Um dia de últimas sessões do Brasil e do mundo
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 25/10/2026
- Tempo de leitura 12 minutos
A última semana da programação normal da Mostra inclui atrações brasileiras, como a ficção
Leite em Pó, de Carlos Segundo, vencedor de três prêmios em Gramado e protagonizado por Vinicius de Oliveira, e o documentário Dragões, de Miguel Antunes Ramos, que disseca a construção da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre os filmes internacionais, os destaques são o poético Elefantes na Névoa, representante do Nepal a uma indicação para o Oscar e uma coprodução brasileira, e o delicado sul-coreano Lua Cheia, que mergulha no universo de uma adolescente de 16 anos que é guardiã de seus pais com deficiência.
Dragões
O cineasta Miguel Antunes Ramos assistiu a todos os vídeos de Jair Bolsonaro no Youtube e Instagram, para que ninguém mais precise assisti-los, e, a partir disso, realizou o documentário Dragões, uma investigação profunda e de fôlego sobre a construção da imagem do ex-presidente, atualmente inelegível e em prisão domiciliar.
“É inegável que esses vídeos trazem uma imagem nova, algo que rompe com o padrão, e simbolizam um retorno ao passado com novos símbolos imagéticos. Ele era um político do baixo clero que estava na vida pública há 30 anos, e foram esses vídeos que o ajudaram a chegar à presidência”, explica Antunes Ramos em entrevista ao Cineweb.
O cineasta conta que, quando começou a pandemia, ficou obcecado por esses vídeos, e, a certa altura, começou a assisti-los em ordem cronológica para tentar compreender o fenômeno. E, entre suas conclusões, compreendeu que ali, naquelas imagens, nada era mesmo por acaso. Até mesmo nos primeiros vídeos, que parecem mais amadores, há um propósito na suposta tosquice. “O tosco dele já é profissional. Ele busca aproximar o espectador dele, existe uma inteligência por trás disso, para chegar a um efeito, para parecer que ele é um sujeito simples, do povo mesmo. O que não é verdade. É tudo muito bem pensado.”
Antunes Ramos passou 8 horas por dia, durante dois meses, assistindo e catalogando os vídeos, esboçando assim a narrativa de seu documentário, que foi montado com Alexandre Leco Wahrhaftig, num processo que levou quase 2 anos. “Foi fundamental ter um interlocutor nessa hora. Eu sabia que o assunto é delicado e complexo. Era precisa montar o filme de forma que não torturasse o público com uma avalanche de Bolsonaro. É preciso ter ética.”
Entre essas escolhas éticas, por exemplo, está um quadro preto que cobre a imagem (deixando apenas a voz) quando o ex-mandatário imitou, numa live em 2021, uma pessoa com falta de ar por Covid. “Não tinha como mostrar isso, nem eu conseguia ver essa imagem. Estabeleci ali um limite.”
O resultado é um documentário contundente que nos dá um painel vasto, colocando em perspectiva as imagens do horror que o Brasil enfrentou entre 2019 e 2022. “Para ver o processo todo, é preciso nos aproximar e encarar.”
O próprio diretor narra o texto do filme, em primeira pessoa, colocando algo de sua experiência pessoal, mas que também reverbera a de muita gente. Ele confessa que relutou em narrar, tentou diversas maneiras de fazer de outro modo, mas não tinha como ser diferente. “Interessa a mim, como cineasta, o outro, aquele que eu não conheço, não compreendo.” Entre seus filmes, está o documentário A Voz de Deus, que acompanha a trajetória de dois pregadores-mirins evangélicos, Daniel Pentecoste e João Vitor Ota.
Em sua pesquisa, o diretor chegou à conclusão de que, embora possa soar óbvia, é corroborada com seus argumentos ao longo de Dragões. “As redes sociais foram fundamentais para a construção da imagem de Bolsonaro e sua eleição como presidente. O bolsonarismo é a verdade da selfie, é algo superficial e não há o outro. Ele estabeleceu um tipo de imagem política que, infelizmente, não tem volta. Se quisermos mudar isso, será no campo das imagens que deveremos lutar.” (Alysson Oliveira)
ÚLTIMA SESSÃO:
26/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
Leite em Pó
Carlos Segundo constrói sua cinematografia original como um inventário de estranhezas. Foi assim nos curtas Sideral (2021) e Big Bang (2022) e também no longa Fendas (2019). Em Leite em Pó, ele aperfeiçoa este caminho, semeando incertezas para o espectador como um campo repleto de pequenas surpresas, que irão se abrindo no percurso.
