“O último romance de Balzac” leva a Gramado a polêmica sobre psicografia
- Por Neusa Barbosa
- 09/08/2010
- Tempo de leitura 4 minutos
A atual onda espiritualista do cinema brasileiro chegou ao Festival de Gramado nesta
noite de domingo (8), através do concorrente “O último romance de Balzac”, de
Geraldo Sarno. Misto de documentário e ficção, o filme baseia-se em estudos sobre
uma suposta obra psicografada do romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850), o
celebrado autor de “A comédia humana” e “As ilusões perdidas”.
noite de domingo (8), através do concorrente “O último romance de Balzac”, de
Geraldo Sarno. Misto de documentário e ficção, o filme baseia-se em estudos sobre
uma suposta obra psicografada do romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850), o
celebrado autor de “A comédia humana” e “As ilusões perdidas”.
Dois personagens principais ocupam a parte documental: o médico e médium
Waldo Vieira, que psicografou em 1965 um suposto romance inédito de Balzac,
intitulado “Cristo espera por ti”; e o psicólogo Osmar Ramos Filho, que analisa outro
romance, este escrito em vida por Balzac, “A pele de Onagro” (1831), encontrando
pontos de contato entre seu estilo e temas com a obra psicografada que, segundo ele,
comprovariam a autoria do escritor nesta última.
Waldo Vieira, que psicografou em 1965 um suposto romance inédito de Balzac,
intitulado “Cristo espera por ti”; e o psicólogo Osmar Ramos Filho, que analisa outro
romance, este escrito em vida por Balzac, “A pele de Onagro” (1831), encontrando
pontos de contato entre seu estilo e temas com a obra psicografada que, segundo ele,
comprovariam a autoria do escritor nesta última.
A parte ficcional encena justamente trechos de “A pele de Onagro”, que são filmados
dentro da estética do cinema mudo, em preto-e-branco, com intertítulos. Neste
segmento, o protagonista, Raphael de Valentin, um artista obcecado pelo suicídio, é
vivido pelo músico e cantor José Paes Lira, o Lirinha do extinto grupo Cordel do Fogo
Encantado.
dentro da estética do cinema mudo, em preto-e-branco, com intertítulos. Neste
segmento, o protagonista, Raphael de Valentin, um artista obcecado pelo suicídio, é
vivido pelo músico e cantor José Paes Lira, o Lirinha do extinto grupo Cordel do Fogo
Encantado.
No debate desta tarde de segunda, o diretor Geraldo Sarno (de “Viramundo” e “Tudo
isto me parece um sonho”), rejeitou a classificação de seu filme como religioso. “Não
sou espírita. A visão religiosa que há no filme é de Waldo Vieira, que respeito
imensamente”. Indagado porque não mencionou que Vieira deixou o espiritismo pouco
depois de ter lançado a obra psicografada “Cristo espera por ti”, Sarno afirmou que
isto “ está fora do universo do filme”.
isto me parece um sonho”), rejeitou a classificação de seu filme como religioso. “Não
sou espírita. A visão religiosa que há no filme é de Waldo Vieira, que respeito
imensamente”. Indagado porque não mencionou que Vieira deixou o espiritismo pouco
depois de ter lançado a obra psicografada “Cristo espera por ti”, Sarno afirmou que
isto “ está fora do universo do filme”.
Outra questão sobre a ausência de especialistas não-espíritas, especialmente literários,
em “O último romance de Balzac”, foi respondida pelo próprio Osmar Ramos Filho.
Ele contou ter procurado o linguista Paulo Rónai, grande estudioso de Balzac, e este
rejeitou a origem da obra psicografada. Rónai, de acordo com Ramos, teria dito: “Eu
estaria louco se admitisse que Balzac escreveu qualquer coisa depois de 1850, ano de
sua morte”.
em “O último romance de Balzac”, foi respondida pelo próprio Osmar Ramos Filho.
Ele contou ter procurado o linguista Paulo Rónai, grande estudioso de Balzac, e este
rejeitou a origem da obra psicografada. Rónai, de acordo com Ramos, teria dito: “Eu
estaria louco se admitisse que Balzac escreveu qualquer coisa depois de 1850, ano de
sua morte”.
