Marco Bechis resgata o preço da sobrevivência na ditadura em “Retorno a Buenos Aires”
- Por Neusa Barbosa
- 23/10/2026
- Tempo de leitura 6 minutos
Chileno de nascimento, mas tendo vivido na Argentina e também no Brasil, o diretor Marco Bechis ostenta no currículo diversos filmes que falam da ditadura argentina, da qual ele foi também uma das vítimas, caso de Garagem Olimpo (1999), Filhos (2001) e O Rumor da Memória (2014). Ele volta novamente ao tema em Retorno a Buenos Aires, que concorreu no mais recente Festival de Veneza e tem suas primeiras exibições no Brasil dentro da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O diretor também recebe o prêmio Humanidade no festival.
Nesta entrevista exclusiva a Neusa Barbosa, o cineasta fala sobre a gênese de seu projeto e da importância de colocar perguntas ao espectador, mais do que oferecer respostas, produzindo um eco que se prolongue em sua vivência.
Qual foi a origem deste novo projeto? Tem a ver com a nova ascensão da extrema-direita, inclusive na América do Sul?
A figura do sobrevivente é tragicamente contemporânea, tem pouco a ver com as mudanças de governo, mesmo da extrema-direita. Tem a ver com as guerras, as repressões. Quantos africanos chegam à Europa em barcos, tendo sofrido tortura, encarceramento, violações em seus países ? São sobreviventes, mas não são testemunhas. Para serem testemunhas, são necessários tribunais e condenações. Muitos criminosos são chefes de Estado. Então, como é isso? Eu queria tocar esse tema falando das coisas que eu conheço, porque também sou um sobrevivente. O filme não é a minha história mas falo de coisas que conheço muito bem. Minha história pode entrar em muitos aspectos dos próprios personagens, mas não é a minha história. Não é autobiográfico.
Mas existe também algo pessoal ao localizar a história na Argentina.
Na verdade, acho boa essa forma de entrar nos personagens sem tentar uma reconstrução histórica muito precisa, da época atual ou antiga, daí você pode colocar onde você quiser. Meu filme Garagem Olimpo, que eu fiz em 1999, é um cult na Turquia, onde houve acontecimentos similares ao que ocorreram na Argentina. Mesmo falado em espanhol, eles consideraram como um filme deles, que fala deles. Isto é um pouco o cinema que eu faço. Deixa muitas perguntas ao espectador e acho que elas são similares em qualquer país.
Por quais países o filme já circulou?
Estive em Veneza e também em várias cidades da Itália, onde o filme já estreou. E também na Coreia do Sul, em Busan, onde foi exibido para plateias de 500 de jovens de 25 anos, que manifestaram os mesmos sentimentos em relação aos personagens e ao filme, trataram das perguntas que o filme coloca para eles. Porque o filme coloca perguntas, não dá soluções. Essas perguntas que os espectadores se fazem no mundo são muito similares, seja na cultura coreana, seja na brasileira. Vamos ver como será aqui no Brasil.
Sim, porque independente da cultura, todo mundo entende a ideia de repressão, de Estado autoritário. Mas o que é singular na figura do protagonista (Mariano Guerra, interpretado por Adriano Giannini) é sua culpa de sobrevivente.
De algum modo ele se sente culpado de coisas de que não é culpado. Talvez só no tribunal ele consiga encarar isso de frente.
Sim, ele dá um pequeno passo à frente, mas não creio que isso solucione o problema. Como sobrevivente, ele continua dialogando com seu passado. Mas está melhor no final do que no começo do filme.
Na verdade, ele nem queria voltar à Argentina. E no começo não sabemos qual a razão.
A vida dele não é muito feliz. Eu imagino que ele quer mudar as coisas. Sabe que é difícil, mas tenta.
A gente tem muita essa dúvida aqui no Brasil, onde não houve esses processos de justiça de transição, como aconteceu na Argentina e no Chile, em relação aos militares torturadores. O filme traz essa questão para nós.
Isso é muito importante, porque você precisa elaborar isso. E os jovens na Argentina, verdade que votaram no Milei, que não se pode falar que é um exemplo para vocês, não. Mas igualmente o que foram os tribunais que condenaram quase 2000 militares à prisão perpétua é um feito inequívoco. Os jovens argentinos têm a consciência de que houve crimes cometidos por esses militares. No Chile, houve muitos processos também mas não tantos quanto na Argentina. Pinochet morreu na sua casa, cercado de seus familiares. Jorge Rafael Videla (ex-ditador argentino) morreu numa cela, numa cadeia comum.
Acha que os jovens argentinos, que não viveram a ditadura, têm mesmo consciência disso?
Acho que os julgamentos ajudaram sim nessa percepção. Essa memória está construída de maneira concreta, não é uma questão de divulgar. No Brasil, acho que todo mundo (os torturadores) está morto já, não? Mas esses temas são como a ressaca no mar, vão voltar, mesmo que passem 20 anos.
Porque no Brasil, houve a anistia, como tentativa de apagar tudo, e há pessoas que hoje negam a ditadura, a tortura.
A negação leva a tolerar comportamentos autoritários. Está tudo conectado. Não é uma coisa do passado que você pode deixar lá, dizer que não é tão importante, porque há uma podridão na base e isso vai contaminar a sociedade inteira para sempre, não se resolve a situação.
Por isso é importante de tempos em tempos fazer filmes sobre isso.
A ideia é colocar questões, não soluções. Cada espectador, à sua maneira, vai encontrar suas soluções para as perguntas que o filme coloca. Um filme tem que deixar muitos lugares vazios para que o espectador possa entrar. Se tudo está explicado, tudo está visto, tudo está muito bem contado mas ao final, você sai do filme e esquece. É bom que haja um eco da história e que ele seja longo.
Horários na Mostra
24/10 - 16:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
25/10 - 19:15 - SOLAR SALA PETROBRAS
28/10 - 18:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 5
