22/07/2026

Filmes brasileiros no Ceará discutem crise e desmonte no País

Fortaleza
- Exibidos nesta segunda (2), os dois concorrentes brasileiros na competição ibero-americana no Cine Ceará tomaram, cada um a seu modo, o pulso do turbulento momento atual do País.

Cada comentário do que acontece hoje no Brasil é também um movimento de reflexão, de resistência. Já exibido em festivais internacionais, como Biarritz e N Dok de Munique, tendo ontem sua primeira sessão em território nacional,o documentário
Ressaca, dos diretores Vincent Rimbaux e Patrizia Landi (foto ao lado), radiografa, em preto-e-branco, a lenta asfixia a que vem sendo submetido o Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Os diretores - ele, um francês radicado no Rio, ela, brasileira - elegem três personagens principais., os bailarinos Márcia Jacqueline e Filipe, e o porteiro João, para materializar as dificuldades de quem, como eles, sofre as consequências do salário atrasado há meses.

Ressaca aposta num cinema direto, que se cola à pele e à voz dos personagens, deixando que sua situação fale por eles. Não há discurso melhor para retratar a resistência frente ao descaso das autoridades estaduais do Rio diante de uma instituição como aquele teatro, que completou 80 anos e está ameaçado de tornar-se apenas um local para ser alugado a eventos - o atual governador Witzel o alugou para o concurso Miss Universo - , abrindo mão de produções próprias e forçando seus corpos estáveis a permanecerem inativos ou procurarem outros trabalhos.

Queda vertiginosa

Radicado no Brasil desde 2003, o diretor Rimbaux revelou na coletiva que fazer o filme foi uma forma encontrada para refletir sobre o que viu nestes últimos anos. “Cheguei bem no início da era Lula. Vi o país melhorar, sediar grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e cair. Assisti a essa crise, que nunca imaginei que fosse ser tão rápida e violenta. Quis fazer o filme até porque tive dúvidas se queria continuar no País, se queria criar meus filhos aqui”, comentou.

Patrizia Landi, por sua vez, completou que a crise do Municipal, acompanhada desde 2017, “era o prenúncio do tsunami que estamos vendo agora. Depois de um momento de grande euforia, a gente está vendo este grande colapso”.

Sem recorrer a entrevistas (que foram feitas, mas ficaram de fora da montagem final), Ressaca é estruturado em torno de seus personagens, opção que, segundo Rimbaux, remete também a um sentido artístico: “São como atos de uma ópera, um espetáculo vivo”. Além disso, mostrar estas pessoas, que inventam suas formas de reação, guarda uma ponta de esperança. “Apesar desta ideia toda de queda, de que o País está caindo, de até onde vai cair, há esperança, porque as pessoas estão fazendo alguma coisa”.

Fim de mundo pop

Veterano mais respeitado do cinema cearense, Rosemberg Cariry [na foto com os atores Everaldo Pontes e Majô Castro] apresentou o esperado e quase lendário Notícias do Fim do Mundo, um projeto que levou 9 anos em sua produção. Começou com um edital do estado para telefilme - que foi feito - em 2010, mas, devido à inquietação do diretor em aprofundar seus temas, teve desdobramentos, filmados ao longo deste período, com diversas montagens e revisões.

Misturando gêneros, Notícias do Fim do Mundo tem um núcleo assumido de filme de ação. Ambientado num país fictício, Jenipapuaçu, mostra como um grupo de Reisado da Reserva dos ìndios Jandoim, liderado por mestre Jacuaúna (Everaldo Pontes), numa cerimônia em homenagem ao embaixador (João Paulo Soares), do belicista país vizinho, Golem, sequestra este embaixador, promovendo uma viagem frenética com ele, dentro de um ônibus. Este ônibus
será perseguido por tropas altamente armadas, com sequências remetendo a videogame, mas sem faltar os toques filosófico-históricos inevitáveis na obra de um cineasta tão culto e ilustrado como Rosemberg.

Todos os elementos desta salada visual e de referências estão devidamente diluídos numa montagem acelerada (do próprio Cariry) e embebidos numa trilha sonora pop, da autoria do jovem compositor João Victor Barroso. Esta abordagem estética, numa obra sucinta - apenas 70 minutos - surpreendeu muitos, especialmente os familiarizados com os trabalhos normalmente caudalosas de Rosemberg, diretor de filmes como Os Pobres Diabos (2013) e Corisco & Dadá (1996).

Na coletiva do filme, Rosemberg [na foto com a atriz Majô
Castro e a produtora Bárbara Cariry] explicou que sua disposição de continuar todos estes anos no projeto, que foi custeado com recursos próprios, veio de uma “tentativa de absorver as mudanças do País, O filme era para mim o lugar para esta reflexão, a minha janela”.

Um dos desafios foi justamente o fato de que a fantasia da história, que começou com um conto escrito por Rosemberg na década de 1990, foi sendo alcançada pela realidade. “Aquilo que parecia absurdo na sua distopia acabou se tornando real. E a ficção se tornou menor”.

Assumindo que o País “entrou num processo de psicose e falência”, o diretor define seu filme como “um grito angustiado, mas que não admite o fracasso, mesmo com todas as contradições”. No desmonte, na dissolução, na fragmentação, Rosemberg enxerga também os elementos do “signo do eterno retorno, da reconstrução civilizatória”.

Ele recorre o pensador cubano Lezama Lima para explicar também porque define seu filme como “transbarroco” : “É um barroco não como estilo, mas como espírito, por mostrar nossa tragédia fundadora, porque nos construímos sobre escombros. Aí, tudo é possível, tudo cabe, o claro e o escuro, o sagrado e o profano. Essa tragédia de nos erigirmos sobre as ruínas da modernidade e mesmo do iluminismo, ela não nos paralisa. Nossa tarefa é reconstruir sobre as ruínas”. Essa imagem remete também a outra referência, o anjo da História de Walter Benjamin. E há um anjo tropical atravessando as imagens deste filme instigante.