28/10/2026

Boots Riley e o humor social de “I Love Boosters”

Cineasta e músico, o norte-americano Boots Riley participa da Mostra como membro do júri e com um novo filme, I Love Boosters, em que mais uma vez manifesta sua formação marxista e manda um recado social bem-humorado em prol da mudança do mundo - como ele comenta nesta entrevista a Alysson Oliveira, do Cineweb.

Na programação, há ainda atrações como a cinebiografia do músico Chorão, Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, premiada em Gramado, e dois filmes restaurados, o drama romântico português Frágil como o Mundo, de Rita Azevedo Gomes, e o documentário O Primeiro Ano, sobre o primeiro ano do governo Allende, assinado pelo diretor Patricio Guzmán. Confira os detalhes:

Boots Riley e "I Love Boosters"

Rapper, produtor musical, compositor, roteirista e cineasta, Boots Riley parece uma figura saída de um de seus filmes – inegavelmente, seus filmes saíram de sua mente criativa e visivelmente encantada com um colorido. Trajando uma roupa amarela, camiseta lilás e um chapéu gigantesco da mesma cor, ele recebe a imprensa nos bastidores do teatro Cultura Artística para falar de seu filme I Love Boosters, antes de apresentar o longa ao público da 50a Mostra, da qual faz parte do júri.

Seu bom humor, energia e sagacidade não entregam que ele está nessa função de dar entrevista há algumas horas. Pela manhã, fez as atividades do júri, assistindo alguns dos finalistas no Reserva Cultural com seus colegas de função. Sorridente e divertido, ele, no entanto, não está para brincadeiras. Sua arte, não se engane, é de profundo empenho social, vinda de um artista que se identifica abertamente como comunista – e dizer isso, nos EUA de hoje, não é pouca coisa.

“Falo sobre as coisas que sei”, explica na entrevista. “Quero expor a verdade para mostrar o que é possível ser feito para transformar o mundo”. Este é seu segundo longa, e, novamente, é uma comédia amalucada que chega ao surreal, embora ele não seja muito dado a esse tipo de rótulo. “Para o absurdismo, nada importa, e o surrealismo está ligado aos sonhos. Não são as coisas que me interessam, então meu filme segue caminhos inesperados e particulares.”

I Love Boosters é, inesperadamente, um filme que faz um belo díptico com Amor Possível, do coreano Lee Chang-Dong. São dois longas sobre trabalhadores, greves e lutas pelos direitos e, embora cada um siga um tom diferente, chegam a lugares parecidos. No filme de Riley, um grupo de jovens mulheres – liderados pela personagem de Keke Palmer – transformam a indústria da moda, roubando peças caras de uma designer (Demi Moore). O ato de rebeldia reverbera lá na China, de onde vem um “acelerador situacional” (uma espécie de máquina de teletransporte) baseado no materialismo dialético. Sim, Riley, sabe como usar o seu marxismo.

“Não quero fazer uma palestra sobre como o capitalismo funciona, isso iria alienar o público do filme. A ideia é exatamente o contrário, é trazer o público para dentro e assim expor as contradições do capitalismo contando uma história”, explica.

Em seu longa de estreia, Sorry to Bother You (Desculpa te Incomodar, em tradução livre), um homem negro consegue um trabalho no telemarketing e ganha dinheiro quando, finalmente, descobre como fazer uma “voz de branco”. São esses mecanismos capitalistas que Riley escancara em suas comédias, que desconhecem limites e abusam de tons sólidos, fazendo parecer um mundo sem espaço para nuances.

O cineasta alega que, diante das manifestações atuais em países como a França e o próprio Brasil, um mundo diferente é possível. Para ele, a revolução está no horizonte histórico, mesmo que não seja em breve. “As greves foram fundamentais na Rússia entre 1908 e 1917, quando aconteceu a revolução. Em Cuba foi a mesma coisa, a revolução só veio a partir de uma greve geral.”

Segundo ele, é preciso que a classe operária se radicalize, “e os trabalhadores e as pessoas em geral precisam saber distinguir entre protesto e greve, para que o mundo se transforme. A juventude de hoje quer algo diferente do que estamos vivendo.”

Depois das exibições na Mostra, I Love Boosters chega aos cinemas brasileiros em 19 de novembro. (Alysson Oliveira)

27/10 - 20:40 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
28/10 - 18:30 - CINESALA

OUTRAS ATRAÇÕES DA PROGRAMAÇÃO

Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?

Vencedora dos prêmios de melhor ator (José Loreto) e trilha musical (Otávio de Moraes), a cinebiografia assinada por Hugo Prata e Felipe Novaes resgata a memória do popular cantor e compositor paulistano Chorão, falecido tragicamente em 2013, aos 42 anos.