Não deixa de ser instigante este caminho, que procura despertar os instintos do público, tantas vezes solicitado ao conformismo ou a uma satisfação plena de suas expectativas, o que lhe dá segurança para atravessar. Não aqui. A trajetória do protagonista, Vicente (Vinícius de Oliveira), será sempre incerta e, por isso mesmo, nunca se sabe o que esperar de seu próximo encontro e aventura.
Se é o luto que deflagra esta trajetória, com a morte da avó Helena (Zezita Matos), não se trata de retratá-lo de uma forma usual - até porque Helena continuará habitando o filme através de seu caderno de memórias, encontrado pelo neto e desencadeador de descobertas pouco edificantes sobre a história da família, onde há um certo avô militar norte-americano, um dos tantos que veio para Natal, onde havia uma base militar,l na II Guerra Mundial.
Lançado ao mundo, tendo de encontrar meios de garantir a própria sobrevivência longe da proteção da avó, Vicente, um roqueiro frustrado, tenta vender álbuns de fotografia para o estúdio chefiado por Jane (Titina Medeiros, em um de seus últimos filmes). Uma tarefa inglória, mas que fornece ao filme o dispositivo para encontrar pessoas muito diferentes, que desatam no protagonista várias etapas do próprio amadurecimento: a arquiteta Iara (Rejane Faria), uma comerciante trans, uma cabeleireira vitimizada pela violência doméstica, uma mulher e um gay dispostos a uma noitada erótica.
Cada um desses encontros, ao invés de fechar a narrativa, abre as portas para o que o próprio diretor chamou, na coletiva de imprensa de Gramado, de um “percurso labiríntico”, em que ele admite o interesse de incluir símbolos e signos que permitam a um caleidoscópio se formar, acompanhando a jornada de Vicente, confrontado com a obrigação de se reinventar.
No elenco, a presença sempre luminosa de Antonio Pitanga, que se reencontrou no set com Zezita Matos, 60 anos depois de Menino do Engenho (1965), de Walter Lima Jr. No Festival de Gramado, o filme venceu três prêmios: melhor roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel), melhor desenho de som (Waldir Xavier) e também melhor filme para o júri da crítica.
(Neusa Barbosa)
ÚLTIMA SESSÃO:
26/10 - 16:30 - CINE TUTU
Elefantes na Névoa
O Brasil é um dos países coprodutores do drama nepalês Elefantes na Névoa, de Abinash Bikram Shah, vencedor de dois prêmios, o Prêmio do Júri e o de melhor criação sonora, na mostra Un Certain Regard em Cannes. O filme é uma coprodução também com o Nepal, Alemanha, França e Noruega e representa o Nepal na busca de uma indicação ao Oscar.
Retratando uma comunidade kinnar, que habita um pequeno vilarejo no interior do Nepal, o filme retrata com muita vibração e colorido as tradições dessas mulheres trans, que vivem juntas em casas, como uma família qualquer, sendo reconhecidas como parte de um chamado “terceiro gênero”. Elas desempenham várias tarefas, convivendo com os demais aldeões, ficando muito nítidos o carisma e a liderança de Pirati (PushpaThing Lama). As kinnar são chamadas sempre para cantar e dançar em festas, como casamentos e nascimentos e também para dar bênçãos, especialmente Pirati.
Há um componente religioso ligando as kinnar, que fazem votos de castidade e devem dedicar sua vida a servir, sob a liderança de uma matriarca (Umesha Pandey). Mas a madura Pirati vive um conflito, quando se apaixona por um músico (Aashant Sharma) e deseja largar tudo para viver com ele em Nova Délhi.
O surgimento deste desejo em Pirati abala a tranquilidade de seu lar, provocando a fuga de uma de suas filhas, Apsara (Aliz Ghimire), numa região de florestas abalada por ataques de elefantes selvagens. No desenvolvimento da busca desesperada de Pirati pela filha, o enredo coloca à tona o frágil equilíbrio da aceitação das mulheres trans na comunidade, que despertam um misto de desejo e repulsa e cuja tolerância é posta à prova pela insistência de Pirati na busca de Apsara por
policiais que não estão nada empenhados nisto.
