Final de semana com tempero latino e libelo antirracista no Rio
- Por Neusa Barbosa
- 06/10/2017
- Tempo de leitura 8 minutos

Veja alguns destaques do primeiro final de semana do Festival do Rio: atrações latino-americanas premiadas, caso do cubano Santa & Andrés
e do argentino Ninguém está olhando, além do drama Detroit em Rebelião, em que a premiada diretora Kathryn Bigelow disseca a repressão criminosa da polícia daquela cidade durante rebeliões da população negra em 1967.
Santa & Andrés
A polarização política é o grande tema do drama cubano de Carlos Lechuga, que coloca frente a frente, em 1983, duas pessoas em campos opostos – uma ortodoxa militante do regime comunista, a camponesa Santa (Lola Amores, prêmio de melhor atriz no Cine Ceará), e um escritor dissidente e homossexual, Andrés (Eduardo Martínez).
Apesar de situado há mais de 30 anos atrás, trata-se de um enredo perfeitamente atual, não só em Cuba, como no Brasil e outros países do mundo. Este é o principal apelo do filme, o que não escapou a setores duros do regime cubano, que trabalharam nos bastidores para impedir a exibição do filme no Festival de Havana, no ano passado. Até agora, o filme circulou em cerca de 40 festivais pelo mundo e ainda não foi exibido em seu próprio país.
A polêmica em torno das violações de direitos humanos cometidas contra dissidentes mostra o quanto o assunto está à flor da pele neste momento em que Cuba, ainda mais depois da morte de Fidel Castro, em novembro, está discutindo mudanças estruturais na sociedade formada a partir da Revolução de 1959.
O filme centra-se numa situação bem particular, quando Andrès, que já passou oito anos preso por conta do teor tido como subversivo de livros que pretendia publicar, é colocado sob vigilância domiciliar durante um congresso que traz observadores internacionais a Cuba. A ideia é impedi-lo de procurar a imprensa estrangeira e denunciar excessos do regime, como já fez no passado.
Sua guardiã é Santa, fiel soldada do governo, que diariamente sobe uma ladeira íngreme, carregando a própria cadeira para exercer sua vigilância do escritor, que vive num sítio afastado e extremamente despojado. A história se estrutura num jogo de observação mútua, que desencadeia um processo de transformação de Santa.
Por conta dessa opção, a personagem feminina faz um arco mais complexo, já que se abre para realidades que desconhecia. Enquanto isso, Andrés mantém-se na defensiva, dissimulando pensamentos e atitudes, até que recebe uma cabal prova de confiança de sua vigia.
Sábado (7), Museu da República, 18h.
Quinta (12), Estação Net Rio 5, 15h20
Detroit em Rebelião
Única mulher vencedora do Oscar de direção (em 2008, por Guerra ao Terror), Kathryn Bigelow tem particular predileção por períodos conturbados da história de seu país. Foi assim em Guerra ao Terror e A hora mais escura, expondo as entranhas da campanha dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Novamente o faz em Detroit em Rebelião, desta vez explorando as cicatrizes mal curadas da drástica repressão a uma rebelião de fundo racial na cidade norte-americana em 1967.
Nas sequências iniciais, em animação, procura-se resumir a situação de desigualdade e pobreza que criava um caldo de exclusão e violência nos bairros negros de Detroit.
A efervescência desta situação crônica encontrou um estopím na repressão a uma festa privada que a polícia, mais uma vez, recorreu à violência – ainda que o pretexto para a proibição fosse apenas que o local, um clube privado de portas fechadas, não tinha licença para vender bebidas. Terminando em pancadaria e diversas prisões, o incidente foi seguido por ferozes distúrbios de rua, que se prolongaram por vários dias, transformando vários bairros negros da cidade em praças de guerra, com saques a lojas, depredação de patrimônio, carros blindados patrulhando as ruas e toque de recolher.
Gastando a parte inicial do filme a apresentar este contexto, aos poucos a diretora vai individualizando os personagens do episódio que vai galvanizar sua história, no motel Algiers. Invadindo o local em busca de um atirador – na verdade, uma arma de brinquedo -, policiais da força estadual e da Guarda Nacional colocam alguns homens negros e duas moças brancas no centro de uma verdadeira noite de terror, da qual alguns não escapariam com vida. O julgamento dos policiais, especialmente, remete à impunidade de outros envolvidos em recentes mortes de negros desarmados, como Michael Brown, em Ferguson, e Tamir Rice, em Cleveland.
Sábado (7), Estação Net Ipanema 2, 21h15
Domingo (8), Roxy 1, 21h.
