Filmes de diretoras encerram mostras competitivas em BH
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 27/09/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Belo Horizonte - Encerrando as mostras competitivas, foram exibidos alguns dos títulos mais interessantes do festival, ambos assinados por jovens diretoras latino-americanas. A premiação será divulgada na noite deste domingo (27).
Foi o caso do exemplar argentino Los Nadadores (foto ao lado), em que a diretora - e também atriz - Sol Iglesias SK compõe uma distopia que sintoniza o atual e sufocante impasse de seu país. Numa chave que deve algo à ficção científica, a diretora e roteirista imagina o cenário de um verão infinito e opressivo, que já dura, sem noite, 368 dias, sufocando as pessoas com temperaturas que atingem 47 graus.
Apenas quatro jovens são vistos numa cidade abandonada pela maioria da população, invadindo casas vazias num bairro de classe média alta e dotadas de piscinas que vão evaporando à medida que a emergência climática prossegue sem trégua.
A jovem diretora, de 25 anos, que interpreta um dos jovens do quarteto, conduz com mão firme, apoiada num consistente desenho sonoro (de Ricardo Arteaga) e fotografia (Sofia Lizzoli), este angustiante percurso, tornando seus personagens símbolos de um tempo de exasperação e falta de perspectivas, em que a fuga do país tornou-se a única alternativa de sobrevivência - veem-se aviões partindo, além de ouvir-se anúncios sobre a evacuação. É notório, também, que a fuga depende de dinheiro, o que estes quatro invasores de casas não têm, colocando em foco uma luta de classes que tem um episódio mais claro quando eles entram numa casa em que se dá uma festa de despedida para jovens ricos em véspera de partir.
Entre as referências da diretora, a mais evidente é a de Lucrecia Martel e seu filme inicial, O Pântano, e a mesma intenção de expor uma violência latente, nunca explícita, que sobe _a tona em ondas. De todo modo, foi um dos filmes mais interessantes dessa mostra Horizonte, consagrada aos diretores iniciantes.
Cidadãos de Cuba
Na mostra Território, outro destaque foi o documentário Calle Cuba, de Vanessa Batista, retratando com ternura e uma honestidade cativante um grupo de moradores da rua que dá nome ao filme e ao país. A diretora, que mora na Espanha mas retorna com frequência à sua Cuba natal, construiu, ao longo de dois anos e meio, uma aproximação a estes personagens que lhe permitiu a entrada em sua intimidade de maneira a tornar seu filme uma espécie de microcosmo de sua luta num país em impasse.
Assim, seguimos uma cozinheira trans, uma trabalhadora separada e mãe de três filhos, um casal idoso e uma jovem atriz em suas lutas para sobreviver, trabalhar, manter suas famílias e sonhar - inclusive com a vida no exterior - de uma maneira complexa, enfrentando as mil e uma formas de escassez do cotidiano de um país que sofre embargos econômicos e também o desgaste de seu modelo político.
Finalizando a mostra Território, Deserto Vertigo, da diretora argentina Rocío Barbenza, uniu, de forma um tanto caótica, uma série de performances a um trecho documental, que relembra a história de Chacabuco, no deserto chileno, que passou de uma ativa mina de salitre, o que levou à construção de uma cidade com milhares de habitantes, ao seu abandono, nos anos 1940, passando por um período em que se tornou campo de concentração para prisioneiros políticos na ditadura Pinochet. A articulação entre este trecho, bastante interessante também a partir de um solitário morador de Chacabuco, Ricardo López, e as diversas performances, no entanto, não deu muita liga.
