Uma série imperdível e atrações de Cannes, Veneza e Berlim
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 20/10/2026
- Tempo de leitura 14 minutos
A quarta-feira é marcada pelas exibições de uma pouco conhecida e admirável minissérie do francês Maurice Pialat, A Casa no Bosque, mais a volta do russo Andrei Zvyagintsev com o drama político Minotauro, Grande Prêmio do Júri em Cannes, do drama dinamarquês Mulher Desconhecida, de May El-Thouky, vencedor do Leão de Ouro e do prêmio de melhor atriz em Veneza, mais o ótimo drama espanhol O Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, com interpretação alentada de Javier Bardem, e o brasileiro
Feito Pipa, de Allan Deberton, candidato do Brasil a uma indicação ao Oscar. Confira estes e outros bons filmes da seleção:
A Casa no Bosque
Uma das preciosidades da programação desta 50ª Mostra, sem dúvida, é esta pouco conhecida minissérie de Maurice Pialat que, não sem razão, dizia ter sido “a coisa mais bela que fiz”. O roteiro é assinado por ele, René Wheeler, Arlette Langmann e Yves Laumet.
Realizada para a televisão em 1971, a série pode ser vista em seus sete capítulos em versão lindamente restaurada, dando às suas paisagens campestres a aparência das telas de Jean Renoir.
O diretor de Aos Nossos Amores (1983), Sob o Sol de Satã (1987) e Van Gogh (1991) mostra aqui um lado delicado e telúrico ao retratar uma família rural, na França de 1971, nos últimos anos da I Guerra Mundial. Sem mostrar uma única cena de batalha, a série se dedica a revelar os efeitos devastadores desta guerra sobre a população francesa, a partir do microcosmo de uma pequena cidade não muito distante de Paris.
Ali vive a família comandada pelo guarda florestal Albert Picard (Pierre Doris) e Jeanne (Jaqueline Dufranne) que, além de cuidar do próprio sítio e de seus dois filhos adolescentes, encarrega-se também de três meninos, filhos de pais que lutam na guerra. Um deles, Hervé (Hervé Lévy), foi abandonado pela mãe, o que o torna objeto da proteção especial de Jeanne, mesmo quando ele apronta travessuras ou tem reações agressivas aos domingos, dia em que os outros dois meninos recebem visitas das mães, que moram e trabalham em Paris.
A vida bucólica no campo, cheia de aventuras nos bosques e descobertas compartilhadas também sofre um abalo quando o filho dos Picard, Marcel (Henry Puff), é convocado para as trincheiras, inserindo a guerra cada vez mais no cotidiano não só da família como do resto do país.
O andamento da série é muito saboroso, porque alterna tanto as situações divertidas, das brincadeiras dos meninos, inclusive na classe do professor primário interpretado pelo próprio Pialat, com os dilemas dos jovens e dos adultos diante das incertezas do país. Tudo é conduzido com muita segurança e apuro. Quem se dispuser a atravessar os 380 minutos da série, divididos em três blocos, com intervalos, não terá do que se arrepender. (Neusa Barbosa)
21/10 - 15:00 - CINE SATYROS BIJOU
22/10 - 15:00 - MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
Minotauro
Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, Minotauro marca a volta do diretor russo Andrei Zvyagintsev ao circuito dos grandes festivais. Ganhador do Leão de Ouro 2003 por O Retorno e de melhor roteiro em Cannes 2014 por Leviatã, o cineasta passou um ano internado num hospital, com 90% dos pulmões comprometidos, por conta da covid-19 e teve que reaprender a andar, falar e segurar talheres. Felizmente, sobreviveu e conseguiu voltar à ativa, realizando um filme forte e marcante, filmado e patrocinado fora da Rússia, já que Zvyagintsev é um forte opositor do militarismo do governo Vladimir Putin. O diretor vive em Paris há 4 anos.
