Brasília começa com animação feminina e série policial do Recife
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 13/09/2026
- Tempo de leitura 5 minutos
Brasília - Gênero raríssimo na mostra competitiva brasiliense, a animação mineira Ana, En Passant (foto ao lado), de Fernanda Salgado, abriu a competição da 59ª edição, com uma nota poética e delicada numa narrativa adulta sobre questões envolvendo mulheres negras. Antes desta, apenas a animação gaúcha Rocky & Hudson, de Otto Guerra, havia sido selecionada para a competição, vencendo o Prêmio Especial do Júri em 1994.
Como é comum na realização de animações, ainda mais longas, Ana, en Passant percorreu uma longa odisseia até sua conclusão, que se estendeu por oito anos, desde a ideia inicial, passando por editais, laboratórios de roteiro, retenção de verbas no governo Bolsonaro e outras peripécias. O resultado final, no entanto, refletiu um processo meticuloso, fruto do trabalho de 60 animadores, em sua maioria brasileiros, numa coprodução que incluiu também Portugal e a França (esta, na etapa da finalização e pós-produção).
Utilizando várias técnicas, como 2D e stop-motion mas especialmente a rotoscopia, o que inclui filmagens de atores, Ana, en Passant apoia-se num roteiro adulto, refletindo a problemática de duas mulheres, Ana e Alice (ambas interpretadas pela atriz Jéssica Pierina), que podem ser vistas como extensão uma da outra. Ana está vindo da França, elaborando o luto pela avó, também chamada Alice (Zezé Motta), de quem obteve a chave de um apartamento em Belo Horizonte, no qual mora a jovem Alice, que está grávida.
Depois do estranhamento deste encontro, Ana e Alice passam a trocar experiências que se relacionam com amadurecimento, identidade e até territorialidade - são muito belas as sequências em que Ana descobre paisagens de uma Belo Horizonte em que entram pela tela imagens oníricas, utilizando água, um dos elementos constantes da história, que conta ainda com a participação do ator Carlos Francisco, como o velho carteiro André.
Um dos pontos fortes do filme está em ter incorporado na equipe várias diretoras com experiência e prêmios, caso de Safira Moreira (na direção de fotografia e que realizou o premiado Cais) e Camila Kater (diretora de animação que realizou antes o premiado Carne).
A beleza das imagens, à qual se soma o trabalho da diretora de arte Marcella Tamayo, embala uma história que seduz pela hipnose dos trajetos, tornando o filme um objeto muito particular e original nesta seleção que começa a ser vista. O filme tem estreia nos cinemas prevista para 5 de novembro.
Série pernambucana
Exibidos fora de competição, três episódios da série pernambucana Delegado, de Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, trouxeram de volta o clima de Recife e de O Agente Secreto - ainda mais em se tratando de uma produção assinada por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux.
Série policial encharcada de um típico humor pernambucano, acompanha as peripécias de um jovem delegado, Felipe (Johnny Massaro), recém-empossado e que rapidamente percebe a precariedade dos meios ao seu alcance e os hábitos duvidosos de seus colaboradores mais diretos, como o impagável agente Marmota (Rubens Santos).
Contando ele mesmo com uma história familiar complicada e a influência dúbia de sua mãe (Virginia Cavendish), Felipe terá de descobrir como sobreviver aos desafios, que são muitos, numa capital abalada pelo tráfico, a violência e a corrupção dos agentes policiais. No elenco, participações de Alice Carvalho, Georgette Fadel, Hermila Guedes, Nataly Rocha, Tânia Maria e outros. A estreia está prevista para 30 de outubro no Canal Brasil.
Curtas
Os dois primeiros concorrentes vieram do Nordeste. Do Rio Grande do Norte, o poético Mariposa (foto ao lado), dos diretores Alexandre Américo e Pedro Vitor, com uma construção estética sofisticada, a partir da fotografia em preto e branco, assinada por Zuma Link. A narrativa explora a beleza e a ancestralidade da praia de Santa Rita, em Extremoz, perto de Natal, um ambiente ameaçado pelo turismo predatório.
Do Ceará, veio o intimista Vejo Você de Repente, em que a diretora Aída Costa resgata fragmentos das memórias que guarda de seu pai, o artista plástico Da Costa. Falecido há cerca de três décadas, ele deixou uma obra não-catalogada, cujos vestígios a própria filha investiga no filme, juntando pedaços de uma trajetória interrompida. No processo de pesquisa para o filme, a diretora contou ter encontrado o único registro fílmico do pai, que consta do curta.
Filme de abertura
Exibido fora de competição na noite de sexta (11), A Pele Morta (foto ao lado), de Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes, concretizou um projeto iniciado pelo pai dos diretores, o cineasta Geraldo Moraes, interrompido por sua morte, em 2017. A partir de um roteiro de Daniel Tavares, os diretores realizaram um road movie que acompanha o motorista de caminhão uruguaio Justo (César Troncoso) e o jovem indígena guarani Saulo (Luan Iturve), numa jornada que expõe a precariedade da vida dessas pessoas em trânsito nas fronteiras da América do Sul e sofrendo de problemas bem específicos: como a precariedade do trabalho e o racismo contra indígenas em Dourados (MS), notório quando Saulo entra num shopping para comprar um aparelho de som.
Falando de várias coisas sérias assim, mas com um olhar humanista e sutil, o filme incorpora também à trupe outra jovem indígena, Rosario (Ivana Gómez), que está à procura da irmã no Paraguai, para onde se dirigem os dois homens a trabalho. Apostando numa simplicidade que não banaliza as questões que retrata, A Pele Morta sobressai como um relato digno e respeitoso com seus personagens.
