16/10/2026

Descobertas de Berlim e Roterdã, dose dupla de James Gray e brasileiro poético na mira da Mostra

A sexta (16) abre o caminho para uma dose dupla de James Gray - Tigre de Papel e Era uma Vez em Nova York -, atrações do mais recente Festival de Berlim, uma descoberta sul-africana em Roterdã, Variações sobre um Tema, e o primoroso brasileiro Os Fantasmas Gentis, de Caetano Gotardo, premiado pela Fipresci em Brasília. Confira os detalhes:

O Deserto de Luiza

Para realizar O Deserto de Luiza, o cineasta e roteirista carioca Alan Minas visitou, por quase um ano, um Núcleo de Saúde no Rio de Janeiro, conhecendo melhor pacientes e suas trajetórias, que o ajudaram a compor a personagem Soraia, interpretada por Daniela Fontan, que enfrenta um surto psicótico.

Filho de uma psicóloga, o cineasta conta que ver pacientes passando por algum problema psicológico não era novidade, mas essa convivência o ajudou a desconstruir paradigmas e a entender melhor para poder escrever o filme. “Não é preciso ser assistente social, psicólogo ou médico para compreender essas pessoas, é preciso ter afeto.” Ele, inclusive, ajudou os pacientes a fazer uma série de curtas, que resultou no longa Você não sabia de mim.

Já para o seu longa O Deserto de Luiza, Minas trouxe como protagonista a estreante Nina Prado, que ganhou o prêmio de melhor atriz no mais recente Festival do Rio. Luiza é filha de Soraia e passa por um momento conturbado diante do surto de sua mãe, de quem acaba cuidando praticamente sozinha, já que o pai (André Luiz Miranda), pouco ajuda.

Nesse mesmo tempo, a adolescente está descobrindo o amor e o grafite enquanto forma de expressão. “O filme não tem o desejo de apontar soluções, mas mostrar a importância de nos conectarmos com o outro, e é preciso haver um senso de coletividade”.

Apesar do tema duro, Minas conta que era fundamental que houvesse humor e poesia no filme, pois “queria trazer algo de esperançoso, especialmente para o público jovem, da mesma faixa etária de Luiza.” Assim, encontrou no realismo fantástico algumas saídas visuais muito interessantes, que entram em cena quando o realismo simples já não dá conta da realidade. “A fantasia que nos permite transbordar, que nos permite crescer e compreender.”

Nem por isso, é claro, O Deserto de Luiza deixa de abordar a realidade, em especial a da aspereza na vida da protagonista e sua mãe, interpretada com coragem e vigor por Fontan. “O filme é como observar a humanidade a partir de uma fresta, e questionar o que é essa tal normalidade. A régua que a pauta é muito cruel”. (Alysson Oliveira)

16/10 - 19:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1

23/10 - 16:10 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3

100 Dias

Conhecido por suas animações, como as franquias A Era do Gelo e Rio, o cineasta brasileiro Carlos Saldanha realiza seu primeiro longa live action no Brasil em 100 Dias, adaptado do livro Cem Dias Entre o Céu e a Terra, de Amyr Klink, no qual ele relata seu feito histórico de atravessar sozinho o Atlântico Sul num barco a remo, em 1984, aos 28 anos.

Interpretado por Filipe Bragança, o protagonista é um jovem destemido que vive em conflito com o pai, Jamil (Felipe Camargo), e recebe apoio da mãe, a sueca Asa (Philippine Leroy-Beaulieu) e do irmão Tymur (João Vitor Silva). O roteiro, assinado por Elena Soarez e Thais Tavares, transita entre os 100 dias de travessia e o passado do drama familiar.

Obviamente, as cenas no barco – em especial no diminuto espaço interno – acabam sendo mais interessantes do que os conflitos no lar dos Klink em Paraty. Marcada pela solidão e o medo, a travessia que partiu de Lüderitz, na Namíbia, é retratada como um desafio humano à natureza, pautada pela audácia de Klink, que recebia apoio da mãe e do irmão, no Brasil, e de um comandante marinho, que não conhecia mas que interceptou a conversa dele no rádio e começa a ajudá-lo.