Ninguém está olhando
Coprodução entre Argentina, Brasil e Colômbia, o drama
Ninguém está olhando, da diretora Julia Solomonoff, grande vencedor do Cine Ceará, incorpora muitos temas no seu enredo, a partir da atormentada jornada existencial de Nico (Guillermo Pfening). Ator argentino que vinha tendo sucesso numa série de TV,
Rivales, ele decidiu abandonar tudo, mudando-se para Nova York, especialmente para livrar-se de uma relação amorosa opressiva com seu produtor, Martín (Rafael Ferro).
Ninguém está olhando, da diretora Julia Solomonoff, grande vencedor do Cine Ceará, incorpora muitos temas no seu enredo, a partir da atormentada jornada existencial de Nico (Guillermo Pfening). Ator argentino que vinha tendo sucesso numa série de TV,
Rivales, ele decidiu abandonar tudo, mudando-se para Nova York, especialmente para livrar-se de uma relação amorosa opressiva com seu produtor, Martín (Rafael Ferro).
Nesse trecho da história filmada em Nova York é que ocorrem as sequências mais interessantes, voltadas a uma quebra de expectativas ligadas a padrões sociais. Por exemplo, Nico, por ser homem, intriga um grupo de babás latinas que se reúnem num parque, quando começa a cuidar de um bebê, filho de uma amiga. Ele também desafia o estereótipo quando vai fazer um teste para um papel de latino e é recusado preliminarmente apenas por seu biótipo não corresponder ao esperado, por ser loiro.
Nessa luta de Nico para simplesmente sobreviver numa cidade competitiva, longe de suas raízes, com dificuldades para encontrar trabalho na própria área – um filme que ele ia fazer é sempre adiado -, ele encara um desafio aos próprios limites, resistindo à tentação de voltar, já que Martín o assedia continuamente à distância.
Evidentemente, quer-se abordar várias questões, envolvendo choques culturais, identidade de gênero, necessidades de afirmação e sobrevivência. Guillermo Pfening
- que iniciou sua carreira cinematográfica com
Coração Iluminado, de Hector Babenco – mostra-se um intérprete afinado a um vendaval de emoções viscerais e é o grande trunfo de um filme apoiado num roteiro que aponta inúmeras discussões.
- que iniciou sua carreira cinematográfica com
Coração Iluminado, de Hector Babenco – mostra-se um intérprete afinado a um vendaval de emoções viscerais e é o grande trunfo de um filme apoiado num roteiro que aponta inúmeras discussões.
Domingo (8), Kinoplex São Luiz 2, 21h15
Segunda (9), Reserva Cultura Niteroi 4, 17h.
Terça (10), Cinépolis Lagoon 2, 15h50.
Quarta (11), Estação Net Ipanema 1, 14h.
Domingo (15), Museu da República, 20h.
Hema Hema – cante para mim enquanto espero
Assistir a um filme de um país tão distante da realidade brasileira, como este raríssimo filme do Butão (em coprodução com Hong Kong), é sempre próximo de uma experiência antropológica. Especialmente por uma história que evoca um universo fantástico, como neste caso. O enredo acompanha a aventura de um camponês que se embrenha num bosque, levando consigo uma máscara e uma flauta. Depois de cobrir seu rosto com a máscara, ele usa a flauta para atrair o que realmente o levou até ali: outros homens mascarados, integrantes de uma espécie de sociedade secreta.
Depois disso, o homem é introduzido numa comunidade oculta nas montanhas, que se dedica a uma série de rituais bem específicos, envolvendo uma narrativa cheia de episódios fantásticos e também cantos, danças, tambores. Há regras muito rígidas: todos devem usar as máscaras o tempo todo e em hipótese alguma podem deixar o local antes que chegue um dia sem lua.
Nesta comunidade, há homens e mulheres que se seduzem – por ali, o sexo acontece livremente. Aparentemente, todos ali querem passar um tempo longe da vida convencional, mas não se trata de uma meditação, propriamente. Há uma espécie de suspensão das regras e leis da vida lá fora. E crimes acontecem, como um estupro e um assassinato.
Um paralelo, no começo e no final do filme, remete a um país moderno, mostrando uma rave – e uma personagem ali tem ligação direta com acontecimentos havidos na floresta. Mas, no geral, o filme é um tanto cifrado, de um simbolismo desafiador.
Sábado (7), Reserva Cultural Niteroi 2, 13h50.
Sábado (14), Estação Net Rio 5, 23h30.
Domingo (15), Estação Net Rio 4, 15h50.
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