Echo Chamber, do italiano Andrea Pallaoro, com Luca Marinelli, Alicia Vikander e Susan Sarandon; Un Peu Avant Minuit, de Nicolas Pariser, com Melvil Poupaud e Chiara Mastroianni; L’Estranea, do italiano Paolo Strippoli, com Jasmine Trinca; Mr. Nelson, did You Kill People?, do japonês Shinya Tsukamoto, abordando a guerra do Vietnã; e Bunker, do francês Florian Zeller, com Penélope Cruz e Javier Bardem.

Os documentários

Dentro da seleção, um destaque fora da competição pelo Leão de Ouro é a extraordinária coleção de documentários que deverão fazer sua première no Lido, vários deles dirigidos por cineastas consagrados.

Passam por ali os novos trabalhos de três respeitados norte-americanos vencedores do Oscar da categoria: Alex Gibney (Um Táxi na Escuridão) apresentará o aguardado Musk (foto ao lado), em produção desde 2023, chegando às 4 horas de duração, detalhando a polêmica trajetória do bilionário Elon Musk; Barbara Kopple, realizando em Union Town a terceira parte de uma trilogia sobre o mundo do trabalho, iniciada por Harlan County: Tragédia Americana (1976) e American Dream (1970), agora focalizando a luta dos trabalhadores das empresas de entregas por seus direitos; e Laura Poitras (Cidadãoquatro) traz na bagagem um novo curta, codirigido com Rachel Mueller, They’re Here, com imagens inéditas da atuação do ICE contra imigrantes e ativistas na cidade de Minnesota.

Mas há muitos outros títulos dignos da maior atenção como um novo doc do isralense Amos Gitai, The Road to Jericho, resgatando a memória do primeiro acordo de paz assinado pelo ex-primeiro ministro Yitzhak Rabin, voltado prioritariamente à paz em Gaza e Jericó - onde hoje uma reduzida comunidade beduína está seriamente ameaçada.

A coprodução entre a Palestina e a França Citizen Osama traça o perfil de um fotógrafo que se tornou documentarista de guerra, tentando sobreviver em Gaza junto com sua mulher e um filho bebê.

Uma ambiciosa Biografía de Jorge Luis Borges, assinada pelo argentino Mariano Llinás, procura, em 330 minutos, dar conta da figura do genial escritor, morto em 1986. Outro perfil, este do arquiteto Peter Zumthor, tem a assinatura do alemão Wim Wenders, em From Inside Out - The Architecture of Peter Zumthor, que recorre ao 3D para mostrar a dimensão das obras do personagem.

Artistas em foco

Obras sobre artistas também estão em Oasis: Don’t Look Back in Anger (foto ao lado), de Dylan Southern e Will Lovelace, retratando o tour de retorno da banda, em 2025, e trazendo a primeira entrevista em 25 anos dos irmãos Liam e Noel Gallagher. Outro título nessa linha é What Love Builds, segunda investida na direção do ator neozelandês Russell Crowe. Trata-se de um relato autobiográfico, destacando sua ligação com a música e a atuação de sua banda Indoor Garden Party, um trabalho que lhe tomou 15 anos, mergulhando em imagens recolhidas ao longo de mais de quatro décadas.

O japonês Miike Takashi deixa de lado seus habituais filmes de ação e volta sua câmera para uma tradicionalíssima arte de seu país em Shumei: The Living Legacy of Kabuki. E o premiado cineasta malaio Tsai Ming-Liang retorna com um ensaio poético em Weichen (Dust).

A temática LGBTQIA+ entra forte em Queer Eduard II, de Theo Rollason, focalizando os bastidores das filmagens de Eduard II, de Derek Jarman e os dilemas da visibilidade queer desde os anos 1990.

O veterano bielorusso-ucraniano Sergei Loznitsa também retorna com Imperium, em que atravessa arquivos entre 1970 e 1973 para focalizar a União Soviética. O premiado russo Victor Kossakovsky (Architecton), por sua vez, centraliza a figura do neurobiólogo Stefano Mancuso para tratar do tema da vida e morte do reino vegetal em Holy Wood Dust.


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