20/10/2026

Retratos da antiga URSS, do Irã e da Palestina estão em destaque na terça

A terça-feira traz como principais atrações o alentado Imperium, documentário de Sergei Loznitsa sobre a antiga URSS a partir de imagens inéditas da década de 1970, o sólido drama iraniano Um Pouco de Esperança, do diretor Ali Asgari, e um contundente drama palestino, Crônicas do Cerco, de Abdallah Alkhatib, vencedor do prêmio de melhor primeiro filme da mostra Perspectivas do Festival de Berlim. Confira estas e outras sugestões abaixo:

Um Pouco de Esperança

Exibido em competição no Festival de Veneza, o drama do diretor iraniano Ali Asgari guarda uma certa semelhança com O Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami, embora num contexto bastante diferente. Em ambos os filmes, há um protagonista empenhado no projeto de um suicídio que, no filme de Asgari, tem suas motivações muito mais explicadas e remete aos impasses do Irã atual.

Este protagonista é um médico, Arash (Misagh Zareh, o juiz de A Semente do Fruto Sagrado), que teve sua licença de clinicar revogada depois de ter atendido jovens participantes de atos de protestos contra o governo. Com seu consultório lacrado e sem perspectivas, ele decide que irá matar-se. Mas antes irá visitar um a um seus irmãos e, por último, sua mãe, para avisá-los de sua decisão.

Diretor de Crônicas do Irã e Até Amanhã, Asgari estrutura habilmente este angustiante ritual de despedida do médico como uma revisão de sua própria vida, já que os irmãos, compreensivelmente, tentam demovê-lo do projeto radical: Mahsa (Sadaf Asgari), sua irmã mais nova, professora de ioga, Massi (Forouzan Jamshidnejad), a mais velha, professora aposentada, e Maziar (Ramtin Daghigh), o irmão que Arash encarregou das providências concretas após sua partida.

A introdução destes três personagens coloca em foco aspectos do Irã contemporâneo, em termos não só de família como de sociedade e trabalho, que em determinados momentos insere a situação de guerra - como quando o porteiro do prédio onde mora o médico sugere colocar fita adesiva nas janelas, falando da ameaça de Trump de bombardear o país.

O segmento final, o mais envolvente, inclui a visita dos quatro filhos à mãe viúva (Mina Rahimzadeh), que prepara a conclusão de uma história plena de camadas, muito adulta e nada maniqueísta. (Neusa Barbosa)

20/10 - 19:20 - CULTURA ARTÍSTICA
23/10 - 17:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2
28/10 - 21:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
29/10 - 15:00 - CINESESC

Imperium

Filmadas na URSS entre 1970 e 1973, por cineastas italianos que percorreram mais de 20 regiões ou cidades do país, as imagens deste notável documentário do premiado Sergei Loznitsa ficaram esquecidas por décadas. Sua redescoberta contou com a colaboração de três arquivos italianos: a Cineteca Nazionale, de Bolonha, o Luce Cinecittà e o AAMOD (Archivio Audiovisivo del Movimento Democratico e Operaio), de Roma.

Com seu olhar clínico, Loznitza mergulhou nessas 60 horas de filmagem em 16 mm colorido, distribuídas em 482 bobinas, extraindo delas as quase 3 horas deste Imperium - cujo título explicita claramente sua intenção de colocar o foco em alguns aspectos formadores do império soviético. E isto dispensando narração e comentários, deixando ao espectador fazer suas análises. Material não falta.

Não por acaso, o diretor abre seu filme com as imagens grandiloquentes de um grande desfile de aniversário da Revolução Russa de 1917, em que a profusão de estandartes vermelhos, os batalhões militares e também os grupos de cidadãos com fantasias de produtos agrícolas evocam a prosperidade, com cartazes anunciando que as metas anuais de diversas regiões foram cumpridas antes do prazo previsto.

As pessoas da época reagiam à câmera de uma forma inteiramente diferente da de hoje. Isto era uma novidade, por isso, alguns sorriam, outros procuravam se esconder da curiosidade dos cinegrafistas italianos, que se interessavamm pela diversidade geográfica e étnica de uma URSS imensa. Diversidade que se manifestava também nas atividades econômicas, fossem pastoris, industriais ou agrícolas, entre técnicas ancestrais e mecanização. Não faltam também registros de festas e feiras folclóricas, transmitindo a imagem pretendida de um país em marcha, em pleno desenvolvimento, com pretensão de gigantismo e integração regional.

