A condição feminina inspira o intimista "A primeira morte de Joana"
- Por Neusa Barbosa
- 18/08/2021
- Tempo de leitura 4 minutos
Segundo longa da diretora gaúcha Cristiane Oliveira (Mulher do Pai), A primeira morte de Joana colocou em foco na competição brasileira em Gramado uma história intimista, fortemente enraizada na feminilidade, a partir da história da adolescente Joana (Letícia Kacperski).
Aos 13 anos, ela vivencia a morte de uma tia-avó, Rosa, com quem convivia de perto e cujo passado passa a intrigá-la pelo detalhe revelado de que a senhora nunca teria tido um namorado em toda a vida. Confrontada com o próprio despertar sexual e questões ligadas à vida amorosa de sua própria mãe divorciada e da avó viúva, a menina compartilha seus segredos e dúvidas com a melhor amiga, Carol (Isabela Bressane).
Estas figuras, em várias idades, permitem à história percorrer um arco do tempo da vida de um ponto de vista feminino, inserindo seus comportamentos no contexto de uma cidade pequena, uma comunidade de descendentes de alemães - tudo isso visto pelos olhos de Joana em pleno processo de descoberta e crescimento.
Exibido e premiado previamente em vários festivais internacionais, na Índia, EUA e na Europa, o filme ressoa também como um nuançado retrato da adolescência feminina, temperado com dramaticidade, humor e ternura, dialogando com As Duas Irenes, de Fábio Meira, outro filme feliz no mergulho da temática.
Não falta inclusive alguma ousadia ao abordar a homossexualidade e a sexualidade de mulheres mais velhas, normalizando-as de uma forma delicada, sincera. Por isso e muito mais, A Primeira Morte de Joana é um filme que merece ser visto.
Ciranda chilena
O entrelaçamento das vidas de três pessoas fornece o mote do drama chileno Gran Avenida, de Moisés Sepúlveda (Las Analfabetas), outra história de pessoas comuns.
Camilo (Iván Parra) é um pequeno empresário, casado com a dentista Jo (Paulina Giglio). Ele deseja ardentemente ser pai mas ela não - embora não o admita. Secretamente, ela toma pílula anticoncepcional, disfarçando-a na embalagem de um outro medicamento. Também escondido, ela estuda português, porque sonha mudar-se para o Brasil.
Ronald (Gabriel Cañas) é funcionário de um escritório contábil, mantendo uma rotina opaca e solitária. Divorciado, ele quer passar mais tempo com a filha, que vai espiar quando desce da perua escolar, à tarde, evidenciando um certo conflito com a ex-mulher.
Um incidente um tanto absurdo envolvendo Camilo e Jo - que foi sua colega no primário - muda a temperatura da história, que entra em outros rumos, também no caso de Ronald e da filha, evidenciando o engenho do roteiro, assinado por Sepúlveda e Michel Gajardo.
Uma cena emblemática envolve uma conversa entre Camilo e Jo, filmada a princípio à distância, depois aproximando a câmera de uma forma que permite entrar a meio plano na intimidade deste casal em pedaços - e da qual Jo emerge com a mais densa transformação do trio, no Rio de Janeiro.
Curtas
Eu não sou um robô, de Gabriela Lamas (RS), coloca em foco uma auto-confissão bastante divertida de uma jovem (a própria Gabriela), expondo seus sentimentos e perplexidades a uma atenta ouvinte - uma mosca (Maurílio Almeida), capaz de emitir telepaticamente seus pensamentos e comentários.
Centrado num conceito estético apurado, com fotografia em P&B e narrativa não-linear, Per Capita, de Lia Letícia (PE), escancara as angústias de um grupo de personagens urbanos, como uma mulher de meia-idade em crise de pânico num quarto e um trio de adolescentes depredando um automóvel e filmando seu ato.
Os curtas permanecem disponíveis na Globoplay até 21/8.
Na programação das mostras competitivas desta quarta (18/8), no Canal Brasil, a partir das 21h30, terão sessão única os longas Carro-Rei, de Renata Pinheiro, na competição brasileira, e o uruguaio La Teoria de los Vidrios Rotos, de Diego Fernández Pujol, na internacional. Antes deles, serão exibidos os curtas Aonde Vão os Pés, de Débora Zanatta (PR), e Memória de Quem (Não) Fui, de Thiago Kistenmacker (RJ), que estarão depois disponíveis pela Globoplay.