Minotauro, aliás, tem inspiração inicial num filme do francês Claude Chabrol, A Mulher Infiel (1969), mas transporta a história aos dias atuais, implantando-a num cenário russo, ficcionalmente - as filmagens ocorreram na Letônia, pela semelhança arquitetônica. O protagonista é um CEO controlador, Gleb (Dimitri Mazurov), que se torna um típico exemplar da masculinidade tóxica, não só como marido indiferente de Galina (Iris Lebedeva) como colaborador de autoridades que requerem a entrega de listas de nomes de seus empregados para serem convocados para as muitas guerras em que seu país se engaja - e os cartazes espalhados pela cidade são um sinistro sinal dessa mentalidade pretensamente patriótica, mas apoiada no sacrifício de uma população que tenta continuamente deixar o país.
Zvyagintsev mostra que continua apurada sua perícia em conjugar dramas familiares e contextos sócio-políticos, nutrindo-se de seu amplo conhecimento da realidade russa e do fenômeno do poder, que ele explorou tão habilmente em títulos como o citado Leviatã. No tom da história, está toda a densidade do cinema russo, com uma história impregnada de elementos criminais e de significados simbólicos. Bem-vindo de volta, Zvyagintsev! (Neusa Barbosa)
21/10 - 18:00 - CULTURA ARTÍSTICA
24/10 - 21:15 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
28/10 - 17:30 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
Mulher Desconhecida
Diretora conhecida por Rainha de Copas (2019) e uma das únicas mulheres na competição de Veneza, a dinamarquesa May El-Thoukhy, tornando-se a oitava diretora a vencer o Leão de Ouro nas 83 edições do festival, que foi criado em 1932, o mais antigo do mundo. O filme conquistou ainda um segundo prêmio, a Copa Volpi de melhor atriz para Mathilde Arcel, em seu primeiro papel de protagonista.
Contando com a interpretação afiada de Mathilde Arcel, a diretora compõe um sólido drama, apoiado na história de Marie, uma jovem arrumadeira que, após o final da II Guerra, emprega-se na casa de um industrial, o viúvo Christian Lind (Carsten Bjornlund), e prepara-se para casar com ele.
Este projeto de vida é ameaçado quando ela reencontra um velho conhecido e isto precipita o risco da descoberta de segredos do passado de Marie, que manteve um relacionamento com um soldado alemão.
A partir daí, ela tem que fazer escolhas difíceis não só para manter as aparências como para que esse segredo não venha à tona, num tempo de pós-guerra em que milícias da Resistência caçavam antigos colaboradores com os nazistas.
No roteiro assinado em parceria pela diretora e por Maren Louise Käehne, há um olhar saudavelmente feminista na maneira como enfoca os desafios de ser uma mulher pobre naquele tempo e lugar. Neste sentido, são notáveis sequências como a consulta de Marie no ginecologista; o olhar lançado pelo modista quando ela prova o vestido de noiva; e como os amigos de Lind a examinam da cabeça aos pés num jantar. Todas estas cenas e mais a maneira como o filme demonstra como o colaboracionismo com os alemães foi tolerado quando praticado pelos industriais - mas não pela população em geral - tornam Mulher Desconhecida um dos títulos mais interessantes da seleção da Mostra este ano. (Neusa Barbosa)
21/10 - 20:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1
27/10 - 15:00 - CINESESC
28/10 - 21:30 - CULTURA ARTÍSTICA
29/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
O Ser Querido
Neste magnífico filme, o diretor espanhol Rodrigo Sorogoyen expande as fronteiras entre melodrama familiar e filme sobre cinema, aliando também um alto rigor estético em sua fotografia, assinada por Alejandro de Pablo, que usa o preto-e-branco em sequências especiais.
