26/09/2026

Ditadura paraguaia, migração e resistência política marcam a Cine BH

Belo Horizonte - Com uma forte marca latino-americana, a 20ª Cine BH teve um primeiro dia de programação repleto de atrações - com destaque para a pequena retrospectiva da diretora paraguaia Paz Encina, que está na capital mineira como uma das homenageadas desta edição.

Conhecida a partir do sublime Hamaca Paraguaya (2006), premiado na seção Un Certain Regard de Cannes e que será exibido hoje (24) no Cine Humberto Mauro, a diretora comandou uma masterclass ontem, em seguida à exibição de Exercícios de Memória (2016, foto ao lado). Neste documentário, ela resgata o legado de Agustin Goiburú, médico opositor da ditadura de Augusto Stroessner, desaparecido em 1978 após repetidas prisões, a partir dos depoimentos de seus familiares, ouvidos em off, enquanto ela cobre o som de suas vozes com imagens que remetem, da forma mais eloquente, essa ausência.

De maneira sutil, criativa mas também contundente, ela coloca diante da câmera sequências da casa vazia da família, onde sublinha os vestígios de uma ocupação: a mesa com louças usadas, restos de uma refeição, as camas desfeitas, apontando para essa vida familiar que continua, apesar de marcada por um corte brutal.

Nos depoimentos, os filhos do médico desaparecido anotam as lembranças de uma infância traumatizada pelas sucessivas fugas, o medo constante e também a urgência de aprender a atirar com tenra idade. Alguns desses depoimentos são ouvidos durante a exibição das fotos de família que delineiam a trajetória de uma normalidade interrompida.

O filme sintetiza como poucos a essência do estilo de Encina, dando sentido aos silêncios e vazios através dos vestígios da passagem de alguém, no caso, Goiburú, um dos muitos desaparecidos do regime Stroessner, a mais longa ditadura da América do Sul, com 35 anos de duração. Uma das muitas cicatrizes de um continente colocado novamente em risco pela ação da extrema-direita e o imperialismo estadunidense.

Crise de refugiados

Focalizando a imensa crise humanitária da diáspora venezuelana - considerada a maior do mundo depois da ucraniana e da síria, em tempos recentes - o documentário Si Vás para Chile, de Amilcar Infante e Sebastián González, Méndez coleta imagens do norte do Chile. Ali, em paisagens montanhosas e inóspitas, elege o cenário de um deslocamento humano, estimulado a princípio pelo então presidente chileno Sebastián Piñera, que se transforma no epicentro de uma crise migratória, marcada pela xenofobia e episódios de violência, ocorridos na cidade de Iquique.

Nessa cidade, assim como em Alto Hospicio, acampamentos de imigrantes venezuelanos experimentam não só a precariedade de suas instalações como ataques de cidadãos chilenos radicalizados pelo discurso extremista e xenófobo. Também ocorrem episódios como a negação de atendimento médico a uma gestante prestes a parir e outros incidentes, que levam estes venezuelanos a, novamente, partir em busca de refúgio mais seguro. Um caso eloquente é de um jovem andarilho, cujo depoimento, no final do filme, simboliza o impasse destes cidadãos deslocados, empobrecidos e sem destino certo.

Protestos em Cuba

Outro documentário, Cuba y La Noche, de Sergio Fernandez Borrás, valeu-se de vídeos produzidos em celular para oferecer um recorte do Movimento San Isidro. Entre 2020 e 2021, este movimento, integrado por artistas e ativistas, promoveu protestos na ilha, a partir de um decreto do novo presidente, Miguel Díaz-Canel, que submeteria as expressões artísticas ao controle do governo, o que eles consideraram censura.

Os protestos escalaram, em plena crise sanitária da Covid-19, culminando em confrontos com a polícia, greves de fome e prisões de alguns integrantes.

O diretor, que é cubano, mas mora há cerca de 10 anos em Madri, valeu-se de imagens que não foram captadas por ele, que participou como montador, tentando dar conta de uma situação da qual não foi parte direta. Isso não deslegitima em si o filme, como testemunho parcial de uma situação inconclusa, ainda mais tendo em vista a distância temporal. Mas o filme peca, em parte, por não levar em consideração a situação de embargo de Cuba, há mais de 60 anos, nem o peso da emergência sanitária então. Na conversa após a exibição do filme, o diretor, que está em BH, também desconsiderou o peso do embargo sobre Cuba, há mais de 60 anos, nem das novas sanções impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Resgate cultural

Na mostra Território, o documentário colombiano Pukem Swa, de Samuel Moreno Álvarez, focaliza a história de uma família mestiça que procura retomar o contato com sua ancestralidade indígena, no caso, do povo muisca.

Pukem é o protagonista, um menino de 10 anos a quem o pai, o argentino Facundo, um linguista não-profissional, ensina há anos a língua muisca, que está nas origens da mãe do garoto, a colombiana Katherine. Eles têm outra filha menor, Siskia.

A família vive numa propriedade rural, em relativo isolamento junto à natureza, ficando evidente a tentativa de reencontrar uma forma de vida alternativa. Boa parte do filme se passa neste cenário, em que o menino, especialmente junto ao pai, pratica a língua, reconta nela os mitos de seu povo originário, observa a natureza, toca flauta, brinca e briga com a irmã.

Este isolamento é rompido numa sequência em que Pukem vai à dentista na cidade para correção de um aparelho ortodôntico. E também brinca num parque, junto com a irmã e outras crianças, não-indígenas, formando uma outra impressão, remetendo ao inevitável sincretismo da vida em sociedade. Na conversa após o filme, o diretor reiterou que, com esta parte do filme, queria romper uma imagem muito estratificada de “pureza” indígena, aproximando-se de um registro mais realista, sem deixar de valorizar a aproximação com as raízes, muitas vezes perdidas desde o processo de colonização europeia.

Edição: Luiz Vita/Cineweb