A vibração do filme depende muito da energia do desempenho inegavelmente dedicado do protagonista, José Loreto, que recria a intensidade física de seu personagem na mais alta voltagem. A voz que se ouvirá nos cinemas, no entanto, será mesmo a de Chorão, dublando a interpretação de Loreto na gravação das muitas cenas de palco. Mas, sem essa entrega do ator ao protagonista, não seria possível ao filme alcançar a empatia que procura junto às platéias de sua geração, saudosas de uma das mais populares bandas pop da história recente, Charlie Brown Jr., da qual Chorão foi o vocalista, compositor das músicas e um líder carismático, ainda que polêmico e não raro contraditório.

Baseado livremente nas memórias da viúva de Chorão, Graziela Gonçalves, Se não eu, quem vai fazer você feliz? Minha História com Chorão, o enredo acompanha a juventude do cantor, que deixa São Paulo, onde nasceu, para morar em Santos, obrigado a seguir o pai Geraldo (Kiko Marques), deixando para trás a mãe (Georgette Fadel), na primeira separação dolorosa de sua vida. Outras, bem mais trágicas, se seguiram, com as mortes brutais de amigos próximos, acentuando as tendências depressivas de Chorão.

No meio disso, surge o romance com Graziela (Nanda Marques), que se torna um eixo afetivo em torno do artista em sua rápida ascensão ao estrelato, ladeado por parceiros como o baixista Champignon (Pedro Tirolli).

Uma eficiente recriação de época, um bom trabalho de Marcelo Escañuela, escora esta produção, que cultiva a nostalgia em torno da figura de Chorão, mas não escamoteia suas contradições e conflitos, inclusive com seus afetos mais próximos. Evita, no entanto, mostrar de maneira mais gráfica, a dependência de álcool e drogas que estiveram por trás da morte súbita do cantor, dependente de cocaína, preferindo concentrar-se em sua explosão artística, como um cometa que brilhou e se esgotou rápido. Não sem deixar saudades, que seus muitos fãs poderão saciar com este filme, que se segue ao documentário Chorão: Marginal Alado e à série televisiva Charlie Brown Jr. - Chegou Quem Faltava, ambos assinados pelo co-diretor deste filme Felipe Novaes. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:

27/10 - 19:15 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1

Frágil Como o Mundo

Uma das diretoras mais interessantes do cinema português, Rita de Azevedo Gomes realizou neste que foi seu segundo filme (de 2001) um resgate do amor romântico, elevado por um tom que deve algo à literatura, transformando-se numa espécie de fábula que o realismo de quando em quando frequenta.

Vera (Maria Gonçalves) e João (Bruno Terra) são dois adolescentes apaixonados, vivendo um amor impossível, numa época indefinida, que parece meados do século XX. Ela, filha de uma família abastada, ele, vivendo com a avó, de condição mais humilde e prestes a partir para estudar outro ciclo numa cidade maior. Ambos marcam seus encontros por meio de cartas, deixadas num esconderijo secreto.

Filmado quase todo em preto-e-branco, visto com a qualidade desta versão restaurada, o filme remete a uma certa atemporalidade, em que o pacto dos jovens de nunca se deixarem é colocado em questão, diante da perspectiva de uma separação inevitável. Impregnados da certeza de que seu amor é maior do que todas as conveniências, no entanto, os dois procuram uma saída, que acaba surgindo quando participam de uma excursão ao bosque, em que abandonam as outras companhias.

Vivendo nesse bosque por alguns dias, eles se vêem confrontados com a necessidade da sobrevivência e também com uma sensação de liberdade única. Nessa condição, são capazes de compartilhar segredos, como uma experiência de infância de Vera, enraizada na fantasia e fotografada como uma sequência a cores.

Mas a situação do casal mostra-se também impregnada de um fatalismo em que a presença da morte se fará notar, cedo ou tarde. O filme funciona, assim, como uma espécie de metáfora, em que os jovens são como símbolos de uma inocência e pureza que não têm outras opções senão mudar ou desaparecer. O filme está sendo exibido como parte da homenagem da Mostra ao produtor Paulo Branco (Neusa Barbosa)

27/10 - 19:00 - CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP
29/10 - 14:00 - CINE SEGALL

O Primeiro Ano

Exibido em versão restaurada, o documentário de 1972 do diretor Patricio Guzmán retrata o primeiro ano do mandato do presidente chileno Salvador Allende. Um período de muita ebulição e turbulência política, marcado por demandas longamente reprimidas, como a reforma agrária, reclamada, por exemplo, por comunidades indígenas, há muito expropriadas de suas terras ancestrais.

Essas movimentações de setores populares, que indiscutivelmente apoiavam o governo e saudavam a passagem de Allende em eventos públicos,
eram confrontadas também por protestos como o de donas-de-casa de classe média e alta, reclamando da falta de gêneros alimentícios nos mercados - de que são mostradas imagens comprovando o resultado de um boicote ao governo recém-eleito por parte de setores industriais.

Deslocando-se pelo país, o documentarista, que faleceu em setembro passado, capta um momento pungente de um Chile dividido, que tentava implantar mudanças estruturais, num contexto de instabilidade que traria, um ano depois, o golpe que instalaria no poder o general Augusto Pinochet, implantando uma ditadura sangrenta que duraria 17 anos. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:

27/10 - 15:00 - CINE SATYROS BIJOU