Cannes espera os prêmios embalada pelo drama turco "Ahlat Agaci"
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 19/05/2018
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes – Ahlat Agaci/The Wild Pear Tree, do turco Nuri Bilge Ceylan, encerrou com personalidade a competição cannoise nesta noite de sexta (18) – com força suficiente para se pensar que algum prêmio pode vir na direção deste cineasta de estilo sólido e envolvente, que aqui passou com Distante (2002), Climas (2006), Três macacos (2008), Era uma vez na Anatólia (2011) e Sono de Inverno, que lhe deu a Palma de Ouro em 2014. Os prêmios da seção principal serão conhecidos hoje (19) à noite.
Novamente, Ceylan compôs um incisivo mergulho num núcleo familiar, a partir da volta para casa de Sinan (Aydin Dogu Demirkol), numa cidadezinha do interior, depois da formatura na universidade. O retorno explode as contradições de uma família disfuncional, sofrendo as consequências do vício no jogo do pai, o professor Idris (Murat Cemcir).
Como sempre, a narrativa evolui com sutileza, revelando-se aos poucos através de um excelente trabalho de câmera (de Gökhan Tiryaki) e em diálogos profundos, explorando não só as vicissitudes familiares, como os dilemas de uma juventude que, mesmo dispondo de um diploma universitário, não encontra trabalho, muitas vezes tendo de engajar-se na polícia ou no exército por falta de opções. Neste sentido, o filme turco explora um dos temas que se repetiram neste festival, o retrato de novas gerações sem saída, que foram objeto também do competentíssimo russo Leto, de Kirill Srebrennikov, e, numa outra chave, do sul-coreano Burning, de Lee Chang-dong, todos eles fortíssimos candidatos à premiação principal.
O denso roteiro de Ahlat Agaci/The Wild Pear Tree, da autoria de Ceylan, Ebru Ceylan e Akin Aksu, comenta também as divisões de pensamento dentro da comunidade religiosa, num longo diálogo entre dois imans e o protagonista Sinan, numa longa sequência que os acompanha na descida de uma montanha, de intensa beleza visual, inclusive. É o tipo do filme de que se poderia falar muito, ainda mais que se estende ao longo de 3 horas e oito minutos – e é do tipo que se pode assistir muitas vezes para descobrir novas camadas. Os atores também são extraordinários, passíveis de lembrança para seus prêmios específicos.
Crianças em foco
Encerrando-se esta 71ª edição, nota-se que a seleção principal contemplou vários títulos que colocam a infância vulnerável em primeiro plano – como o libanês Capharnaüm, de Nadine Labaki; Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda; Yomeddine, de A. B. Shawky. Mas somente os dois primeiros teriam méritos para levar uma premiação de primeira linha. O egípcio Yomeddine é um filme correto e sincero, certamente com ressonância por sua origem, mas não está à altura dos demais.
Outros filmes de conteúdo social forte que também disputaram as melhores avaliações aqui nos últimos dias foram também o italiano Dogman, de Matteo Garrone, e o russo Ayka, de Sergey Dvortsevoy, ambos enfocando protagonistas frágeis diante de um contexto mafioso e violento. A atriz de Ayka, Samal Yeslyamova, também é uma forte aposta como atriz, além da bela polonesa Joanna Kulig, de Cold War, de Pawel Pawlikowski (que lembra a norte-americana Jessica Chastain), e da jovem sul-coreana Jeon Jong-seo, do belíssimo Burning, as protagonistas do incansável iraniano Jafar Panahi em Trois Visages e a chinesa Zhao Tao, de Ash is Purest White, outro belo filme da maturidade de seu marido, Jia Zhang-ke.
Entre os atores, o italiano Marcello Fonte, de Dogman, não seria nenhuma surpresa, além do pai e filho do drama turco Ahlat Agaci. Mas outra excelente lembrança seria John David Washington, magnético protagonista de BlacKkKlansman, a poderosa pancada política e estética de Spike Lee – este sim o maior merecedor da Palma desta edição, por sua síntese contundente do estado das coisas do mundo a partir de um resgate do passado recente.
O iraniano filmado na Espanha Todos lo Saben, de Asghar Farahdi, que abriu os trabalhos por aqui, tem atores igualmente poderosos em Javier Bardem e Penélope Cruz – mas é o tipo de melodrama que deve funcionar melhor junto ao público do que junto aos críticos. O que quer dizer que é bom, mas não memorável.
Quixote de Gilliam
O esperadíssimo The Man who Killed D. Quixote, de Terry Gilliam, será o filme de encerramento desta noite de premiação, depois de levar 25 anos para ser produzido, sofrido diversos percalços de produção, a morte de dois atores (Jean Rochefort e John Hurt) e a última dificuldade, uma tentativa de embargo por parte do português Paulo Branco (cujo mérito ainda deverá ser avaliado pela justiça).
Para a imprensa credenciada, houve uma única sessão, na tarde de sexta, numa sala pequena (Bazin), que foi disputadíssima mas deixou muita gente de fora. Já o filme mostrou sinais de toda essa turbulência de produção. A aventura deflagrada quando um cineasta que passou à publicidade (Adam Driver) reencontra o intérprete de D. Quixote que ele escalou, anos atrás, em seu filme de formatura (Jonathan Pryce), um ex-sapateiro que entrou na pele de seu personagem e nunca mais saiu, é um tanto excêntrica, para dizer o mínimo.
A maneira como se coloca o cineasta entrando na pele de Sancho Pança e vivendo peripécias descabeladas com seu Quixote, numa trama que inclui um mafioso russo, uma bela garota e um tipo de humor que às vezes parece um tanto pastelão, não atinge o tom de comédia pretendido. O filme entra na história do cinema, no entanto, como um dos de processo de produção mais confusos de todos os tempos. Terry Gilliam quase morre disso.
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