Bragança se transforma fisicamente ao longo da travessia, assim como Klink, que parte como um jovem um tanto arrogante – suas cenas com o engenheiro que projetou o barco (Duda Mamberti) e a nutricionista interpretada por Martha Nowill são reveladoras nesse sentido. Mas o destaque do filme é mesmo a natureza e o claustrofóbico interior do barco IAT/Paraty, que formam uma espécie de contraponto entre liberdade e confinamento. (Alysson Oliveira)

16/10 - 19:00 - SOLAR SALA PETROBRAS

23/10 - 20:40 - CINESESC

Cronovisor

Cronovisor é uma experiência cinematográfica labiríntica que remete de Jorge Luis Borges a Umberto Eco, e evoca uma descida ao inferno literário das representações de passado e presente; Além disso, traz uma das cenas finais mais bonitas em seu estranhamento e em sua fantasmagoria história de que vivemos em ciclos.

Não é surpresa, também, que o romance A invenção de Morel, do argentino Adolfo Bioy Casares, seja citado nominalmente nos créditos finais como uma inspiração para o filme, escrito e dirigido pela dupla estadunidense Jack Auen e Kevin Walke, que integra o coletivo Cosmic Salon, que assina a produção desse longa.

O ambiente do filme é a academia, mas a dupla tem a capacidade de transformar o que é um trabalho solitário de pesquisa num timing de thriller conforme a protagonista, Béatrice Couter, mergulha numa investigação sobre uma história (considerada real) de um equipamento chamado cronovisor, inventado na Itália dos anos de 1950, e capaz de fotografar o passado. A personagem é interpretada por Anne-Laure Sellier, professora de Ciências do Comportamento, na Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris, a HEC, que garante uma certa seriedade ao filme e a diálogos que, ditos por alguma atriz sem familiaridade com a academia, poderiam soar forçados.

O cronovisor foi, supostamente, criado por um padre beneditino italiano, Pellegrino Ernetti, que jurou ter viajado para o passado e fotografado Jesus Cristo na cruz. Em 2002, o padre François Brune revelou que conheceu Ernetti, que, no início dos anos de 1960, lhe mostrou a invenção, que fora construída com ajuda do cientista Enrico Fermi, Prêmio Nobel de Física, em 1938, e do ex-nazista Wernher von Braun, que trabalhou na NASA.

Mesmo sabendo que isso tudo é uma farsa, Béatrice não se conforma, e resolve conduzir sua própria pesquisa, mergulhando num vasto material de livros, arquivos e reportagens em busca da verdade. Aí entra na tela a sagacidade de Auen e Walke. Ao invés de colocar a pesquisadora lendo o material para si mesma em voz alta, a câmera, muitas vezes em ângulos inusitados, dá close nos textos que são sobrepostos por uma tradução para o inglês, e, por mais estranho que pareça, o recurso funciona muito bem. É como se estivéssemos pesquisando com ela.

Em última instância, então, esse filme sobre memória coletiva e construção da história como narrativa é, também, um filme sobre o prazer mais analógico que possa existir: ler diretamente de um livro. A fotografia de Leo Zhang traz textura e um lusco-fusco às imagens, que evocam uma leitura numa mesa de uma biblioteca antiga iluminada por uma pequena lâmpada que marca o prazer solitário da descoberta. Como um Código Da Vinci com qualidades cinematográficas e literárias, Cronovisor brinca com teorias da conspiração e indaga o que é a verdade e o que é manipulação – uma pergunta fundamental ao nosso tempo. (Alysson Oliveira)

16/10 - 13:45 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 4

19/10 - 13:15 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2

22/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1

26/10 - 12:00 - CULTURA ARTÍSTICA

Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde)

O Urso de Prata de excepcional contribuição artística foi entregue no mais recente Festival de Berlim a este documentário norte-americano, de Anna Fitch e Banker White, que conta da maneira mais criativa e amorosa a história de uma imigrante suíça moradora na Califórnia.

Os diretores compõem um retrato delicado em intenso, cheio de filigranas, de sua original protagonista, a suíça radicada nos EUA Yolande. A diretora Anna e Yolande foram amigas 16 anos, vivendo numa cidade da Califórnia. Anna tinha 24 anos, Yo, 73, quando as duas se conheceram por acaso, num mercado, apenas para não se largarem mais, numa troca que a princípio pareceria improvável.

Yo era um espírito livre. que resistiu a muitas ondas de repressão, desde a familiar, a católica, a escolar e, mesmo depois de adulta, casada e mãe, manteve sempre um indomável espírito de liberdade. Não era de estranhar que sua morte, ocorrida aos 89 anos, abalasse profundamente Anna. O modo mais original que encontrou para preencher essa lacuna foi construir uma miniatura da casa de Yo, com a réplica de seus móveis e objetos, habitada por uma marionete idêntica à amiga.

