15/10/2026

Mostra inicia programação apostando na diversidade nacional e internacional

No primeiro dia da programação normal, a Mostra inclui pérolas como o documentário sobre jazz Era uma Vez no Harlem, o faroeste australiano Wolfram, o premiado sul-coreano
Onde Repousar Meus Olhos, de Hong Sangsoo, o drama sobre internet O Outro Lado das Redes e os premiados brasileiros Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha e Pequenas Tragédias - incluindo uma entrevista do diretor goiano Daniel Nolasco. Confira os detalhes a seguir.

Pequenas Tragédias

Quando voltou à sua cidade natal, Catalão, no interior de Goiás, o cineasta Daniel Nolasco percebeu que algumas coisas haviam mudado. Ele saíra de lá em 2010, quando foi para o Rio de Janeiro, onde mora até hoje, estudar cinema, na Universidade Federal Fluminense. Visitava o município esporadicamente, até que, em 2019, passou quatro meses ali filmando seu longa Vento Seco.

“Eu percebi que a maioria dos meus amigos e amigas tinham ido embora. Era uma questão de fuga, migração mesmo. Até que me dei conta de que eu também tinha ido embora”, conta em entrevista ao Cineweb. Dessa percepção nasce seu longa Pequenas Tragédias, uma combinação de documentário e ficção, resgatando sua história em Catalão, uma cidade, como tantas naquele estado, dominada pelo agronegócio, o conservadorismo e a homofobia.

A ideia inicial seria um documentário, mas Nolasco percebeu que precisava de outros recursos para contar sua história com Catalão, onde viveu e testemunhou episódios homofóbicos. “Era uma questão muito grande: como contar? Então percebi que eu tinha que me colocar no filme, mas eu não queria nada autoindulgente, precisava achar um equilíbrio”.

Pequenas Tragédias
é narrado em primeira num texto escrito pelo próprio diretor e narrado por Geovaldo Souza. Já o Daniel do filme é interpretado por Guilherme Théo, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Brasília, em setembro, no qual o longa fez sua estreia mundial e de onde saiu também com os troféus de direção, atriz coadjuvante (para Aivan), trilha sonora (assinada por Nolasco), montagem e o prêmio Abraccine, conferido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

Nolasco conta que, embora todos os personagens fossem inspirados em pessoas reais, ele deu total liberdade às atrizes e atores para criar essas figuras – exceto para Théo, com quem já havia trabalhado antes, como no curta O Cavalo de Pedro. “Eu queria me ver na tela”, explica, rindo. “Ele e eu somos muito parecidos em algumas coisas, em especial no senso de humor, então foi muito fácil criar esse personagem juntos.”

O elenco combina atores profissionais, como Lucas Drummond e a própria Aivan, que, embora estreando no cinema, tem bastante experiência com teatro e protagoniza alguns dos momentos mais bonitos do filme, com atores e atrizes sem experiência, parte deles de Catalão, como a mãe de Nolasco, Branca Cardoso. “O trabalho do Alan Jacinto como preparador de elenco foi fundamental para encontrar o equilíbrio, especialmente pelo fato do filme ser dividido em capítulos. Era preciso uma unidade de atuações entre eles.”

Outra questão fundamental para Nolasco em Pequenas Tragédias era a maneira como iria abordar a violência física e emocional contra personagens LGBTQIAPN+. Especialmente pelas experiências que ele e seus amigos passaram, o cineasta sabia que não podia evitar o tema, mas, por outro lado, não queria reproduzir isso na tela como uma espécie de cinema pedagógico. “É uma questão sobre a qual reflito muito, e não queria mostrar explicitamente esse tipo de violência às próprias pessoas LGBTQIAPN+. A mim próprio ver isso me incomoda.”

A solução que ele encontrou foi fazer o inverso, e se perguntar: que tipo de imagem mais incomoda um homofóbico? “O amor, o sentimento, são as coisas que incomodam, por isso trouxe essas coisas para o filme para gerar o debate e o desconforto em algumas pessoas. Além disso, acho fundamental alguns momentos de leveza e humor.”

Além disso, Nolasco sabe da importância e potência deste filme nos tempos atuais. “Goiás é um estado tradicionalmente próximo à extrema direita, não existe uma forte tradição de políticos de esquerda no estado. Nossa ideia é discutir exatamente como isso afeta as pessoas dissidentes, a diversidade. Buscamos marcar nosso espaço com o cinema.” (Alysson Oliveira)

15/10 - 19:00 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1

21/10 - 13:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

O Outro Lado das Redes

Entre outras coisas, O Outro Lado das Redes mostra como um diretor pode fazer toda diferença para um filme. Sequência de A Rede Social, o longa é dirigido por Aaron Sorkin, que também assina o roteiro, assim como do anterior, que foi dirigido por David Fincher – esse sim um cineasta mais consciente das possibilidades e ferramentas do cinema na construção não apenas da obra como narrativa, mas também como forma cinematográfica.

