Sinceridade brutal e comovente marca documentários sobre perdas
- Por Rodrigo Zavala, de Recife
- 29/04/2014
- Tempo de leitura 2 minutos
E Agora? Lembra-me (foto), do português
Joaquim Pinto, e Tubarão, do pernambucano Leo Tabosa. Sensíveis, apesar de sua sinceridade brutal, o longa e o curta, respecticamente, combinaram-se na terceira noite de projeções do festival com personagens que falam de memórias, perdas e, mais do que isso, do próprio sentido de estarem vivos.
O grande destaque, sem dúvida, foi a produção portuguesa:
um vídeo-diário do cineasta, produtor e engenheiro de som, Joaquim Pinto. Conhecido por trabalhar com importantes realizadores europeus (Manuel de Oliveira, Werner Schroeter, Alain Tanner ) e sua longeva filmografia (com mais de 60 títulos), ele revela sem qualquer reserva sua luta contra a hepatite C e o vírus da AIDS.
Durante quase três horas de filme, o cineasta intercala cenas de seu cotidiano (mora no interior da Portugal com o companheiro Nuno), suas viagens à Espanha para receber os medicamentos do tratamento do qual é cobaia, memórias de sua vida e imagens de produções das quais fez parte. Uma montagem acompanhada pelo depoimento em primeira pessoa, ora afetado por efeitos dos remédios, ora pela emoção que aflora em determinados temas.
Poderia ser extenuante se Joaquim Pinto não fosse tão iluminado e assertivo no que diz e, claro, competente na linguagem cinematográfica, que domina. Dialoga com o espectador, ao mesmo tempo em que o provoca a refletir sobre a condição humana, política e sociedade. Nas ondulações de humor do cineasta, vê-se não um doente, mas uma reflexão sobre a existência.
O filme compete na Mostra de Longas Metragens Documentários Internacionais.
Voyeur
Já na seleção de curtas-metragens nacionais, Tubarão, a princípio, causa certa estranheza. O personagem diz de início que não quer mostrar o rosto ou se identificar, fazendo com que a câmera nunca o focalize diretamente e seus depoimentos sejam dublados. Porém, a construção da narrativa criada por Tabosa compensa essas limitações.
Americano de nascença, o personagem anônimo e sexagenário
vive na capital pernambucana há décadas, cidade (e que transfere também ao país) com que mantém uma relação paradoxal entre amor e ódio. Reclama de caos brasileiro ao mesmo tempo em que diz não consegue viver sem ele. Solitário desde que seu companheiro morreu vítima do ataque de um tubarão na costa de Pernambuco, há mais de 20 anos, ele tem como passatempo gravar cenas de sexo casual entre homens em banheiros da cidade.
Livre de preconceitos, Tabosa apresenta, de forma equilibrada e sóbria, um personagem que fala honestamente o que pensa de seu passado e como
vivencia o próprio presente.
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