Histórias de família, de ruas e clássicos marcam a programação em Curitiba
- Por Neusa Barbosa, de Curitiba
- 08/06/2019
- Tempo de leitura 5 minutos
Curitiba -O
segundo dia da competição no Olhar de Cinema passou pela alta voltagem emocional de Casa, um documentário profundamente pessoal da diretora baiana Letícia Simões, revisitando suas relações familiares com a mãe e a avó.
Diretora de filmes intimistas, calcados na literatura - como O Chalé é uma Vida Batida de Vento e Chuva (2018) -, Letícia envereda com coragem neste entremeado de lembranças, rancores e afetos que perpassa suas ligações com a mãe, Heliana, que sofre de depressão e bipolaridade, e a avó, Carmelita. É um filme de momentos, explosões, conciliações, que percorre em ondas, como um fluxo de vida, mantendo sua vitalidade ao seguir estas conversas, não raro doídas, algumas exasperantes, tecendo o fio desta família toda feminina - os homens nunca são vistos, exceto em fotos, e constantemente mencionados nos relatos e cartas, material privilegiado para a construção desta narrativa.
O filme tem nova sessão hoje (8), às 14h15, no Cineplex Novo Batel
4.
Deserto existencial
Na mostra Olhares Clássicos, o grande destaque do dia foi A Longa Caminhada (1971), longa de estreia solo do diretor britânico Nicolas Roeg, que morreu em 2018. Também um experimentado diretor de fotografia, Roeg impõe um ritmo seguro a imagens poderosas de uma desértica vastidão interiorana da Austrália para situar este ambiente como cenário de uma jornada de sobrevivência e autodescoberta para três personagens: dois irmãos brancos ingleses (Jenny Agutter e o pequeno Luc Roeg, filho do diretor) e um adolescente nativo (David Gulpilil, em sua estreia no cinema, que depois faria Crocodilo Dundee e Geração Roubada).
A própria impossibilidade de comunicação verbal entre os dois ingleses - que perderam o pai em circunstâncias trágicas - e o aborígene permite à história fazer uma afirmação sobre o colonialismo, além de construir-se em torno de situações visuais, interações com a natureza e muitos olhares construindo os climas que se sucedem em sua convivência, permeada de tensões sexuais entre a garota inglesa e o adolescente australiano.
É impressionante a potência do filme de Roeg para refletir sobre a violência do processo dito civilizatório, a destruição da natureza em nome do progresso e a renúncia a uma primitiva vida idílica em favor de uma construção de vida social que implica em profundas repressões.
Muito instigante, o filme tem nova exibição hoje (8), às 18h45, no Cineplex Novo Batel 4.
Vozes da Índia
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Revendo Ruiz
Dentro da retrospectiva parcial dedicada ao chileno Raul Ruiz, uma atração foi A Vocação Suspensa (1977). Inspira-se livremente no romance do francês Pierre Klossovski, retratando os dilemas de um abade para produzir um relatório sobre situações controversas dentro de um convento. O relato, no entanto, é dividido em dois filmes dentro do filme, um em preto-e-branco, outro colorido, explorando redes de intrigas e poder dentro da Igreja que remetem a movimentos políticos.
Como sempre nos filmes de Ruiz, invoca-se a criação de um universo paralelo, em que a fantasia e o absurdo se infiltram sem rodeios, com um sentido de humor anárquico que não raro lembra Luis Buñuel - que, não por acaso, dedicou alguns de seus maiores petardos cinematográficos também à Igreja Católica. Ao final desta jornada, o espectador sente-se, não raro, com a inquietante sensação de que trafegou por um país desconhecido e não domina o todo o sentido das paisagens que descortinou.
