17/09/2026

Brasília vive noite dedicada a filmes distópicos

Brasília - Quarto concorrente da mostra competitiva, Todo o Sentimento, dos diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa, coloca em funcionamento um tipo de cinema que conjuga a busca de falar do contemporâneo do País, a atração pela metalinguagem e também um foco no afeto e na sexualidade. Seguindo assim o estilo lançado nos longas anteriores da dupla de diretores radicados na Bahia, que estrearam em Brasília 2017 com o intimista Café com Canela, vencedor de três prêmios, continuando um ano depois com o mais experimental Ilha, ao qual este novo longa oferece uma espécie de sequência.

Retoma-se aqui o personagem de Ilha, o cineasta Henrique (Aldri Anunciação), numa história que começa com uma indagação: o que aconteceria se a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 tivesse dado certo? Nesse contexto, Henrique, que ficou paraplégico num acidente, vive isolado numa ampla casa colonial, solitário e amargo com os rumos do País e de sua própria vida, impossibilitado de fazer cinema. E esse personagem semiparalisado é uma evidente metáfora das próprias frustrações dos dois diretores, dos quais ele é uma espécie de alterego.

Quebra essa rotina a chegada do jovem Gustavo (Lucas Leto), injetando alegria, provocação e sensualidade no cotidiano de Henrique, que parece ter desistido de tudo. Depois da resistência inicial de Henrique, ele acaba aceitando a presença do outro, sem que esse relacionamento deixe de sofrer atribulações.

A realidade distópica do mundo lá fora entra nesse nicho intimista dos dois através da mídia, em que são vistos personagens como pastores e apresentadores histéricos, estridentes, caricaturais em suas falas e figurinos, usando frases literais de personagens reais, como a fala da senadora Damares Alves sobre o uso de azul pelos meninos e rosa para as meninas. É visível também a intenção do filme em localizar na homofobia uma das vertentes dessa história que se quer contar.

Artificialismo

Afinal, evidencia-se um certo artificialismo no tipo de cinema praticado pelos diretores, forçando uma metalinguagem que não se sustenta bem dramaturgicamente. O filme anda um pouco melhor quando foca no relacionamento entre Henrique e Gustavo, embora pareça haver uma preocupação forte demais em não perder de vista a mensagem simbólica que não se elaborou o bastante para caber na linguagem cinematográfica de maneira mais fluida e clara.

Distopias

Voltando a Brasília depois de 4 anos, quando aqui estiveram com o premiado curta Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo, os diretores Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro entregaram em Cana um agudo retrato de um sufocamento interiorano paulista. Moradores de Assis e atuantes no polo cinematográfico Velho Oeste, os diretores retratam uma história que começa realista e assume um tom distópico, refletindo a realidade de cidades interioranas sitiadas pelo latifúndio, através da trajetória de dois jovens (os MCs Gerinho e Silas).

Dentro de uma caminhonete moderna, eles descem de uma balsa e procuram atravessar essa paisagem em que as imensas plantações de cana dominam não só o horizonte como as perspectivas de futuro, até chegarem no limite de uma barreira policial, gerando o impasse: como sair dali?

Na coletiva, os diretores destacaram que a própria caminhonete, além de referências à Starlink de Elon Musk e outros detalhes remetem “à busca do consumo, que também leva a uma frustração e ressentimento” - sentimentos que, como comentou Guilherme, estão na base da atração que a extrema-direita exerce sobre uma camada jovem da população.

Produtora de London, longa vencedor do Queer Lion no mais recente Festival de Veneza, a gaúcha Aline Gutierres apresentou seu segundo curta, Descarrilho, um flerte com a ficção científica que tem como atores Victor de Marco, codiretor e protagonista de London, e Jéssica Teixeira, também parte do elenco daquele longa, vivendo dois seres oprimidos numa realidade sombria.