Os roteiros de Sorkin – que incluemi Steve Jobs e A Grande Jogada – são verborrágicos, nada sutis e parecem desconfiar da capacidade de compreensão do público, por isso a necessidade sentida de
precisar explicar tudo muito claramente. Fincher, com sua elegância e sagacidade, consegue reverter isso e superar as limitações, coisas que não acontecem aqui. O longa parte de assuntos já um tanto datados, embora ainda relevantes, para dizer o óbvio: as redes sociais são manipulativas, fazem mal à saúde mental e Mark Zuckerberg tem um lado muito claro, que não é nada progressista.

No fundo, O Outro Lado das Redes é mais sobre o trabalho do jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White, bastante bem no papel) investigando as denúncias de uma funcionária do Facebook (a empresa ainda não se chamava Meta) sobre o lado sombrio da empresa e de suas redes sociais. Mikey Madison, em seu primeiro trabalho depois do Oscar de Anora, não tem muito o que fazer no papel da denunciante Frances Haugen, engenheira e cientista de dados que trouxe à tona documentos reveladores em 2021.

Muita água já passou debaixo da ponte da história – e está passando, haja vista o papel da Meta nas eleições brasileiras atuais –, para o que se vê na tela soar como novidade, embora, o alarmismo seja perene. Assim, o longa tenta ser algo mais na veia de Rede de Intrigas ou Todos os Homens do Presidente, sem, obviamente, alcançar o nível de denúncia ou potência daqueles dois longas.

Sorkin gosta da grandiloquência mais do que da construção de personagens. Ninguém aqui têm nuances, como a jovem profissional fã da empresa onde trabalha impressionada com os horrores cometidos pelos chefes ao jornalista heroico. A figura mais interessante seria, também, a mais famosa: Zuckerberg, interpretado por Jeremy Strong, que replica o mesmo olhar vago e a sensação de robô sem alma que a figura real transmitem. Mas, como Madison, ele não tem muito o que fazer aqui já que uma curiosidade psicológica sobre essa figura tão complexa do nosso tempo não está na pauta de Sorkin. Os personagens que orbitam em torno dele são igualmente monocórdicos, como o assessor do CEO, interpretado por Billy Magnussen, ou uma RP, interpretada por Wunmi Mosaku, que tenta humanizá-lo tentando criar uma nova imagem para a empresa.

Apesar do lastro no real, O Outro Lado das Redes parece se passar longe do contato com a realidade e, pior ainda, da complexidade das relações humanas, sociais e políticas que passaram a ser mediadas por redes sociais. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 nos EUA – e dois anos depois, algo semelhante aconteceu em 8 de janeiro no Brasil – parecem não fazer a menor diferença para Sorkin em seu retrato de como o Facebook era legal até que deixou de ser. Mas a verdade é que nunca foi legal mesmo. (Alysson Oliveira)

15/10 - 21:15 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1

16/10 - 20:00 - CINESESC

19/10 - 18:15 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF

21/10 - 19:30 - SOLAR SALA PETROBRAS

Onde Repousar Meus Olhos

Cineasta das pequenas coisas, o sul-coreano Hong Sangsoo cultiva uma obra de sutis variações em que pessoas se debatem nos problemas cotidianos - não raro, envolvendo cenas à mesa. Será que o veterano diretor acha que, compartilhando comida e bebida, as pessoas são mais verdadeiras, deixando cair algumas máscaras?

Pode ser e isso acontece mais uma vez neste filme, vencedor de três prêmios no Festival de Locarno - direção, atriz (Kim Min-hee) e o prêmio do júri ecumênico. Uma das protagonistas (Choi Myeong-gil), aliás,
é dona de um bem-sucedido restaurante na ilha de Jeju. Há anos que seus dois filhos adultos, Sanghee (Kim Min-hee) e Sangwoo (Shin Seok-ho), não a visitam. Sanghee, especialmente, não gosta do novo padrasto (Kwon Hae-hyo), mas finalmente ela decide rever a mãe com o irmão, numa visita que pretende superar as mágoas.

No cenário de uma ilha bonita, batida por ventos fortes, os dois irmãos são acolhidos pela mãe e o padrasto numa bela casa, ao lado da sua própria, que pretendem futuramente usar como hotel. Em diversas cenas, incluindo várias refeições, a mãe e os filhos retomarão o contato, que incluirá, mais tarde, uma filha adulta do padrasto (Park Mi-so), que vive com o casal.