As imagens de Lênin, em estátuas ou cartazes, são onipresentes nos quatro cantos do país, até mesmo no cenário de um casamento na Ucrânia - país então integrante da URSS, do qual são mostradas duas regiões.

Finalizam o filme imagens de Leningrado sob uma forte nevasca, com foco nos rostos das pessoas andando nas ruas da cidade que havia sido um símbolo da resistência aos nazistas, sofrendo um cerco de dois anos e três meses, que resultou então em 1 milhão de mortes, e naquela altura estava plenamente recuperada.

Mas o filme não poderia deixar de terminar com um letreiro seco, lembrando o fim abrupto da URSS, em 1991. As conclusões, porém, Loznitsa deixa aos espectadores. (Neusa Barbosa)

20/10 - 17:00 - CINE SATYROS BIJOU
22/10 - 19:45 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
29/10 - 15:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

Às Vezes Sinto Tristeza, Outras Vezes, Revolta

Atração da Jornada dos Autores do Festival de Veneza, o original filme da cineasta argentina Maria Aparício venceu os prêmios de melhor direção e o prêmio Valentina Pedicini para diretoras de até 40 anos.

Retirando seu título de uma canção do músico argentino Atahualpa Yupanqui, a diretora e roteirista cria uma história que se lança em várias direções e compõe várias camadas para refletir um estado desconfortável no mundo do trabalho e das relações humanas em tempos de redes sociais.

Começa com a jornada de Eva (Eva Bianco), montadora e cineasta argentina que se encontra de férias em Madri. Explorando a cidade sem compromisso, seu caminho se cruza com o de outro argentino, o historiador Dante (Roger Koza), que pesquisa a obra de Juan Bialet Massé. Este espanhol que emigrou para a Argentina escreveu uma obra sobre as lutas operárias do início do século XX, cuja discussão se torna também um pretexto para que o próprio filme discuta imigração e precaridade do trabalho a partir das conversas entre Eva e Dante.

Um confronto de Eva sobre as intenções de Dante em olhar para a obra de um autor que retratava uma situação do século passado leva o filme a uma virada documental, em que Dante passa a conversar com diversos imigrantes latino-americanos na Espanha, que compartilham suas histórias e sonhos no contexto do mundo moderno. Isto abre uma nova perspectiva a um filme que já havia demonstrado sua intenção de aventurar-se e não sucumbir aos mais óbvios clichês, nem mesmo quando trafega nas belas ruas da capital espanhola e nas dependências do museu Reina Sofia. (Neusa Barbosa)

20/10 - 12:00 - CULTURA ARTÍSTICA
28/10 - 15:40 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
29/10 - 13:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1

Crônicas do Cerco

O cineasta Abdallah Alkhatib venceu o prêmio de melhor primeiro filme na mostra Perspectivas do Festival de Berlim ao transformar sua própria experiência no cerco ao campo de refugiados palestinos em Yarmouk, na Síria, na matéria-prima do roteiro deste drama.

Ele cria uma série de situações que retratam o sufoco vivido pelos palestinos em sua própria terra, sobrevivendo entre escombros, sem remédios ou comida suficiente, sofrendo bombardeios constantes, num contexto em que a desumanização os contempla de perto.

Assim vive Arafat (Nadeem Rimawi), um homem velho, com problemas mentais e cuja saúde se deteriorou pela falta de acesso à sua medicação. Ele perambula entre os escombros como um zumbi, numa condição que nada lembra seu status anterior, quando possuía uma videolocadora e escrevia um diário literário.

Essa videolocadora abandonada é invadida por um grupo de quatro jovens, que se dedicam ao saque do que puderem encontrar - como madeira para aquecer-se do frio. Mas, finalmente, são os próprios vídeos, que alguns deles conhecem e viram, que se tornam combustível nessa situação-limite.

Outras cenas avassaladoras se passam nas ruas, onde homens catam o que puderem encontrar para trocar por um único cigarro - comércio que é explorado por Saleh (Idir Benaibouche), que viverá mais tarde a angústia extrema de ter que levar sua mulher, grávida nos últimos dias, ferida num bombardeio,
para ser atendida num hospital precário.

