Docudrama sobre Chernobyl é destaque no FICA em Goiás
- Por Neusa Barbosa
- 19/08/2016
- Tempo de leitura 3 minutos

Goiás - No seu segundo dia (18-8), o FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – exibiu como principal atração o docudrama La Supplication (imagem acima), de Pol Cruchten (Luxemburgo), que recoloca as memórias dolorosas do desastre nuclear de Chernobyl, completando 30 anos este ano. O filme, aliás, faz sua estreia nacional aqui em Goiás.
O grande diferencial deste filme poderoso é a forma. Ao mesmo tempo que se apoia numa base documental, os depoimentos de vítimas e sobreviventes da tragédia, opta não por entrevistas e depoimentos e sim pelo livro Vozes de Chernobyl – Memórias de um Desastre Nuclear, da vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch, que já havia transformado esses relatos na matéria-prima de sua literatura.
Atores de diversas nacionalidades (russos, franceses) dão vida a esses depoimentos em cenários da Ucrânia que evocam o abandono e a desolação da antiga cidade em torno da usina, cuja população foi evacuada e vitimada por doenças decorrentes da exposição à radiação. Nesse formato, estas histórias ganham uma vida instantânea na pele dos atores, cujas vozes seduzem, hipnoticamente, o público a compartilhar de seus dramas. É um convite, ao mesmo tempo, de abrir o coração e indignar-se coletivamente, não permitindo que o sacrifício de tantos tenha sido em vão.
Índia e México
A forma original como a produção de Luxemburgo lida com a questão ambiental, no centro das preocupações deste festival – que completa 18 edições este ano – remete à diversidade como ela tem sido abordada por cineastas. Foi o caso do documentário mexicano Café (imagem ao lado), de Hatuey Viveros Lavielle, que insere uma família indígena Nahuati nas montanhas de Puebla num contexto que ultrapassa o meio ambiente, contemplando também a histórica discriminação à população nativa, sua luta por inserção social e reconhecimento e dificuldades familiares. Destaca-se o esforço de um rapaz, Jorge,para formar-se em direito, à custa de sacrifícios imensos de seus avós pobres, ainda mais porque seus pais morreram. A maneira como esta população indígena se relaciona com a natureza, portanto, está inserida num contexto maior, o que enriquece as leituras possíveis a partir da obra.
Veio da Índia outro documentário, Phum Shang, de Haoban Paban Kumar, denunciando a expulsão de uma comunidade de pescadores radicada em torno do lago Loktak, no estado de Manipur, sob o pretexto de sua despoluição. Os próprios pescadores relatam suas histórias de resistência e luta contra este desalojamento, iniciado em 2011.
Os três curtas da mostra competitiva neste dia giraram em torno dos contrastes urbanos: o cearense Fort Acquario, de Pedro Diógenes, o goiano Leblon Marista, de Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista (um paralelo entre dois bairros de elite, um no Rio, outro em Goiânia, ironizando o marketing de um lançamento imobiliário), e a animação paulista Edifício Tatuapé Mahal, de Carolina Markowicz e Fernanda Salloum, uma divertida fantasia social em torno de maquetes que conta com a voz do ator argentino Daniel Hendler na narração.
Foto - La Supplication: Jerzy Palacz