A onda espiritualista que atualmente varre o cinema nacional, com o sucesso de "Chico Xavier", voltará à tona no festival com a exibição de outros dois documentários que passam pela temática: o
concorrente
"O Contestado - Restos Mortais", de Sylvio Back, que alinha depoimentos de historiadores a médiuns que incorporariam personagens desta que foi uma das mais sangrentas guerras da história do Brasil; e, fora da competição, "As
cartas psicografadas de Chico Xavier", de Cristiana Grumbach, que concorreu no recente Festival de Paulínia.
concorrente
"O Contestado - Restos Mortais", de Sylvio Back, que alinha depoimentos de historiadores a médiuns que incorporariam personagens desta que foi uma das mais sangrentas guerras da história do Brasil; e, fora da competição, "As
cartas psicografadas de Chico Xavier", de Cristiana Grumbach, que concorreu no recente Festival de Paulínia.
Despojamento argentino
O concorrente da competição latina de ontem, “La vieja de atrás”, trouxe novamente a
Gramado o diretor argentino Pablo José Meza, que aqui concorreu em 2005 com seu
filme de estreia, “Buenos Aires 100 km” – que, segundo o coprodutor brasileiro de “La
vieja atrás”, Beto Rodrigues, ao ser lançado no Brasil foi visto por 25.000 espectadores.
Gramado o diretor argentino Pablo José Meza, que aqui concorreu em 2005 com seu
filme de estreia, “Buenos Aires 100 km” – que, segundo o coprodutor brasileiro de “La
vieja atrás”, Beto Rodrigues, ao ser lançado no Brasil foi visto por 25.000 espectadores.
Em “La vieja atrás”, Meza retorna a uma dramaturgia seca e despojada, como em
seu primeiro filme, e que lembra o estilo de sua compatriota, Lucrecia Martel (“O
pântano”). Em cena, estão basicamente apenas dois personagens, a idosa Rosa
(Adriana Aizenberg, de “O Abraço Partido”), de 81 anos, e um jovem estudante
seu primeiro filme, e que lembra o estilo de sua compatriota, Lucrecia Martel (“O
pântano”). Em cena, estão basicamente apenas dois personagens, a idosa Rosa
(Adriana Aizenberg, de “O Abraço Partido”), de 81 anos, e um jovem estudante
de medicina (Martin Piroyansky) que, em determinado momento, passarão a
dividir o mesmo teto. A crise econômica, o desemprego, a falta de perspectivas
existenciais, tudo isso perpassa este relacionamento em que o diálogo é muito difícil.
dividir o mesmo teto. A crise econômica, o desemprego, a falta de perspectivas
existenciais, tudo isso perpassa este relacionamento em que o diálogo é muito difícil.
O cineasta argentino defendeu as parcerias de produção, como ocorreu, em seu filme,
entre Argentina e Brasil: “Geralmente, os produtores argentinos procuram coproduções
na Europa. Eu acho fundamental, no entanto, nos unirmos na América Latina. Vamos
fazer filmes mais nossos. Neste sentido, sou mais latino-americano do que argentino”.
entre Argentina e Brasil: “Geralmente, os produtores argentinos procuram coproduções
na Europa. Eu acho fundamental, no entanto, nos unirmos na América Latina. Vamos
fazer filmes mais nossos. Neste sentido, sou mais latino-americano do que argentino”.
Mostra panorâmica
Fora de competição, duas comédias foram sucesso de público no Palácio dos Festivais
no final de semana. Uma delas, a argentina “Dois irmãos”, de Daniel Burman (“O
Abraço Partido”), que retrata uma relação de amor e ódio, temperado por enorme
sentido de humor, entre Marcos (Antonio Gasalla) e Susana (Graciela Borges, de “O
pântano”). A outra, a brasileira “Elvis e Madona”, de Marcelo Laffitte, apresenta o
inusitado romance entre a lésbica Elvis (Simone Spoladore) e a travesti Madona (Igor
Cotrim). O filme brasileiro já circulou diversos festivais, inclusive internacionais, como
Tribeca, e Natal em 2009, onde levou seis prêmios, inclusive melhor filme e direção.
no final de semana. Uma delas, a argentina “Dois irmãos”, de Daniel Burman (“O
Abraço Partido”), que retrata uma relação de amor e ódio, temperado por enorme
sentido de humor, entre Marcos (Antonio Gasalla) e Susana (Graciela Borges, de “O
pântano”). A outra, a brasileira “Elvis e Madona”, de Marcelo Laffitte, apresenta o
inusitado romance entre a lésbica Elvis (Simone Spoladore) e a travesti Madona (Igor
Cotrim). O filme brasileiro já circulou diversos festivais, inclusive internacionais, como
Tribeca, e Natal em 2009, onde levou seis prêmios, inclusive melhor filme e direção.
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