Uma situação mais doce é vivida por Fares (Emad Azmi), um dos sentinelas do bairro, que cria um tremendo esquema de segurança para que sua amada Huda (Maria Zreik) possa deslocar-se e possam ter alguns minutos de intimidade. Mas não há como amar nestas condições.

Pela coesão de todos estes dilemas, o filme cresce e transmite seu recado com clareza e contundência. Para nós, espectadores, fica a sensação de estarmos assistindo a um genocídio ao vivo. (Neusa Barbosa)

20/10 - 15:00 - CINESESC
27/10 - 13:25 - SOLAR SALA PETROBRAS

Clarissa

Conhecida por sua inventividade na literatura, mas também por seu elitismo e esnobismo, talvez Virginia Woolf não iria gostar de ver uma adaptação de seu clássico modernista Mrs Dalloway situada em Lagos, e interpretado por um elenco negro. Mas isso pouco importa, o que conta que é os irmãos Arie e Chuko Esiri realizaram uma adaptação repleta de cores, sagacidade e relevância ao deslocar a trama da Londres do entreguerras para a Nigéria contemporânea marcada pelo conservadorismo e a herança colonial.

O ganho cinematográfico a partir das escolhas dos Esiri são grandes. A Nigéria moderna é marcada por uma delicada divisão de classes. Clarissa (Sophie Okonedo) é uma mulher de classe alta, de bom gosto e trata suas trabalhadoras domésticas como se fossem da família – é curioso que uma delas se chame Confort (Joy Sunday). Mas há toda uma tensão entre o trabalho delas e a vida calma da protagonista que decide que ela mesma irá comprar as flores para a festa que dará naquele dia.

Um dos ganhos já está logo no título, no qual a protagonista é chamada por seu nome, e não pelo do marido. O patriarcado é mais confrontado aqui do que por Woolf. Ela mora numa casa elegante em Lagos, e prepara a festa na qual reencontrará amigos do passado.

Neste passado, na bucólica cidade Abraka, a personagem é interpretada por India Amarteifio, e ela se envolve numa delicada rede de relações e laços de afeto com Peter (Toheeb Jimoh), seu amor e aspirante a poeta, e Sally (Ayo Edebiri), de quem se torna próxima e com quem também vive uma espécie de paixão platônica. Orbitando ao lado deles, está Richard (Jable Osai), com quem ela acabará se casando.

No presente, tanto Peter (David Oyelowo), quanto Sally (Nikki Amuka-Bird) está em Lagos, e acabará reencontrando Clarissa, que é uma mulher infeliz, exatamente por conta das escolhas que fez três décadas atrás. O roteiro de Chuko constrói uma delicada teia que transita no tempo e espaço, dando palco a uma Nigéria marcada por feridas coloniais nunca resolvidas, que invadem a vida pessoal das personagens.

Num outro polo está Septimus (Fortune Nwafor), soldado traumatizado pela morte violenta de seu comandante na sua frente. Ele é casado com Aisha (Modesinuola Ogundiwin), costureira responsável pela roupa de Clarissa para a festa, o que conecta as duas linhas narrativas. A vida de Aisha, na periferia, diferente daquela repleta de um jardim florido da protagonista. A fotografia de Jonathan Bloom – um dos pontos altos do filme – dá conta das tensões de classe essencialmente pelos ambientes onde essas duas mulheres moram.

A elite, da qual Clarissa faz parte, carrega traços da colonização, com seu sotaque britânico e gosto pela arte. As estruturas coloniais foram herdadas e mimetizadas pela classe alta local e, assim, os irmãos Esiri fazem o retrato de um privilégio, de uma mulher que se pode dar ao luxo de ter problema emocionais, uma vez que não tem preocupações econômicas ou políticas.

No passado, Clarissa era muito mais progressista e defensora da literatura nacional (uma discussão sobre Chinua Achebe é particularmente interessante), enquanto hoje se interessa por uma arte exótica, bem ao estilo do que um europeu gostaria de ver na Nigéria. E o fato de que tudo isso é mostrado de maneira muito sutil no filme, sem precisar de explicações, só eleva a capacidade de representação cinematográfica dos cineastas. (Alysson Oliveira)

20/10 - 21:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1
01/11 - 14:00 - CULTURA ARTÍSTICA

Princesa Burro

Uma dupla de diretores que fez A Casa Lobo não precisaria fazer mais nada. Eles chegaram ao ponto alto de suas carreiras, mas os chilenos Cristobal León e Joaquín Cociña continuam a realizar fantasias soturnas – em alguns casos, até macabras –, pautadas pelo comentário político e uma inventividade estética, como é o caso da nova obra, Princesa Burro, um filme marcado pelo uso de diversas ferramentas e estilos narrativos para transitar entre a fantasia e o realismo puro.

