“Pequenas Tragédias” resgata memórias e expõe homofobia
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 14/09/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Brasília - A segunda noite competitiva do festival resgatou sua vocação de afrontar polêmicas, apresentando como longa concorrente Pequenas Tragédias (foto ao lado), um ousado representante do cinema queer, dirigido pelo cineasta goiano Daniel Nolasco.
Tendo na bagagem longas como Vento Seco (2020) e Apenas Coisas Boas (2025), Nolasco retorna à sua cidade natal, Catalão, no sudeste de Goiás, relembrando a própria história e de alguns amigos ou conhecidos para delinear o mapa de uma homofobia latente numa região de alto desenvolvimento econômico, apoiado na mineração e no agronegócio, um ambiente em que a masculinidade tóxica se expressa sem censura.
Neste criativo híbrido de ficção e documentário, Nolasco vale-se de diversos recursos ficcionais para relatar histórias reais, inclusive a dele próprio, iinserindo comentários de um humor sarcástico que cai na medida para que a própria seriedade deles não se torne pesada demais. Outro aspecto que poderá surpreender ou mesmo incomodar uma parte do público é o erotismo de várias sequências.
Volta ao passado
Na coletiva do filme, o diretor contou que a decisão de realizar Pequenas Tragédias decorreu de sua volta à cidade onde nasceu e passou viveu até a adolescência quando filmou Vento Seco. Na ocasião, constatou mudanças, como o fato de que diversos amigos gays tinham deixado o local ou morrido. Decidido a resgatar suas histórias, mergulhou numa pesquisa, pensando em realizar um documentário estrito. Mas a própria necessidade que sentiu de “falar de violências sem reproduzi-las” o levou a recorrer a uma estética mais diversificada - na qual assumiu que pensou “quais imagens incomodariam mais os homofóbicos e trariam prazer visual aos LGBTs”. E elas não faltam a partir do início, quando se vê uma sensual cena em que um homem musculoso, em trajes menores, é massageado com óleo por outro homem.
O ator Guilherme Téo interpreta o alter ego do diretor, que se relaciona com outros personagens trazidos pela narrativa, destacando Samuel (Lucas Drummond), um amigo de Nolasco, Verônica (Cecília Brito), a gerente de um supermercado onde ele trabalhou na adolescência, e também Jonas (Marcelo Camargo), um homem conhecido na cidade por protagonizar diversas agressões a homossexuais sem jamais ter sido investigado pela polícia.
Reunindo na estética do filme referências tanto à videoarte quanto ao cinema alemão de Rosa von Praudheim e Rainer Werner Fassbinder, Pequenas Tragédias bateu na tela do Cine Brasília com uma potência impressionante, arrancando risadas e aplausos entusiasmados no final, mostrando uma capacidade de dialogar com um público maior. Tem razão também o diretor Nolasco quando diz que o filme “não é sobre ele, é sobre a cidade”. Esta cidade que é um microcosmo do Brasil que permite entender o funcionamento da masculinidade tóxica que está por trás não apenas da homofobia como do racismo, dos feminicídios e tantas outras formas de violência e intolerância.
Passeio em São Paulo
O curta da noite foi a produção brasiliense Gastronomia do Olho (foto ao lado), do diretor Nicolau, que promove um passeio pelo centro velho de São Paulo, realizado por dois atores do Teatro Oficina. Victor Rosa e Marina Wisnik, que na época ensaiavam a montagem de Os Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues, passeiam por paisagens como o Viaduto do Chá, conversando sobre cenas da peça. Na montagem, foram incluídas cenas de filmes como São Paulo - Sociedade Anônima, de Luis Sergio Person, e também de Os Sete Gatinhos, de Neville de Almeida, além de sequências de arquivo do próprio Oficina, promovendo um diálogo entre imagens que, como o curta, foram feitas em película (em 16mm, no caso do curta), materializando o imaginário do diretor brasiliense da capital paulista.
O título Gastronomia do Olho, segundo Nicolau, foi inspirado no escritor francês Honoré de Balzac, que dizia que “flanar por Paris é tão bom como uma gastronomia para os olhos”.
