Paul Vecchiali e o cinema dos afetos como forma de resistência política
- Por Alysson Oliveira
- 29/10/2017
- Tempo de leitura 16 minutos

Num mundo tão cínico e cada vez mais reacionário como o do presente, fazer filmes sobre as relações amorosas sinceras se torna uma manifestação política. Assim é o cinema do francês Paul Vecchiali, ganhador do Prêmio Leon Cakoff, cuja obra ganhou uma retrospectiva na Mostra. O diretor está em São Paulo acompanhando o evento e participando de diversos debates com o público. “Eu sou um cineasta engajado, mas não militante”, disse em entrevista ao Cineweb. “Quando os problemas sociais se tornam gritantes e é preciso fazer algo, eu tomo partido”.

Foi assim, em 1988, quando realizou Uma vez mais, primeiro filme francês, segundo ele, a abordar a AIDS, na época em que essa ainda era um grande mistério. “O filme nasceu de uma grande revolta minha contra uma posição do governo francês, quando Charles Pasqua [ministro do Interior do governo de Jacques Chirac] fez uma declaração homofóbica”.
Na época, o diretor conta, o longa não fez sucesso, nem com a comunidade gay. “Foi muito mal recebido, e só foi redescoberto em Cannes alguns anos atrás, e recebeu 20 minutos de aplausos”, conta orgulhoso. Para ele, o filme era uma tentativa de desdramatizar a questão, dizer que o HIV, tal qual comenta um personagem, é um vírus apenas, e nenhum estigma deveria recair sobre seus portadores.

Seus filmes nascem dos mais variados motivos, da revolta a um sonho. Rosa La Rose, Garota de Programa (foto ao lado), por sua vez, nasceu de um sonho. “Sonhei com tudo, até com os atores que fariam os personagens, menos a protagonista. Acordei e escrevi o roteiro em uma manhã. No outro dia um amigo mostrou-me a foto da atriz Marianne Basler. Era ela! Dois dias depois assinávamos o contrato”. As filmagens, no entanto, levaram um pouco de tempo para acontecer. “Cheguei a fazer um filme para a televisão [À titre posthume], também com Marianne, até conseguir os fundos.”
Seus métodos de filmagem – assim como o que se vê na tela –, conta Vecchiali, são peculiares. “Eu peço para os atores aprenderem suas falas sem pensar em atuação. Passamos uns 2 meses nesse processo. Antes de filmar, fazemos leituras ainda sem pensar na atuação. E deixo o elenco livre para mudar o texto, se apropriar dos diálogos. Só depois vamos ensaiar e pensar como os personagens serão representados. Mas, no set, deixo os atores e atrizes livres para fazer como quiserem. Isso traz um frescor para a cena”.

Se as interpretações, às vezes pouco naturalistas, causam certo estranhamento no cinema de Vecchiali, as músicas não deixam por menos. “Eu amo músicas clássicas e canções contemporâneas. E, para os filmes, tenho uma parceria com o letrista Roland Vincent em várias obras. Pensamos na trilha antes mesmo do roteiro”. Um dos frutos da dupla é a comédia erótica A Chantagem (foto ao lado), em que as canções aparecem em momentos inesperados, como numa orgia. “Para criar as canções, Vincent e eu não falamos em roteiro, mas pensamos em uma ambientação, e como a música pode ajudar”.
Os gêneros cinematográficos também são outra apropriação a fim de causar estranhamento na obra de Vecchiali. O diretor subverte as expectativas e gramática cinematográfica para criar algo novo. O próprio Uma vez mais é uma tragédia em forma de comédia musical. O Estrangulador começa como um suspense para se transformar numa fantasia. Seu mais novo trabalho, Os 7 Desertores, que faz sua estreia mundial na Mostra, é parte manifesto antibélico, parte filme fantástico. “Eu gosto de contrariar as possibilidades. Quero transformar o que parece uma fórmula pronta, não gosto de coisas homogêneas”. E avisa que ainda pretende fazer um western e uma comédia inteiramente musical.
Com 87 anos de idade, completados em abril, Vecchiali tem um hiato de 6 anos em sua carreira, que começou em 1961 e conta com mais de 50 filmes, entre longas e curtas, como diretor – a Mostra apresenta 13 deles. “Fiquei sem filmar entre 1998 e 2002”, até que houve uma retrospectiva na Cinemateca Francesa, e a atriz Danielle Darrieux, que morreu na semana passada, o intimou: “Nem pense em parar!”, relembra ele com carinho. Ela protagonizou seu No alto das escadas, como uma viúva de um colaborador, que volta à sua cidade décadas depois para se vingar daqueles que denunciaram seu marido.
Depois dessa retrospectiva, Vecchiali realizou À vot’bon coeur, no qual protagonizou como um cineasta chamado Paul Vecchiali que matava as 35 pessoas que recusaram a financiar um filme seu. “Era uma comédia. Ninguém ficou ofendido, nem com medo de mim, até porque o personagem morria ao final, da mesma maneira como Jean-Paul Belmondo em Acossado”, diverte-se. Seu personagem homônimo morria, mas Vecchiali, o verdadeiro, não pensa sequer em abandonar o cinema.
UMA VEZ MAIS e o curta TRÊS PALAVRAS DE PASSAGEM
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 29/10/17 - 22:10 - Sessão: 1072
OS 7 DESERTORES
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 29/10/17 - 18:10
RÉQUIEM PARA UMA MULHER
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP -29/10/17 - 19:00
PLAYARTE MARABÁ - SALA 3 - 31/10/17 - 18:15
NO ALTO DAS ESCADAS
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 30/10/17 - 13:30
LE CAFÉ DES JULES
PLAYARTE MARABÁ - SALA 3 - 31/10/17 - 20:45
NOITES BRANCAS NO PÍER
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 31/10/17 - 21:40
É O AMOR
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4- 01/11/17 - 15:40
O IGNORANTE
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 01/11/17 - 15:15

Primogênito

Cadeiras Brancas
29/10 - 19:50
01/11 - 13:30

Outrage Coda
(Rodrigo Zavala)
- 13:30

Pela janela

A telenovela errante
No começo dos anos de 1990, quando o Chile estava saindo de uma ditadura militar que durou 17 anos, Raoul Ruiz (chileno radicado na França) rodou um filme chamado A telenovela errante, mas apenas agora, seis anos após sua morte, sua viúva, a diretora e montadora Valeria Sarmiento, conseguiu concluir o trabalho. E mesmo com esse intervalo entre as filmagens e a finalização, o longa é atual e preciso em seu retrato do país e da América Latina.
- 29/10/17 - 22:20
SALA 3 -
30/10/17 - 22:10

Django
Django não que colaborar com os alemães e há quem tema que sua ida à Alemanha possa ser uma armadilha. A poucos dias da viagem, sua amante, Louise (Cécile de France), o convence finalmente a fugir para a Suíça, com a ajuda da Resistência.
Relacionadas
Repescagem traz alguns destaques da Mostra
- 02/11/2017
41ª Mostra divulga suas premiações
- 02/11/2017
Uma Mostra com o coração cinéfilo
- 18/10/2017