Se parece bizarro à primeira vista, o fato é que esta casa em miniatura, para a qual colaboraram o companheiro de Anna, Banker White, e outros artistas, se transforma numa verdadeira homenagem, num objeto de memória e ritual onde os diretores mantêm viva a lembrança da amiga, também vista em diversas participações no documentário.

O fato é que, através deste filme muito original, Yo tornou-se uma das personagens mais marcantes do festival berlinense. (Neusa Barbosa)

16/10 - 16:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

22/10 - 17:35 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2

25/10 - 13:00 - SOLAR SALA PETROBRAS

28/10 - 21:40 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1

Tigre de Papel

Pela sexta vez concorrente em Cannes, James Gray apresenta em Tigre de Papel mais um relato centrado na irmandade, tema comum em sua obra. Ambientado no Queens, em Nova York, em 1986, o foco está na relação entre dois irmãos, Irwin (Miles Teller) e Gary Pearl (Adam Driver).

A interdependência emocional entre estes dois homens muito diferentes - Irwin, mais família e contido, Gary, mais ousado - sofre um abalo quando Gary se aproxima de mafiosos russos, que começam a atuar na região de um canal poluído, no Brooklyn. Irwin, convencido pelo irmão de que poderia prestar serviços técnicos a uma empreitada no lugar, acaba ameaçado, junto com os filhos, lançando sua família numa espiral de medo.

Gray é eficiente na condução deste clima, aclarando aos poucos as suspeitas quanto à atuação de Gary neste submundo. Ex-policial que agora vive da prestação de serviços de segurança, vale-se dos contatos que ainda mantém na polícia - o que sem dúvida é um atrativo para os criminosos russos.

Fica mais interessante olhar o filme como o retrato de um patriarcado falido, em que a única mulher, Hester (Scarlett Johansson), mulher de Irwin, só consegue ser ouvida quando perde o controle - e seu maior drama íntimo permanece invisível para os homens que a cercam, o próprio marido e os dois filhos adolescentes. Ela chama para si esse papel altruísta, de proteger os homens de sua família, em silêncio, nos bastidores, lançando-se numa jornada de auto-sacrifício.

Mas o que Gray realmente procura aqui é expor as contradições da fraternidade, que está no centro de tantos de seus outros filmes, como Fuga para Odessa (1994) e Os Donos da Noite (2007) - ambos, parte de uma retrospectiva do diretor na Mostra. Essa lealdade intrínseca entre parentes ou amigos pode levar ao desastre, à aniquilação ou à esperança num futuro em que talvez não haja mais do que isso com que contar para a própria sobrevivência. Ou seja, Gray repete sua temática, embora o faça de maneira competente. Dele não se espera algo novo, mas nunca lhe falta coerência com sua própria trajetória e isso ele mantém com a habitual sobriedade.

O longa é precedido do curta Sul de Teerã, de Kleber Mendonça Filho, que nele retrata um encontro com o iraniano Jafar Panahi, este, aliás, um convidado especial da Mostra no ano passado. (Neusa Barbosa)

16/10 - 18:45 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1


27/10 - 21:00 - CULTURA ARTÍSTICA

Era uma Vez em Nova York (retrospectiva James Gray)

16/10 -11:00 - SOLAR SALA PETROBRAS

20/10 - 21:35 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3

Variações Sobre um Tema

Vencedor do prêmio de melhor filme no festival de Roterdã, o drama sul-africano dos diretores Jason Jacobs e Devon Delmar, é um primor de originalidade na contenção de suas imagens e repetições.

Longe de causar tédio, essas repetições se justificam para consolidar o próprio arcabouço deste drama, magnificamente fotografado e estruturado em torno da figura de uma senhora idosa de 80 anos, a camponesa Hettie Farmer.

Ambientado em 1996, o filme resgata a história do pai de Hettie, Petrus, homem negro e parte de um batalhão sul-africano enviado à Europa para lutar na II Guerra. Ao voltar para casa, não recebeu mais do que uma bicicleta e um par de botas, retomando a vida de camponês pobre em sua pequena propriedade rural, hoje cuidada por Hettie.

Cinquenta anos depois do fim da II Guerra, os descendentes dos soldados que ali lutaram e nada receberam são insistentemente procurados para uma suposta indenização. Devem, para isso, cadastrar-se e pagar uma pequena soma. Mas o tempo passa e a indenização nunca chega e os interessados são constantemente solicitados a, de novo, preencherem o mesmo formulário azul e fazer um novo depósito.

