13/09/2026

Gaza, Irã e crise moral: a competição de Veneza termina com peso político

Terminou nesta manhã de sexta (11) a competição de Veneza 83 com a exibição de
Retorno a Buenos Aires, único representante brasileiro na disputa pelos prêmios principais. Na verdade, é um ‘mezzo’ representante, já que se trata de co-produção Itália e Brasil, dirigida pelo ítalo-chileno Marco Bechis. Foi o indício definitivo de que os organizadores deixaram um bloco de filmes soturnos para a reta final, quem sabe porque grande parte da imprensa e indústria do cinema já debandou para o Festival de Toronto. O fato é que esses títulos derradeiros trouxeram carga mais política e impactante a uma disputa morna pelo Leão de Ouro.

Comecemos pelo que trabalha esse escopo de maneira mais explícita. Naza (foto ao lado), assim mesmo com ‘z’’, não tem nenhuma relação ou sugestão com o serviço aeroespacial norte-americano. O documentário de Yuval Abraham – um dos diretores de Sem Chão (No Other Land), vencedor do Oscar de documentário em 2025 - e Rachel Szor aborda um programa de inteligência militar israelense voltado a fazer o que o governo de Benjamin Netanyahu tem se dedicado desde outubro de 2023 – matar palestinos. O procedimento de tecnologia sofisticada se utiliza, contudo, de um estratagema relativamente simples. Detecta sinais de celulares em uso na Faixa de Gaza para rastrear um aglomerado de pessoas em local fechado em número que possa sugerir uma reunião política. Em outras palavras, as de Israel, de terroristas do Hamas.

Confirmada a situação, mira-se o alvo e destrói-se o prédio com mísseis. E por que Naza? É como o projeto se refere aos danos colaterais, civis que podem nada ter com o grupo ativista, mas morrem em nome da execução dos integrantes. Não importa se mulheres, crianças ou idosos. A notícia de tal estratégia chegou a circular no início do endurecimento do conflito, mas era tarde demais.

Por si só, mergulhar nos meandros de um programa ligado diretamente ao gabinete do primeiro-ministro já seria provocador. Mas a dupla de diretores utiliza o expediente de entrevistar responsáveis e funcionários do departamento em atividade ou que o abandonaram, uma conquista notável. Eles dão seus depoimentos protegidos pelo anonimato, com voz modificada e de perfil que se integra à escuridão de tomadas noturnas realizadas no topo de um edifício em Tel Aviv. Dali saem revelações de arrepiar, como a de que corpos de palestinos espalhados pelas ruas depois de tais ataques ficam à mercê de cachorros esfomeados. Se há vozes horrorizadas e arrependidas, há também as orgulhosas. Elas estimam que milhares foram mortos pelo programa. Não se sai da sala de cinema incólume depois desses relatos e de saber a que ponto chegou a “humanidade”. O documentário faz contraponto, embora pelo mesmo viés dos responsáveis pelo horror, com A Voz de Hind Rajab, ficção baseada em fatos estreada no festival do ano passado e premiada com o Grande Prêmio do Júri. A ver se esse petardo balança também o colegiado deste ano.

É outro conflito bem próximo no Oriente Médio o pano de fundo de A Bit of Light (foto ao lado), do iraniano Ali Asgari, agora na ficção. Os cinéfilos vão lembrar de Gosto de Cereja, do compatriota Abbas Kiarostami, quando no início um homem dirige a esmo buscando uma pessoa qualquer que possa sepultá-lo. Ele decidiu se matar e precisa de alguém para a tarefa. A decisão do médico protagonista de Asgari é a mesma, mas não importa como fará e muito menos precisa de ajuda. Como médico, ele conhece os meios e o fim. Sua deambulação é outra. Antes do suicídio, ele previne o irmão, incumbe-o de cuidar do gato, arruma as plantas no carro para se desfazer delas, e vai em busca das irmãs e da mãe para o adeus.

Mas há obstáculos. A filha de um paciente idoso implora a ele uma nova receita e o médico é obrigado a ir ao consultório. Fica-se sabendo, então, que sua sala está lacrada pela polícia. Mais adiante, com as irmãs, revela-se que ele atendeu manifestantes feridos durante os protestos. Aqueles que o noticiário nos tem trazido nas recentes revoltas contra o governo local e a guerra de Trump. Preso, conheceu o horror
do regime. Está desiludido, portanto, e nem os pedidos das irmãs o demove. O filme é duro, enxuto em sua hora e meia, um ensinamento para roteiros extensos e sem muita perspectiva nessa edição veneziana. Termina melancólico, sugerindo talvez o pouco de luz a que se refere o título. Traz, ainda, uma bela interpretação masculina de Misagh Zareh, impondo dúvidas ao júri que ainda veria o italiano Adriano Giannini em ótima atuação no filme de Bechis, e depois de bons desempenhos ao longo do festival.

Dificilmente, no entanto, a Copa Volpi irá para o francês Melvil Poupaud, o protagonista de Un Peu Avant Minuit, um pouco antes da meia-noite, em tradução direta. Não que seu trabalho não mereça, mas o personagem idealizado pelo diretor e roteirista Nicolas Pariser desafia os tempos atuais como um macho que revê sua trajetória um tanto tóxica com as mulheres quando jovem. O gatilho vem quando ele passa uns dias em Paris, à espera da agenda com um notário na Itália, onde seu pai morreu e precisa tratar da herança. Decide rever os amigos – e namoradas – dos tempos de jornalismo em uma revista independente.

Os encontros trazem revisões e recalques, fazem o conquistador repensar atitudes, mas não a ponto de evitar levar para a cama a mulher de um amigo. Tudo isso num formato bastante recorrente do cinema francês, com muitas conversas e caminhadas pela capital francesa. Amanhã, sábado 12, a partir das 14h no Brasil, saberemos se houve espaço na premiação para o competidor em tempos de #metoo.