27/09/2026

Paz Encina encerra passagem por BH com homenagem a Eduardo Coutinho

Belo Horizonte - Paz Encina encerrou sua passagem pela Cine BH da maneira mais luminosa possível, com a exibição de Carta a un Viejo Master (foto ao lado e abaixo), em que ela celebra sua admiração pelo documentarista brasileiro Eduardo Coutinho (1933-2014).

Neste que é seu filme mais recente, a diretora paraguaia segue os passos de Coutinho por um dos ambientes mais emblemáticos que ele percorreu, o Edifício Master, no Rio de Janeiro, cenário de seu documentário homônimo de 2002. À procura dos personagens que tornaram única aquela obra, Paz depara-se muito mais com ausências e lacunas do que reencontros - exceto pela síndica Eugênia, uma das moradoras que deram depoimento no filme original e proporciona uma emblemática cena final.

Fiel ao seu estilo econômico, a diretora constrói uma narrativa em que os espaços do edifício, aonde lhe foi permitido um acesso limitado a não mais de dois dias, servem como suporte às suas próprias reflexões e memórias pessoais. Como descreveu perfeitamente Paz, no debate em seguida à sessão, foi como se ela estivesse dando seu próprio depoimento à distância ao entrevistador Coutinho, este tão hábil em criar um ambiente seguro em que as pessoas sentiam-se à vontade para francas e não raro inesperadas confissões.

Paz, que sonhava conhecer Coutinho, mas nunca teve a oportunidade, concretiza assim, com a parceria decisiva da montadora Jordana Berg, habitual colaboradora de Coutinho,
um diálogo com a obra de uma de suas admirações, transformando a escassez de entrevistas em abundância de pensamentos. Ao mesmo tempo,compartilha com a audiência sentimentos de sua própria vida - como as dores experimentadas pela própria separação do marido, depois de um relacionamento de 15 anos, e a morte do irmão menor. E transforma, assim, o filme numa celebração da memória e no prosseguimento, de algum modo, de tudo aquilo que Coutinho transmitiu em sua obra magistral.

Assim, a diretora paraguaia encerrou sua memorável participação no festival, em que exibiu seu filme mais conhecido, Hamaca Paraguaya (cartaz ao lado), e Exercícios de Memória, permitindo, com sua disponibilidade para o diálogo, um mergulho profundo em sua obra tão única e original.

Uma das boas notícias anunciadas pela cineasta é que ela participa de dois novos projetos. Um deles, um documentário, mais uma vez sobre uma figura atuante na ditadura Augusto Stroessner, Julián Ruiz Paredes, com a parceria de sua neta, Olinda Ruiz Franco, que denuncia sem descanso, em palestras, os muitos crimes cometidos pelo avô. O outro projeto é uma ficção em torno de um desaparecido também na ditadura.

Mexicanos em trânsito

Nas mostras competitivas latino-americanas, dois filmes mexicanos trouxeram trabalhos de jovens diretores. O documentário Nuestro Cuerpo Es Una Estrella que se Expande, dos irmãos Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco, colocou na tela uma obra de grande beleza visual, traduzindo a formação de Semillites como artista plástico, em cenários naturais igualmente incríveis. Semillites, aliás, encontrou nessa expressão visual a forma de materializar as incertezas e angústias de sua transição de gênero, compartilhando com a irmã e uma familia bastante acolhedora diversos momentos que o filme transforma numa narrativa cheia de imaginação.

Jankee, de Yamel Thompson, uma coprodução entre o México e Cuba, na verdade é filmado em Cuba, país onde a diretora mexicana estudou cinema, na escola de San Antonio de los Baños. É seu primeiro longa e traduz as muitas hesitações de um filme que retrata obsessivamente o jovem pescador Jans, de 18 anos. Havana também é personagem de uma obra que se questiona sobre a própria forma e limites, ou falta deles, num enredo que é uma espécie de namoro entre a diretora e o personagem, mediado por uma câmera que ela resiste a colocar de lado, embora o lamente em algumas situações. Afinal, Yamel quer namorar Jans, filmá-lo ou as duas coisas? O filme é testemunho dessas e de muitas outras incertezas.

Paz Encina na coletiva (Crédito: Neusa Barbosa)

Edição: Luiz Vita