Nestas infinitas ccnversas, que incluem também o diálogo interior sobretudo de Sanghee, desfilam temas como os dilemas de escolhas profissionais. Ela mesma, formada em Cinema, só realiza sua vocação em pequenos curtas experimentais que disponibiliza no Youtube, sobrevivendo de uma outra atividade burocrática. Mas a própria viagem tem como efeito mudar não só a paisagem como confrontar sentimentos e pensamentos que impedem que se parta do mesmo jeito que se chegou. É dessa matéria-prima sutil que o cinema de Sansoo é feito, lembrando uma espécie de Yasujiro Ozu moderno em sua contemplação das famílias e do extraordinário que vive no ordinário de cada um em seu dia-a-dia. (Neusa Barbosa)

15/10 - 21:30 - CINESESC

16/10 -17:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2

21/10 - 13:45 - CULTURA ARTÍSTICA

23/10 - 18:40 - SATO CINEMA

Era uma Vez no Harlem

Atração da mais recente Quinzena dos Cineastas, em Cannes, o documentário do diretor David Greaves monta o material colhido por seu pai, William Greaves, em 1972, reunindo depoimentos de diversos artistas, escritores, atores, músicos, jornalistas, historiadores e intelectuais afro-americanos, resgatando o brilho de um período de especial vitalidade no famoso bairro novaiorquino.

A importância deste filme, realizado na casa de Duke Ellington, é juntar os integrantes de algumas gerações de ouro no Harlem. O contexto é que, depois do fim da escravidão, vários afro-americanos de outras regiões migraram para Nova York, encontrando ali um ambiente mais livre e propício ao desenvolvimento de sua criatividade, que teve como um dos centros uma biblioteca local, onde duas bibliotecárias acolhiam escritores em busca de salas tranquilas para escreverem suas obras.

Como observou o diretor David Greaves, numa breve conversa com o público após a primeira exibição do filme, em Cannes, a ideia do filme é recriar o espírito dos salões culturais que ocorriam décadas atrás e que propiciaram a chamada Renascença do Harlem - um termo emprestado à Renascença europeia, depois da Idade Média.

Um grande valor deste documentário é identificar com clareza os participantes e suas funções, permitindo que seus nomes, muitos pouco conhecidos de boa parte do público internacional, sejam efetivamente resgatados. (Neusa Barbosa)

15/10 - 13:00 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF

17/10 - 21:30 - RESERVA CULTURAL - SALA 2

23/10 - 20:15 - SOLAR SALA PETROBRAS

29/10 - 21:40 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 5

Wolfram

A Austrália participou da competição em Berlim 2026 com um faroeste, Wolfram, dirigido por Warwick Thornton. Trata-se da sequência do premiado Sweet Country (2017), mantendo o mesmo cenário e vários personagens.

É uma história de sobrevivência e luta no vasto e seco interior do país, onde vários homens tentam enriquecer com mineração - uma atividade dura e perigosa, na qual são empregadas inclusive crianças, especialmente as aborígenes, traduzindo um universo de brutalidade e exploração colonial, em meados da década de 1930.

As mulheres aborígenes, especialmente, são vítimas de abuso, como é o caso de Pansy (Deborah Mailman), que fugiu de um antigo abusador, com quem teve dois filhos, para tentar a sorte em Queensland, ao lado de um imigrante chinês, Shi (Ferdinand Hoang). Ela pensa em retornar mais tarde para recuperar as duas crianças, que viverão uma série de aventuras e encontrarão um protetor em um jovem mestiço, Philomac (Pedrea Jackson) - que é filho de um proprietário branco, Kennedy (Thomas M. Wright) que, no entanto, o trata como um servo.

Dois forasteiros que aparecem para estabelecer-se ali, Casey (Erroll Shand) e Frank (Joe Bird), aumentam a cota de crueldade, pelo imenso racismo, numa terra em que a lei mora longe e só leva em conta os brancos.

O filme segue a fórmula-padrão dos faroestes, com seus vilões e heróis, preparando vinganças em nome dos oprimidos que, no caso, são os donos originais da terra. Ou seja, um tom bem apropriado à sensibilidade moderna sobre estes temas, bem filmado e digno de atenção especialmente por sua localização geográfica. (Neusa Barbosa)

15/10 - 13:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

18/10 - 14:00 - SOLAR SALA PETROBRAS

23/10 - 15:00 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF

28/10 - 21:40 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1

Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha

Longa de estreia da diretora Janaina Marques, este drama intimista com um toque fantástico teve sua première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro.

O longa se desenvolve como um retrato íntimo de uma mulher convocada a revisitar sua própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Diante da dificuldade de encontrar uma memória feliz, a protagonista Rosa (Verônica Cavalcanti) mergulha numa busca interior que se torna a própria narrativa do longa.

Entre o real e o imaginado, a realidade começa a ceder espaço ao sonho, ao delírio e à memória, uma jornada íntima em que Rosa reencontra a mãe (Luciana Souza) e a transforma em parceira de estrada. Rosa cria seus próprios caminhos, e a viagem com a mãe ganha um caráter íntimo e restaurador, ainda que não desprovido de conflitos. Ao decidir incorporar essa mãe em sua viagem, afirma-se uma dimensão de sororidade e memória compartilhada.

Participante da seção Fórum, o filme venceu o Prêmio do Júri dos leitores do jornal Tagesspiegel, um tradicional jornal alemão, um prêmio independente no festival berlinense. (Neusa Barbosa)

Assista à minha entrevista em Berlim com a diretora e as atrizes

15/10 -19:30 - CINESESC

27/10 - 13:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1