"Privadas de suas vidas"une gore, comédia e crítica social
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 17/09/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Brasília -
Combinando terror, escatologia, comédia e melodrama, Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner (SP), arrisca ser o filme mais surpreendente da mostra competitiva do festival.
Acumulando a passagem por diversos festivais internacionais do mundo, começando por Roterdã, em fevereiro, a obra sacudiu a plateia do Cine Brasília, entre gargalhadas, choque por algumas cenas verdadeiramente gore e também emoções delicadas - porque o roteiro, assinado pelos diretores, tem o cuidado de elaborar seus personagens muito acima da caricatura, como é raro acontecer em filmes de gênero.
Filmado em película 16mm, numa produção com vários cenários e efeitos especiais, Privadas de Suas Vidas tem outro trunfo num elenco primoroso, encabeçado por Martha Norwill, ao lado de Regina Braga, Otávio Müller, Benjamin (estreando no cinema), Olivia Torres, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Caetano Gotardo e uma participação especialíssima de Gilda Nomacce.
Dando à expressão “piadas de banheiro” um sentido literal e inteiramente novo, o filme tem no centro de sua trama um misterioso fenômeno que torna assassinas sugadoras de gente as privadas de um prédio no centro de São Paulo. Uma privada comum esteve, aliás, no centro de uma tragédia acidental na vida da protagonista, a produtora de eventos Malu (Martha Norwill), causando a morte de um de seus filhos gêmeos.
Sofrendo de uma constipação que é uma metáfora desse trauma que ela não consegue superar, Malu leva adiante sua vida, ao lado do parceiro Norberto (Fábio Marx). A filha sobrevivente, Luara, tornou-se adolescente e transicionou, adotando uma identidade não-binária, sob o novo nome de Gênesis (Benjamin), o que a mãe não aceita.
A situação central ocorre no prédio onde mora Malu e em cujo salão de festas vai irganizar um chá-revelação para a influencer grávida Suellen (Chandelly Braz), o que dá oportunidade a que o roteiro faça uma crítica sarcástica a esse fenômeno moderno e cafona. Também não falta um toque de denúncia de luta de classes na situação do porteiro Villaça (Otávio Müller), prestes a ser demitido após 18 anos de exploração.
Tirando proveito de um orçamento generoso para esse tipo de produção (cerca de R$ 5 milhões), Privadas de Suas Vidas coloca em cena todo um pesadelo em várias sequências em que moradores vão sendo sugados de maneira mais sangrenta, como a mística Katka (a ótima Olívia Torres) e a idosa Emengarda (Regina Braga), semeando a trilha de um massacre que reflete um mundo distópico mas em que sentimentos genuínos podem, no seu devido tempo, nascer.
O também diretor Caetano Gotardo entra como ator, interpretando um palhaço no chá-revelação, e também como compositor de duas canções da trilha, inclusive uma inspirada composição que embala os créditos finais e traduz o espírito de uma história que, apesar da aparência nojenta, é capaz de nos levar a vários lugares.
Animação e cultura clubber
Continuando a tendência de abrigar diversas animações, a competição de curtas exibiu a produção cearense Lagoa do Abandono (foto), em que o diretor Diego Maia compõe um relato ecológico, retratando os problemas ambientais da lagoa de Messejana, ao acompanhar os dilemas de um casal de garças para encontrar lugar seguro para o seu ninho. Realizada com técnica 2D, com desenhos que lembram aquarelas, a animação foi exibida no Festival de Annecy, em junho, o mais importante do mundo no gênero.
Outro curta da noite veio também do Nordeste. Foi o documentário Futuro Decadance, em que a estreante Leviathan, cineasta e produtora cultural que atua como DJ, resgata memórias da cena clubber da Maceió dos anos 1990, recorrendo a materiais de arquivos pessoais e entrevistas, que ela mesma organizou numa montagem bastante dinâmica e criativa, embalada pela batida de uma trilha pop vibrante.

Coletiva do filme "Privadas de suas vidas" (Crédito: Fabricio Duque)
