14/09/2026

Dramas de família embalam a competição em Veneza

Veneza - Há alguns aspectos que se conectam nos filmes concorrentes da Veneza 83, agora em sua reta final, com apenas mais três representantes a serem exibidos. Um deles é o conceito de huis clos, o espaço fechado onde se dá a trama. O quinto e último candidato italiano — se considerarmos a coprodução Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis —, mostrado na manhã de quarta (9), leva o formato ao extremo.

Il Fuoco che Ti Porti Dentro (foto ao lado) se passa todo dentro de um apartamento na véspera de Natal. Ali acontece o habitual, fácil de imaginar, quando integrantes de uma família têm diferenças entre si e aos olhos da matriarca. Esta não alivia para ninguém, pelo contrário. Como sabemos, só muda de endereço, no caso Milão, mas agravado pelo fato de se tratar de um clã napolitano.

É o antigo contexto meridional que divide a Itália ao meio, portanto, que o diretor Edoardo De Angelis também explora nessa sua comédia dramática. E se pode dizer, mercurial. A mamma e avó desbocada, afiada, prepara a ceia e tem ofensas para todos, o filho fracassado como escritor e sua mulher benevolente que a acolhe, a filha afeita a troca constante de credos religiosos, o neto que por estudar balé clássico é por força gay. Uma terceira filha distante pode nem comparecer ao jantar. A fervura dos ânimos vai aumentando, e algumas taças de espumante depois, vem a explosão. Já vimos isso na tradição cômica do cinema italiano, e claro, Mario Monicelli é a primeira referência. Se De Angelis não tem a sofisticação e o cinismo do mestre, seu filme diverte, como se comprovou na sessão, melhor aproveitada pelos locais dada as piadas e citações sempre particulares a uma cultura.

Outro apelo em comum aos concorrentes tem sido as interpretações femininas fortes. A Itália saiu na dianteira com Jasmine Trinca em dose dupla, melhor no papel da mulher casada que se abre a uma nova paixão em Succederà Questa Sera, de Nanni Moretti. Também Vanessa Scalera, vista no Brasil recentemente em Diamantes, fez sensação hoje no papel da matriarca amarga da comédia de De Angelis. Quando não parecia haver mais rivais para a dinamarquesa Mathilde Arcel no drama Woman Unknown, outra italiana desafia o júri. Alba Rohrwacher é tão presente no cinema local (e europeu em geral) que a frequência talvez a prejudique. Mas sua presença em Un Bon Petit Soldat (foto ao lado), do francês Stéphane Brizé, é notável como a mulher contemporânea atribulada entre carreira, maternidade e pressões diversas.

No drama exibido na segunda parte da manhã, Alba é a chefe de recursos humanos de uma seguradora dirigida por um CEO tóxico (Vincent Lindon), às voltas com uma campanha publicitária destinada a vender a empresa como inclusiva. O chefão detesta o filme e desanca a moça. Abre-se a crise e vem o estresse, extensivo ao filho adolescente que vai mal nos estudos, ao ex-marido paciente demais, a uma funcionária apática e sua líder rigorosa. Mais uma vez, a vida corre dentro do escritório, a comunicação por telas,
em ambiente corporativo disruptivo que não dá trégua. Incomum em seu cinema, o humor contudo confere certo respiro ao filme de Brizé, nos hilários processos de integração entre empregados, os workshops repletos de platitudes e frases feitas de uma literatura rasa. Mas o assunto é sério, e Brizé sabe empregar os termos justos a um universo desestabilizador.