O realismo fantástico se junta ao afeto em “Se Eu Fosse Vivo…Vivia”
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 18/09/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Brasília - Teve sua première brasileira em Brasília o aguardado novo longa do cineasta mineiro André Novais Oliveira, Se Eu Fosse Vivo… Vivia, que marca a estreia da celebrada escritora Conceição Evaristo como atriz. Ela interpreta Jacira, mulher que há 50 anos se casou com Gilberto (Norberto Novais Oliveira), vivendo uma intimidade agora assombrada pela dúvida dela: “Com quem você vai ficar se eu morrer?”. Gilberto se recusa a embarcar nessa perspectiva angustiante, preferindo entreter-se com as revistas sobre ufos e alienígenas - um detalhe que vai fazer sentido no resto da história, sobre a qual é fundamental não dar spoilers.
Em entrevista exclusiva que me concedeu em Berlim, onde o filme teve sua première mundial na seção Panorama, em fevereiro, o diretor contou que seu gatilho inicial para escrever a história foi a morte, em 2018, de sua mãe, Maria José, que atuava em seus filmes. Norberto, seu pai, é o protagonista neste novo filme.
Este vínculo familiar que marca vários filmes da produtora mineira Filmes de Plástico assume aqui um aspecto mais ambíguo, já que a intimidade familiar deste casal, que se conheceu em bailes black dos anos 1980, cede progressivamente espaço a uma estranheza que vai tomando conta até mesmo de seus hábitos mais arraigados: como o costume de Gilberto de descascar uma laranja e guardar para si apenas a parte de cima dela, compartilhando a maior parte com a companheira.
As baladas black dos anos 1970 estão presentes na primorosa primeira parte do filme, filmada em 16mm, em todo o seu colorido, com direito aos figurinos estampados e brilhantes, às pantalonas e sapatos-plataforma e à profusão de cabeleiras black power além de uma esplêndida trilha musical assinada pelo grupo Metá Metá. Mas, tanto aqui, quanto na segunda parte do filme, insere-se a carinhosa veia suburbana desta Contagem que é o cenário da obra dos diretores da Filmes de Plástico e um dos ambientes também aqui. Assim, conta-se com deliciosas sequências, como a que o jovem Gilberto (Jean Paulo Campos) escapa do castigo imposto pelo pai pela janela para cantar uma serenata para a amada Jacira (Tainá Evaristo), que está magoada com ele e com quem ele quer dançar na balada.
Esta primeira metade do filme é tão saborosa que se ressente quando estes dois jovens somem de cena, após um incidente que só fará sentido bem depois - embora, como outros detalhes do filme, não seja de fácil decifração. O roteiro, também assinado por André Novais Oliveira, flerta decididamente com um aspecto bizarro, impregnado pelo realismo fantástico que ele sintonizou tão bem no curta Quintal (2015), e que permite que toda lógica escape pelas brechas. Novais quer conduzir seus espectadores num caminho mais acidentado, em que semeia cortes bruscos, estranhezas, personagens perdidos que não conseguem voltar para casa e pessoas à espera de uma nave espacial que pode não passar de um delírio.
Investido da intenção assumida de não se manter sempre fazendo o mesmo filme, correndo riscos na inovação de abandonar um caminho mais naturalista, Novais mostra acreditar no sonho que o cinema pode alimentar em cada um e assumir uma forma individual, de conforto ou de inquietação. Ambos, de preferência.
Universo indígena
Produzido em Praia Grande (SP), a partir de uma oficina de cinema levada a uma aldeia Mbyia Guarani, a Tekoa Mirim, o curta Tiró e a Onça, de Wera Poty, traduz a tendência do aumento da quantidade e da qualidade da produção cinematográfica indígena. Surgindo da intenção de guardar a memória da experiência dramática de um ancião, Tiró, o filme reconstitui sua antiga aventura no encontro de uma onça. Numa montagem que ambiciona um criativo hibridismo, juntam-se trechos de uma entrevista com o próprio Tiró, a reencenação do episódio, os bastidores da filmagem e o compartilhamento do próprio filme em processo com os membros da aldeia, que devem aprovar sua condução.
Ao fazê-lo, o realizador divide com o público do curta uma parte substancial dessa cultura indígena baseada no conceito de comunidade e, como o resto da sociedade, ameaçada por um avanço descontrolado da tecnologia que coloca em questão a tradição oral das conversas em torno de fogueiras. Na coletiva do filme, o próprio diretor ressaltou essa intenção de utilizar a tecnologia em favor da preservação da cultura e da memória locais usando ferramentas como o próprio cinema. A aldeia já está envolvida na produção de um novo curta, Perigo na Mata, uma ficção com um toque de ação e terror, que deve estar pronta até dezembro.