Diretor do excepcional As Bestas (2022), Sorogoyen também assina aqui o roteiro desta história do reencontro entre um pai cineasta, Esteban (Javier Bardem, esplêndido), e sua filha, Emilia (Victoria Luengo), atriz, depois de um afastamento de vários anos. Esteban foi viver em Nova York e convida esta filha, que cresceu longe dele e que mal conhece, para atuar em seu novo filme, nada por acaso chamado Deserto.
É um reencontro com potencial para acordar rancores adormecidos por parte da filha, e as culpas do pai, um ex-alcoólatra que deixou de lado experiências violentas. Tudo o que Esteban tem em mente é suavizar as marcas deste abandono da filha, que não está, no entanto, disposta a facilitar-lhe a vida.
Estas emoções adormecidas renascem sob o sol do deserto onde se filma uma história de época, que remete a outras culpas, ao passado colonial espanhol, no Saara Ocidental, e permeiam as filmagens de uma forma que também explicita os desafios do próprio cinema, um artesanato duro e extenuante. Por isso, o filme se torna cada vez mais rico em suas camadas, desenvolvendo em paralelo esse estranhamento entre pai e filha e ao processo intrinsecamente coletivo do fazer cinematográfico.
Javier Bardem mostra-se no auge de sua forma, na melhor interpretação masculina vista no Festival de Cannes, infelizmente não premiada, encarnando um personagem contraditório com tantas nuances que o tornam terrivelmente humano - um primor de atuação. (Neusa Barbosa)
21/10 - 19:40 - CINEMATECA SALA GRANDE OTELO
24/10 - 17:30 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
25/10 - 16:00 - CULTURA ARTÍSTICA
Feito Pipa
Por onde passa, desde sua première mundial no Festival de Berlim, Feito Pipa, de Allan Deberton, tem exercido um efeito encantatório,acumulando prêmios e levando públicos muito diferentes a entrar na onda de emoções delicadas que recobre o tratamento de temas sérios e necessários, como o da infância queer aqui contemplado e que ganha brilho nas atuações infantis, a começar pelo protagonista Yuri Gomes.
Partindo de um roteiro de André Araújo, Deberton, o premiado diretor de Pacarrete - vencedor de 8 troféus em Gramado -
mergulha na vida de Gugu (Yuri Gomes), menino de 11 anos, órfão de mãe, criado pela avó Dilma (a extraordiinária Teca Pereira), enquanto seu pai, Batista (Lázaro Ramos), formou família com uma nova mulher (Georgina Castro), com quem tem uma filha e aguarda o nascimento de outro bebê.
O filme é encantador em sua criação de um mundo todo particular, em que Gugu luta contra a homofobia na escola, já que ele é um menino que, além de jogar futebol, gosta de usar camisetas e enfeites femininos e adora dançar, como a avó. Esse comportamento incomoda o pai, que tenta enquadrar o menino no seu modelo de masculinidade, mas encontra pela frente a resistência de Gugu e dessa avó, que também luta contra os estereótipos impostos às pessoas mais velhas - gostando de namorar e dançar forró.
Feito Pipa privilegia a busca do espaço da imaginação e do sonho para conquistar um lugar melhor e seduz na sua delicadeza, com a vantagem de não dispensar a discussão de ainda outros temas sérios, como o impacto ambiental das represas e a perseguição aos ativistas. Também tem a qualidade de não estereotipar a figura desse pai em conflito com a sexualidade do filho, com um ator da qualidade de Lázaro Ramos sendo capaz de extrair outras camadas desse homem comum brasileiro, que não deixa de ser amoroso e protetor. (Neusa Barbosa)
21/10 - 21:00 - CULTURA ARTÍSTICA
29/10 - 17:00 - CINESESC
Confira as entrevistas do diretor Allan Deberton e dos atores Lázaro Ramos e Teca Pereira no Canal do Cineweb no YouTube
London
Único filme brasileiro na seleção veneziana, na Semana da Crítica, o drama escrito e dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli venceu o prêmio Queer Lion da 83ª edição do Festival de Veneza.
