Coprodução Brasil-Itália fecha a competição e drama gaúcho vence Queer Lion
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 11/09/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Veneza - Concorrente que fechou a competição ao Leão de Ouro, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis, é uma coprodução entre Brasil e Itália, colocando no centro de sua contundente narrativa as memórias dolorosas, os ajustes de contas e as culpas dos sobreviventes das ditaduras militares do continente sul-americano. É a segunda vez que Bechis concorre ao Leão de Ouro. Na primeira vez, em 2008, competiu com outra coprodução com o Brasil, Terra Vermelha, que focalizava a luta dos indígenas guaranis no Mato Grosso do Sul.
Se a história concreta deste novo filme se passa em Buenos Aires, como informa o título, os acontecimentos que a povoam ocuparam na história recente vários países do continente: a própria Argentina, o Chile (país natal do diretor Marco Bechis), o Uruguai e também o Brasil. Bechis, que viveu na pele a repressão política daqueles dias e já transformou sua vivência em filmes como o premiado Garagem Olimpo (1999), volta mais uma vez a um tema incontornável e necessário, especialmente diante das tentativas de apagamento desse período sombrio da história.
O protagonista é Mariano Guerra (o ator italiano Adriano Giannini), um homem solitário e amargurado que se esconde das memórias dolorosas de juventude morando em Turim. O passado o assalta novamente quando é convocado como testemunha num processo que se desenrola em Buenos Aires, em 2008, em que seu depoimento é essencial para a condenação de um grupo de militares envolvidos com a guerra suja. Mariano resiste muito a essa volta, atormentado pela possibilidade de ressuscitar fantasmas que nunca cessaram de assombrá-lo.
É notável a perícia de Bechis, aqui também corroteiriista ao lado de Vijaya Bechis Boll, no controle do tempo e do ritmo desse percurso interior do personagem, revisitando um passado que continua vivo dentro dele, por razões que só serão compartilhadas com o público aos poucos, no devido tempo.
Essas lembranças trazem de volta um período em que Mariano, estudante de medicina conhecido pelo apelido de Tano, militava na oposição ao regime militar argentino, o que o levou a sofrer dois anos e 46 dias de prisão no pesadelo da Garagem Olimpo - um grande galpão, transformado em centro de torturas, de que poucos saíram vivos, porque eram destinados aos chamados “voos da morte”, em que os militantes eram jogados no mar. Os que escaparam vivos, como Tano, pagaram um preço que, mesmo décadas depois, têm dificuldade em elaborar, carregando consigo a culpa que na verdade só pertence aos verdugos que os submeteram.
No elenco, estão dois atores brasileiros: Eduardo Hoy, vivendo o papel de Tano jovem, e Paula Cohen, interpretando a juíza Desideria Lozada, que terá uma participação marcante na segunda parte do filme, quando se processa o julgamento dos militares.
Uma curiosidade é que boa parte das locações vistas no filme e identificadas como Buenos Aires foram, na verdade, filmadas em Porto Alegre, por questões logísticas. É o caso de sequências no galpão de torturas, no hotel e no tribunal, que foram caracterizados para identificar-se com a paisagem e locais bonaerenses, aproveitando semelhanças entre as duas capitais. Em Buenos Aires, foram filmadas algumas panorâmicas gerais, com drones. Outras cenas do início do filme foram filmadas na cidade italiana de Turim.
Queer Lion para o Brasil
Único filme brasileiro na seleção veneziana, na Semana da Crítica, o drama London, escrito e dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, venceu o prêmio Queer Lion da 83ª edição do Festival de Veneza.
Filmado em Porto Alegre, o filme acompanha London (o diretor e roteirista Victor Di Marco), um jovem com deficiência que trabalha fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches. No entanto, tudo muda quando descobre a origem e o destino de sua deficiência através de um exame médico. Ele entra num impasse com a possibilidade desse diagnóstico e se recusa a deixar que ele molde completamente sua vida daqui em diante.
O filme será distribuído no Brasil pela Retrato Filmes.
