Brasília faz reflexão sobre os problemas e pressões das metrópoles brasileiras
- Por Nayara Reynaud
- 23/09/2013
- Tempo de leitura 6 minutos
O quinto dia de competição do Festival de Brasília voltou-se, de maneiras extremamente distintas, para o debate de duas grandes cidades brasileiras: a própria Brasília, com o documentário Plano B, de Getsemane Silva, e São Paulo, com o primeiro longa-metragem de ficção de Paulo Sacramento, Riocorrente (foto).
No último caso, o diretor usa um triângulo amoroso como metáfora dos sentimentos conflituosos que a capital paulista gera em seus habitantes, sob uma intensa relação de amor e ódio. No filme, Renata (Simone Iliescu) está dividida entre Marcelo (Roberto Audio), um jornalista que vive preso em seus próprios medos, e Carlos, ex-ladrão de automóveis que exala brutalidade e doçura ao mesmo tempo.
A construção dessa narrativa, apesar dos diálogos escassos – quase sempre usados nos momentos de conflito –, é a única coisa sólida em uma obra repleta de simbolismos que levam à abstração, em que o diretor usa a sua ampla experiência como montador para criar uma crescente de tensão por meio de sons e imagens – cuja fotografia foi feita pelo amigo Aloysio Raulino, morto em maio deste ano, uma das pessoas a quem dedicou o filme.
A intensa série de metáforas faz o espectador se perder ao tentar buscar sua compreensão, gerando certo incômodo. Riocorrente não é um filme palatável para grandes plateias e digeri-lo é um processo que leva tempo. Paulo Sacramento disse ter feito uma obra sobre muitas coisas e experiências que precisava contar.
Assim, ele discute a desigualdade social e reflete sobre o fim do jornalismo, com uma cena emblemática de um exemplar do jornal O Estado de S. Paulo sendo devorado por ratos. O cineasta também assinala a necessidade de mudança, defendendo a busca por algo novo, mesmo dentro do que já é considerado velho, seja na arte, nas relações humanas ou na sociedade em geral. Não é à toa que o menino cuidado por Carlos se chama Exu que, na tradição do Candomblé, é o orixá – aliás, o mais humano dos orixás, tendo todos os dilemas da nossa existência – da transformação.
E a chave desse espírito de mudança que o longa evoca está no conhecimento, que Sacramento simboliza através do fogo em cenas importantes da produção, particularmente no final. Isso porque o conhecimento “explode”, abre as mentes e, assim como o fogo, se propaga rapidamente. Por isso, como citado em certo momento do filme, “as ideias são perigosas”.
É aí que o diretor consegue justificar ter se arriscado tanto nessa sua estreia ficcional. Riocorrente é uma obra a ser revisitada algumas vezes para desvendar suas camadas e descobrir significados entre as várias discussões que abre.
Fora do plano
Em 1967, Joaquim Pedro de Andrade, um dos cineastas fundamentais do Cinema Novo, fez o documentário Brasília – Contradições de uma Cidade Nova para revelar os problemas da recém-criada capital federal, cidade planejada que prometia ser modelo de modernidade arquitetônica e urbanística. Mas o conteúdo do filme não agradou a Olivetti, fabricante de máquinas de escrever, que, naquela época, patrocinava o projeto. E a censura também proibiu a exibição do longa que, naquele período, foi exibido apenas no Festival de Brasília. Recolhido na Cinemateca do Rio de Janeiro, a cópia permaneceu 40 anos no ostracismo, até ser restaurada há cinco anos.
A curiosa história envolvendo essa obra mítica é o ponto de partida de Plano B, documentário de Getsemane Silva, que esteve na sessão de ontem, recebida por muitos aplausos da plateia do Cine Brasília. O longa procura não só histórias e pessoas envolvidas no filme de Joaquim Pedro, como Jean Claude Bernardet, Affonso Beato e Joel Barcellos. Há também uma busca pelos mesmos planos – em especial os vários travellings utilizados – de Brasília – Contradições de uma Cidade Nova, intercalados para mostrar a capital de 1967 e a de hoje. A cena da rodoviária até confunde o telespectador, comprovando que Brasília não mudou tanto de lá para cá.
O diretor aproveita, então, o mote do mito que circunda a obra de Joaquim Pedro, de quem mantém também a ironia para confirmar a crítica social feita anteriormente à essa cidade planejada, que não previu a exclusão social consequente, não só do processo de urbanização, como do próprio conjunto de operários que ajudaram a construí-la. Os candangos, lembrados em monumentos e no prêmio do próprio festival, não só foram retirados do Plano Piloto, como foram afastados a quilômetros de distância, sem qualquer estrutura, para formarem as cidades-satélites, como Ceilândia. Ou seja, as funcionalidades dos prédios da Esplanada contrastam com a cidade disfuncional em que Brasília se transformou.
Memórias e delírios
O curta-documentário paranaense A que Deve a Honra da Ilustre Visita Este Simples Marquês? trouxe a cativante figura de Max Conradt Jr., um colecionador inveterado. Os diretores Rafael Urban e Terence Keller o conheceram na saída de um festival e ficaram curiosos com aquele senhor que segurava uma série de pôsteres de filmes da década de 1970.
Descobriram assim um personagem único e passaram a visitá-lo em sua casa, onde a equipe era sempre recebida com a frase – ou variações – que dá título ao curta. Entre suas inúmeras coleções de livros, revistas e quadros, Max conta histórias da suas convivência com pessoas ilustres da cultura do Paraná, junto com revelações sobre o seu próprio passado, sempre com grande eloquência e carisma. Tudo isso, em uma fotografia cujos enquadramentos colocam o colecionador na sua imensidão de itens colecionados, ou na falta deles, ressaltando o valor da memória, presente não só nos objetos, mas nas pessoas.
A animação Ed., do gaúcho Gabriel Garcia, também toma como base as memórias de um coelho, no momento em que ele começa a repensar sua própria vida. Aos poucos, o espectador, assiste o que antecedeu àquele momento e outros acontecimentos do passado de Ed. É um curta que se apropria de gêneros norte-americanos, como o de gângsters, e chama mais atenção pelas técnicas utilizadas do que pelo roteiro.
O outro curta apresentado ontem foi Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar, um delírio de Felipe Bragança e Helvécio Marins Jr. sobre a relação Portugal-Brasil e a crença lusitana de que o país tupiniquim é um paraíso, em vários aspectos. O filme vale pela discussão levantada sobre a crise da economia portuguesa e a defesa dos povos indígenas brasileiros, mas não alcança voos maiores que isso.
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