O diretor mostra eficiência em criar empatia por suas personagens, especialmente a magnética Pirati, que não se detém diante de nenhum obstáculo para saber a sorte de Apsara. E o final do filme conjura uma catarse belíssima, em que se evoca o poder ancestral e a força da natureza contra o obscurantismo e a violência. (Neusa Barbosa)
26/10 - 18:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
29/10 - 19:30 - SOLAR SALA PETROBRAS
Paraíso Semiárido
Neste documentário, o diretor Eduardo Escorel retoma o personagem de um filme anterior, O Tempo e o Lugar (2008), Genivaldo Vieira da Silva, a partir de um reencontro, ocorrido depois de quase duas décadas.
Na narração em off, Escorel assume que pensou neste segundo filme a partir de sua intenção de entender a mudança política de seu personagem. No primeiro filme, Genivaldo era um agricultor, participante da Pastoral da Terra da Igreja Católica, militante do MST, fundador do PT em Alagoas, sendo candidato derrotado à prefeitura de Inhapi (AL). Ao longo do tempo, ele se afastou de tudo isso, tornando-se membro do MDB e eleitor de Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições de 2022. Seu antigo projeto de “paraíso”, a que se refere o título, era passar sua velhice em sua propriedade rural, no nordeste da Bahia, criando bodes. Um projeto que foi abandonado, inclusive por resistência de sua esposa, dona Lia, embora ele ainda possua o lugar.
Escorel ouve seu personagem, sua mulher e seus filhos, todos adultos e cada um com destino próprio, evidenciando essa transformação de mentalidade de maneira respeitosa. Ao mesmo tempo, fornece a moldura de uma família que, beneficiada por muitas políticas dos governos do PT, não reconhece seus efeitos em sua ascensão social. Genivaldo chega a dizer que, nos últimos anos, “nada mudou na pobreza do Nordeste”.
O momento mais instigante do filme é quando Genivaldo conversa numa praça com um antigo companheiro de lutas na esquerda, o assistente social Severino, que não sabia que ele tinha votado em Bolsonaro. É uma conversa respeitosa também, em que Severino questiona o posicionamento atual do amigo e eles compartilham seus argumentos discordantes.
Mas os próprios depoimentos de Genivaldo e dos filhos deixam claro que seu posicionamento pode dever algo à frustração de interesses particulares, como quando um deles revela que sua empresa prestadora de serviços perdeu credenciamento no atual governo Lula. No entanto, para uma maior clareza sobre tudo isso e até sobre a polarização no País, que entra como contexto do filme, seriam necessárias muito mais entrevistas e outros personagens, o que escapa às intenções do filme. (Neusa Barbosa)
ÚLTIMA SESSÃO:
26/10 - 19:40 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 4
Lua Cheia
Este que é o segundo filme da diretora Jeong Ji-hye, que assina também o roteiro, é um mergulho no universo adolescente, a partir de sua protagonista, Hae-mi (Jung Minju). Aos 16 anos, ela transpira segurança e se empenha, com suas amigas, para ser o destaque no grupo de dança da escola, que se prepara para o tradicional Festival da Lua Cheia.
No entanto, ela tem um comportamento misterioso. Ninguém conhece seus pais, que ela esconde cuidadosamente. Na verdade, ela é a guardiã legal dos dois, que sofrem de limitações psicológicas, sendo supervisionados também pela irmã de um deles, a tia a quem Hae-mi recorre ocasionalmente.
Carregando, com tão pouca idade, uma responsabilidade enorme, além dos próprios desafios do amadurecimento, Hae-mi é um poço de tensões reprimidas. Elas vêm à tona quando acontece um acidente com seu figurino, que apresenta um rasgo bem no dia de sua apresentação no festival. O incidente provoca uma explosão e seu rompimento com as amigas, que ela sente que não se solidarizaram o bastante com ela.
Mas o maior desafio se apresenta quando a chegada de uma nova vizinha, uma mãe solo e sua filha adolescente, que se aproximam especialmente de sua mãe, que descobre um novo fascínio pelo mundo das redes sociais - o que põe em risco o desejo de Hae-mi de esconder os pais do mundo, ainda que à sua revelia. Com delicadeza, a diretora e roteirista cria um universo, que contempla não só a adolescência como também o espaço ocupado pelas pessoas com deficiência. (Neusa Barbosa)
ÚLTIMA SESSÃO:
26/10 - 19:00 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2