Filmado em Porto Alegre, o enredo retrata o cotidiano de London (Victor Di Marco), um jovem com deficiência física que trabalha assessorando performances eróticas e fetichistas numa boate. Lá, ele convive com outras pessoas PCD, morando sozinho num apartamento, independente mas com uma limitada vida amorosa e social. A narrativa percorre uma série de dificuldades causadas pelo preconceito contra as pessoas PCD, ao mesmo tempo em que London se divide entre o desejo de conhecer Londres, cidade relacionada com seu nome, e a recusa a encarar o diagnóstico definitivo de seus problemas - o que ele entende que não deve defini-lo.
Um tema forte aqui é a invisibilidade social, que atinge não só as pessoas PCD, como os idosos, o que é desenvolvido de maneira interessante quando London conhece uma mulher mais velha, com quem é capaz de dividir uma série de experiências e sentimentos. (Neusa Barbosa)
21/10 - 21:15 - CINESESC
29/10 - 19:45 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
Black Zombie
Figuras queridas do cinema de horror e repletas de significados, os zumbis se tornaram pop nos anos de 1960, com o filmes de George Romero, e ganharam novos sentidos – dos consumidores excessivos no capitalismo tardio às criaturas políticas representando minorias. Enfim, tudo cabe num zumbi, mas a cineasta afro-caribenha e canadense Maya Annik Bedward começa seu Black Zombie resgatando as origens haitianas deles, e conduz no seu documentário uma historicização precisa dos zumbis trazendo uma desconstrução decolonial. Essa investigação eleva os mortos-vivos canibais a um status de estrelas, com razão, olhando para o lado pop que perdura até hoje - mas como chegaram aqui? O caminho foi longo e, como acontece tantas vezes, foi uma apropriação cultural. O cinema hollywoodiano distorceu e distorce esses seres que têm suas origens na cultura haitiana. Na época da colonização europeia, escravizados africanos eram explorados e alienados de maneira tão potente em seu trabalho que pareciam estar num transe, muitos precisavam se embebedar para aguentar a humilhação e exploração física e mental. Eram, então, vítimas da sociedade colonial e escravocrata.
O ocultista e escritor sensacionalista estadunidense William Seabrook, no entanto, ajudou bastante a trazer uma virada a essa concepção. Seu livro The Magic Island, de 1929, foi um enorme sucesso. Lá ele dizia, basicamente, que os trabalhadores dos canaviais eram incapazes de falar ou ter reações. A isso, ele adicionou (novamente, de maneira incorreta) a ideia do vodu transformando corpos e mentes e, pronto, a transformação estava completa. Hollywood logo adaptou seu livro para o filme Zumbi, A legião dos mortos, de 1932, e uma década depois A morta-viva sedimentou o imaginário popular retratando povos caribenhos como incultos e acreditando em poderes sobrenaturais, enquanto cabia ao branco, geralmente, estadunidense o papel de salvador.
Bedward traz depoimentos de especialistas no tema que resgatam essa trajetória, colocando-a no devido lugar, escancarando o preconceito racial e o sufocamento cultural – se é que alguém ainda não havia se dado conta disso. Filmes como A Maldição dos Mortos-Vivos, de Wes Craven, de 1988, contribuiu para isso mais do que, digamos, A Noite dos Mortos-Vivos, duas décadas antes, dirigido por Romero, que trazia um viés mais crítico à sociedade estadunidense, denunciando o medo burguês dos movimentos sociais que eclodiram no final dos anos de 1960.
Talvez Black Zombie frustre fãs de terror que esperam mais enaltecimento do gênero. Embora Bedward não descarte a importância dos zumbis como figuras políticas e símbolos sociais, seu interesse está exatamente em resgatar esse lado das criaturas que, com o tempo, foi escamoteado em prol de uma diversão mais barata e descartável. (Alysson Oliveira)
21/10 - 20:00 - MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
26/10 - 13:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1