Este terceiro longa do duo de diretores coloca-os num status elevado, provando que a estreia em Los hiperbóreos não foi sorte, e sim o resultado do trabalho cuidadoso de dois grandes artistas interessados nas possibilidades de discussão política que o cinema de fantasia tem a oferecer – o que não é pouca coisa.

O roteiro, escrito pelos cineastas em parceria com a romancista Alejandra Moffat, se inspira no conto de Charles Perrault Pele de Asno (adaptado com graça e verve por Jacques Demy, em 1970), e traz como protagonista a princesa Diana (Antonia Giesen), cuja semelhança com sua xará britânica reside na repressão familiar que a obriga a viver no castelo. Ela é protegida com os excessos de seu pai, o rei (Francisco Melo) , mas ela sonha em sair dali, até que conhece um plebeu chamado Lalo (Andrew Bargsted).

Quando o rei descobre que ela está apaixonada por esse homem, acaba banindo-o do reino. Antes disso, Diana recebe um presente mágico do rapaz, um bracelete com poderes de transportá-la para onde ela deseja. Ao ser confinada em seu quarto, ela sonha em sair dali, usa a joia, e acaba no Chile do presente, um lugar completamente desconhecido para ela. Ali, ela é noiva de Lalo, de quem, aliás, seu pai gosta bastante. Estranhando os costumes e cultura, Diana se adapta graças a uma fita em VHS, produzida para crianças, que explica como o mundo funciona.

As várias opções de vida que surgem para Diana nunca são totalmente satisfatórias para ela, ou, ao menos, felizes. A partir disso, o próprio filme caminha da fantasia ao realismo, numa narrativa cada vez mais melancólica, até seu clímax libertador que abre uma gama de possibilidades para Diana, mesmo diante da dor e de uma atitude extrema, mas só capaz de ser realizada graças a um amor profundo. (Alysson Oliveira)

20/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
25/10 - 17:10 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
26/10 - 18:00 - CINE SEGALL

La Perra

Num ano em que o Brasil ficou de fora das principais mostras do Festival de Cannes, a presença de Selton Mello no elenco de La Perra, de Dominga Sotomayor, uma coprodução entre Chile e Brasil, foi algo de se notar. O filme integrou a Quinzena dos Cineastas, uma das mostras competitivas de Cannes.

Adaptando um livro colombiano, A Cachorra, de Pilar Quintana, a diretora delineia a trajetória da protagonista Silvia (Manuela Oyarzún), uma humilde coletora de algas na praia, que se apega a uma cachorra que aparece por ali, Yuri. O relacionamento entre a mulher e a cachorra espelha toda a dificuldade de Silvia para expressar seus sentimentos, inclusive um trauma por uma tragédia no passado, na qual está envolvido Fonseca (Selton Mello), proprietário de uma casa elegante na montanha.

Filmado na Isla Santa Maria, o filme incorpora suas paisagens um tanto íngremes, frias e algo desoladas como um elemento para integrar essa mulher que não consegue expressar nem os próprios afetos, muito menos os próprios traumas, transferindo para o cuidado com a cachorra muito desse seu mal-estar na própria pele. É um filme cheio de silêncios, muito imagético e que confia ao espectador cobrir algumas lacunas. No entanto, tem um final abrupto bastante questionável. (Neusa Barbosa)

20/10 - 21:20 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
27/10 - 17:40 - SOLAR SALA PETROBRAS

Vou para Casa

Vencedor do Prêmio da Crítica da 25ª Mostra, o notável filme do mestre português Manoel de Oliveira volta a ser exibido em sua programação dentro da homenagem ao produtor Paulo Branco, em São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff.

20/10 -17:00 - CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP
21/10 - 18:30 - CINE SEGALL
28/10 - 21:50 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3
29/10 - 19:00 - CINUSP