17/09/2026

Documentário carioca retrata mudanças e contradições de eleitores entre 2002 e 2022

Brasília - A terceira noite competitiva deu ocasião a um pequeno recorte do Brasil dos últimos 20 anos através do documentário Tudo é Tempo, de Marcos Guttman (RJ), que acompanha quatro eleitores cariocas entre 2002 e 2022.

Entre a primeira e a terceira eleição do Luiz Inácio Lula da Silva, estes quatro eleitores de faixas diferentes da classe média de uma seção eleitoral do Rio de Janeiro oscilam entre suas convicções, afetos, expectativas e esperanças, traduzindo momentos de incerteza pelo qual o País passou nestas duas décadas de muitas mudanças e também muita instabilidade, sobretudo política.

Não se espere aqui um mergulho tão profundo quanto aquele realizado pelo mestre Eduardo Coutinho (1933-2014) em suas obras, uma assumida inspiração para o diretor Guttman. Aqui, a realização é bem mais modesta, eventualmente frustrante, pois não houve recursos suficientes para um projeto de maior ambição, ainda mais no transcurso de um período de tempo tão extenso. O próprio diretor ressaltou, na coletiva do filme, ter enfrentado problemas na captação de recursos e que o projeto chegou a ficar por anos na prateleira, sem perspectivas de lançamento.

É visível, no entanto, que houve um acompanhamento de fases importantes das vidas de Cristiane Rosa, Carlos Eduardo Ibrahin, Fernando Pereira e Heber Cunha, retratando um esforço sincero do cineasta de traduzir, ainda que de forma sintética, seus sentimentos e reflexões sobre um período de transformação do País a partir da chegada do primeiro operário à presidência da república.

Por conta das dificuldades de produção enfrentadas, no entanto, o filme ostenta lacunas, algumas trabalhando a favor, outras contra o filme, Uma delas é a omissão do período Dilma Rousseff, que culminou na ascensão de Michel Temer e Jair Bolsonaro, este mencionado de passagem num trecho. Outra limitação pode ter sido, de saída, concentrar-se em eleitores de um perfil muito semelhante, à exceção de Fernando Pereira, morador em Cidade de Deus, pertencente a uma camada mais popular, da classe trabalhadora.

O longa marca a volta do diretor ao festival depois de 34 anos, em que ele havia vencido os prêmios de melhor direção e filme experimental com o curta Lapso. Retornou depois com outro curta, Vicente, em 1995.

Animação e busca

Conhecido pela originalidade de suas criações em animação, o realizador mineiro Catapreta retornou ao festival com o curta Fundura, um trabalho belíssimo, que retrata o traço e a imaginação peculiar do artista. Remetendo a um universo fantástico em que a ancestralidade afro brasileira é sempre um elemento dominante, o diretor monta o relato sobre um camponês negro, que escapa a um massacre em que se introduz um elemento de ficção científica - pelos buracos imensos no solo e o aparecimento de um estranho cavaleiro cujo corpo parece feito de feixes de luz.

Salvo pela ação de uma mãe de santo, que lhe costura as feridas, ele se recupera e parte em direção à cidade, onde se torna segurança de uma casa noturna. Alvo de uma perseguição por um grupo de vândalos, depois de sua intervenção em defesa de uma mulher atacada por um deles, ele é protegido, mais uma vez, por uma intervenção sobrenatural, a partir de uma misteriosa caixa cheia de formigas.

O outro curta da noite foi o documental Cidão, em que a diretora campineira radicada em Goiás Alessandra Gama procura ordenar os fragmentos de lembranças e informações sobre a figura de seu pai, misteriosamente assassinado em 1º de maio de 1981, quando ela tinha pouco mais de 3 anos. A partir desta ausência, a cineasta procura preencher as lacunas a partir de fotos, relatos de parentes e suas tênues lembranças, compondo um painel de sons e imagens tão fluido quanto costumam ser as memórias.