Cinema latino-americano transforma memória em reflexão sobre o presente
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 25/09/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Belo Horizonte - Somando-se à bem-vinda redescoberta da obra luminosa da diretora paraguaia Paz Encina, que exibiu no festival ontem (24) seu filme de estreia, o premiado Hamaca Paraguaya (2006), surgiu, na mostra competitiva Territórios, uma reflexão relevante sobre o estado atual de coisas no Chile através do documentário La Vida que Vendrá (foto ao lado), da cineasta Karin Cuyul.
A ciclotimia entre entusiasmo e desalento que movem, na visão da jovem diretora, a história recente do Chile, é abordada através de um intensivo mergulho em arquivos, alguns deles pessoais, que retratam cenas das batalhas que sacudiram o país andino desde o golpe militar que derrubou o presidente eleito Salvador Allende, em setembro de 1973.
Iniciando o filme com imagens da exumação de Allende para a promoção de um funeral de Estado que fora impossível por 15 anos e o plebiscito de 1988 que diria “Não” à continuidade do regime militar, a cineasta alinha reflexões sobre essa alternância entre o surgimento de um espírito de construção coletiva de um projeto solidário de país e o desencanto que pontua os intervalos - no qual inclui sua geração, após a frustração no plebiscito sobre a mudança da Constituição chilena, em 2023, o que rejeitou a mudança da legislação imposta por Pinochet.
A própria Karin reflete sobre as decepções da geração de seus pais, que viveu o plebiscito de 1988 para ver adiada, por quase dois anos, a volta da democracia em eleições diretas, além de frustrada a legítima aspiração de ver Pinochet e seus asseclas devidamente julgados pelos muitos assassinatos políticos e violações de direitos humanos. Ao fazer esse balanço dolorido, ela destaca imagens de diversos arquivos pessoais, pontuando suas reflexões numa narração que pode, com certeza, ser compartilhada por jovens de outros países, no continente americano ou não. Mais importante ainda é que Karin assume o desejo de transformar esse assumido desalento em combustível para novas e indispensáveis mudanças.
A rede paraguaia
Exibido dentro da homenagem à cineasta Paz Encina, convidada de honra desta edição do festival, Hamaca Paraguaya ressurgiu na tela do Cine Humberto Mauro com a atualidade de um filme que retrata a imobilidade de um país congelado nos impasses da própria história através de uma poderosa metáfora visual: a visão de dois solitários protagonistas, um casal de camponeses, que arma sua rede na entrada de seu sítio, à espera do filho que partiu para lutar na guerra do Chaco (1932-1935).
O filme, que surgiu a partir de um curta da diretora, marcou também a volta ao seu país natal, depois de viver por anos na Argentina - Paz é também filha de um opositor político do regime Stroessner e conheceu na pele as perseguições que relata em outro de seus filmes exibidos aqui, Exercícios de Memória (2016), relatando a saga do médico e desaparecido Agustin Goiburú.
Realizado 10 anos antes, em 2006, Hamaca Paraguaya é um primor no rigor formal. Falado em guarani, é realizado em planos fixos, com câmera parada e um trabalho exímio no som (de Guido Berenblum), que inclui trovões e o latido insistente de uma cadela à distância, que simboliza a ausência deste filho de volta incerta. A direção de arte foi de Carlo Spatuzz, como lembrou Paz Encina, numa coletiva de imprensa aqui, um discípulo do gravador brasileiro Lívio Abramo.