O problema, para Hettie, é o tempo. Ela já tem 80 anos e, como outros moradores desse local, Kamiesberg, a 500 km da cidade do Cabo, no sudoeste do país, vive uma vida modesta. Levanta-se de madrugada, cuida de suas cabras e galinhas, vivendo sozinha em sua pequena casa, onde há um retrato do pai. Ao mesmo tempo, seus filhos, que moram longe e vêm para o seu aniversário, a pressionam para deixar seu sítio e ir morar com um deles.

Com uma estética rigorosa e economia dramática, o filme de Jacobs e Delmar alcança uma intensidade que remete a A Sombra de Meu Pai, drama nigeriano de Akinola Davies Jr., que foi uma das grandes atrações da 49ª Mostra. Se puder, não perca.
(Neusa Barbosa)

16/10 - 14:00 - CINESESC

18/10 - 13:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1

19/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1

28/10 - 20:00 - CULTURA ARTÍSTICA

Os Fantasmas Gentis

Vencedor do prêmio da Fipresci como melhor filme da mostra Caleidoscópio no mais recente Festival de Brasília, esta nova obra singular do diretor paulista Caetano Gotardo apóia-se no poder encantatório das palavras, estendendo-se em diálogos literários, tornados vivos e vibrantes pelo notável jogo dos atores Andrea Marquee e Vinicius Meloni.

Tanto quanto a direção, o roteiro e a montagem, são também da autoria de Gotardo algumas das canções, cantadas por Andrea, fã do karaokê, pontuando a colcha de sentimentos que constitui a estrutura de um filme extremamente denso e sensível.

Essas palavras, tanto das canções, quanto dos diálogos, organizam a maneira como estes dois personagens, Inês e Hélio, vêem a vida e se organizam no mundo. E há muita sensibilidade nessas pessoas que se encontram no afeto e no sexo antes de se dividirem em outras questões.

Sedutor pela palavra. sempre um ponto forte em sua cinematografia, Gotardo encontra na fotografia de Cris Lyra uma aliada para soluções, como ângulos inusitados para focalizar seus protagonistas, mesmo sem sair da sala onde eles tanto conversam. Isto cria uma intimidade que conduz o que o filme inegavelmente pretende, tomando emprestada uma certa densidade teatral, que se movimenta nestas angulações de câmera e numa montagem que respeita esta relativa imobilidade física contrastando com tantos turbilhões interiores.

Mesmo predominando um enfoque naturalista, abre-se uma bem-vinda brecha para um momento de realismo fantástico, quando os protagonistas dormem lado a lado, depois de uma confissão dele, remetendo à profissão de Hélio, ornitólogo. Recursos como esse valorizam um filme apaixonante, que perdura na memória, longo tempo depois de visto. (Neusa Barbosa)

16/10 - 19:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1

23/10- 19:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

Poeira

A crítica ao capitalismo reverbera neste drama com um toque de thriller, assinado pela diretora belga Anke Blondé e exibido no Festival de Berlim. É o segundo longa da cineasta, acompanhando os dilemas de uma dupla, Luc (Jean Hammeneker) e Geert (Arieh Worthalter), cujo enorme sucesso em meados dos anos 1990 está para desabar. Luc é o expert tecnológico, Geert, o marqueteiro esperto. Juntos fizeram fortuna e enriqueceram muita gente com as ações de uma empresa cujo projeto é uma tecnologia transformando sons em escrita. Acontece que a dupla baseou seu crescimento num verdadeiro esquema de pirãmide, criando empresas fantasmas sem lastro, o que foi descoberto por um jornalista, que publicará uma grande matéria denunciando tudo no dia seguinte.

Luc e Geert, portanto, têm 24 h para destruir arquivos, papeis e eventuais provas antes que a polícia venha prendê-los. São dois personagens que não despertam qualquer simpatia, até pelo imenso dano que causarão à própria comunidade, que comprou as ações e está perto de enfrentar a ruína.

Se há alguma substância neste roteiro, e há, é verdade também que se trata de um filme um tanto frio. Em matéria de crítica ao capitalismo, o sul-coreano Park Chan-wook foi bem melhor em seu recente e marcante A Única Saída. (Neusa Barbosa)

16/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1

18/10 - 14:00 - CINE TUTU

25/10 - 18:20 - CINE SATYROS BIJOU

27/10 - 11:00 - SOLAR SALA PETROBRAS