20/09/2026

Distopia erótica brasiliense encerra a competição

Brasília - A competição de longas encerrou-se na noite de sexta (18) com outro exemplar sintonizando a distopia, o filme brasiliense Sabes de Mim, Agora Esqueça (foto ao lado e abaixo e da equipe no debte), em que a diretora Denise Vieira materializa um mal-estar futurista no relato ambientado num bordel na Ceilândia, realizando um filme que retoma a franqueza das cenas sexuais há tempos abandonada pelo cinema brasileiro.

Se a distopia foi uma das marcas da seleção deste ano, é fato que houve produções que lidaram com mais talento e criatividade o tema. Por isso, no dia em que serão anunciadas as premiações do festival, neste sábado (19), não se pode deixar de destacar a superioridade de Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco (GO), uma criativa denúncia da homofobia e do conservadorismo do Brasil profundo através de uma história pessoal, em que a franqueza erótica é também uma das marcas; de Se Eu Fosse Vivo…Vivia, em que André Novais de Oliveira soma uma nota de realismo fantástico ao naturalismo humanista de seu cinema; e à sofisticação técnica e o engenho do roteiro de Ana, En Passant, de Fernanda Salgado (MG), elevando a animação ao patamar dos melhores filmes exibidos no festival.

Feminismo erótico

Voltando a Sabes de Mim, Agora Esqueça, há um veio feminista nesta história, roteirizada também por Denise Vieira, premiada diretora de arte de filmes como Branco Sai, Preto Fica (2014) e Mato Seco em Chamas (2022), de Adirley Queirós, aqui atuando na produção executiva. Esta formação traduz-se, aliás, no ponto forte da produção, a ambientação, retratando o cabaré Toca numa kitchenette que se multiplica em vários espaços e incorporando os trilhos de uma estrada de ferro semi-abandonada que transmitem a sensação de fim do mundo que se procura.

Há ousadia na forma explícita como se mostram as cenas de sexo neste bordel, o Toca, comandado por uma velha senhora, Margô (Cida Souza), que acolhe diversas jovens que ali chegam como último refúgio de salvação contra a ação pistoleira dos Lanternas - homens que as perseguem nos espaços onde elas fazem suas rondas à procura de clientes, manifestando intenções agressivas.

A mais recente recém-chegada ao local é Rubia (Pietra Sousa), a única a ouvir misteriosos sons no local, que a levam a descobrir um dispositivo de esquecimento, sua vingança contra estes machos que as procuram para prazeres em que as moças, afinal, é que comandam. Um esquecimento que é essencial para que estes clientes não revelem a localização desta Toca, já que estas mulheres são caçadas pelos Lanternas.

Exibido no Festival de Tiradentes e premiado no FID Marseille, o filme evoca um clima de desconforto, quebrado eventualmente pelas conversas das moças detalhando práticas sexuais - e que foram filmadas a partir de improvisações sugeridas pela diretora. No entanto, são raros estes momentos de humor e de respiro, num filme tenso, que procura acima de tudo a energia dos corpos no sexo. Na coletiva de imprensa, comentou-se que algumas das atrizes do elenco realmente foram trabalhadoras do sexo.

Realismo mágico

Neste filme em que o espaço, como disse o diretor de fotografia Victor de Melo, “o espaço é apresentado pelos corpos”, há um toque de realismo fantástico, tanto no dispositivo do esquecimento quanto em afirmações, como a da matriarca Margô, que diz ter 258 anos e ter morrido 50 vezes.

Imagens de arquivo no começo do filme também remetem à construção de Brasília, mostrando prostitutas, com um texto que trata dessa atividade como um problema crônico, remetendo à ideia da mais antiga profissão do mundo.

Este indício de realismo mágico, assim como o dispositivo misterioso no final de um corredor, no entanto, é menos explorado, num filme que se deleita na exposição dos corpos e do sexo dentro do bordel, sugerindo que ele existe num lugar onde outras habitações e atividades, como casas, comércio e agricultura, parecem não existir mais. A única intrusão do mundo externo é sonora, com as manifestações estridentes de cultos evangélicos condenando como pecaminosas as atividades sexuais.

Sabes de Mim, Agora Esqueça tem seu valor também por algumas sequências cinematográficas marcantes, como o início, com a perseguição das moças sob a luz de lanternas, e a final, em que as personagens perfilam-se ao lado da linha em que um trem que, finalmente, parece estar se movendo para fora dali.

Curtas

Primeiro filme de Rondônia a ser selecionado para o festival, Poronga, de Rafael Rogante (codiretor do premiado curta Ela Mora Logo Ali), cria uma metáfora para a opressão da floresta acompanhando a luta de sobrevivência de dois seringueiros, num filme quase sem diálogos e que insinua o peso do moralismo cristão contra a homossexualidade.

Banho de Choque, de Cíntia Lima (PE), coloca em cena os conflitos de Lélia (Gheuza). Ao voltar para sua cidade natal depois de anos, ela reencontra velhos afetos nas amigas mas também se reinicia uma antiga rivalidade com o irmão (Jailson Silva). Emoções que se desencadeiam quando o grupo visita uma barragem e enfrentaum fenômeno fantástico, que a diretora contou ter-se inspirado numa lenda local da Zona da Mata pernambucana, da Comadre Florzinha.