21/07/2026

Primeira noite do Cine PE destaca energia do novo cinema nordestino

Duas amostras da energia do recente cinema nordestino ocuparam a primeira noite do Cine PE 2021, o documentário pernambucano Muribeca (na primeira foto o elenco, na segunda os diretors) e o policial baiano Receba!, ambos participantes da mostra competitiva e protagonizados por personagens populares.

Dirigido por Alcione Ferreira e Camilo Soares, Muribeca resgata o lado humano da incrível história deste conjunto habitacional de Jaboatão dos Guararapes, construído pelo extinto Banco Nacional da Habitação em 1982 e que se tornou um capítulo particularmente cruel do histórico descaso governamental com a habitação popular, bem como dos fenômenos da gentrificação e especulação imobiliária. Abalados por problemas estruturais, por deficiências inúmeras na edificação, os prédios do conjunto começaram a apresentar rachaduras, sendo finalmente condenados. A questão transformou-se numa longa e sofrida pendência judicial das cerca de 5.000 famílias afetadas com a Caixa Econômica Federal, a quem foi transferida a responsabilidade dos assuntos do BNH.

Resistência
O filme não se ocupa, senão nos letreiros do final, desta disputa judicial, optando por dar voz a diversos dos moradores que resistiram ao puro e simples apagamento do mapa da comunidade de Muribeca, que se tornou, ao longo dos anos, um lugar fantasma - mas não desprovido de sinais de vida.

Moradores que se negavam a desocupar suas casas falam à câmera, resgatando memórias de décadas de suas vidas, passadas entre os prédios e ruas de Muribeca, que por vários anos foi uma comunidade vivaz, ocupada por uma população diversa, de trabalhadores, comerciantes e artistas, chegando a ter uma rádio comunitária, um teatro, um banco e um Carnaval próprio. Como frisou a diretora Alcione Ferreira na coletiva de imprensa, “o conjunto, construído longe de tudo, se organizou e conseguiu uma autossuficiência”. Por essa ideia comunitária, ele se diferenciou, entre tantos outros conjuntos habitacionais construídos na região metropolitana de Recife.

Alcione e o outro diretor, Camilo Soares, que estudaram jornalismo e tinham experiência prévia em fotografia, conheciam Muribeca há muito tempo, inclusive personagens que aparecem no filme, como o desenhista Flavão e o poeta Miró. Na realização do documentário, levaram quatro anos, iniciando em 2017 uma pesquisa pautada pela urgência - já que, por decisão judicial, o conjunto seria demolido a qualquer momento, sendo seus moradores indenizados (o que ocorreu somente em 2020). Inclusive as imagens de demolição que aparecem no final foram feitas às pressas, quando foram avisados por um telefonema de que as retroescavadeiras já se achavam em ação. Imagens que os cineastas fizeram sob forte emoção, já que tinham se envolvido com a comunidade nestes anos de convivência e que denotam, nas palavras de Alcione, “a mão forte do Estado e um processo de silenciamento das periferias”.

Policial baiano
Sinal de que a nova geração de cineastas brasileiros cada vez mais se arrisca no cinema de gênero, o policial baiano Receba!, de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna, é uma declarada releitura divertida dos clichês do gênero com uma aposta na criação de um filme de apelo popular e sabor regional.

A trama começa com Amadeu (Daniel Farias), um ator pornô ameaçado por agiotas, junto com Gina (Edvana Carvalho), sua namorada. Por acaso, ele toma posse de uma maleta contendo drogas, cuja venda pode tornar-se seu passaporte para sair da situação. Mas o imbroglio somente se complica com o envolvimento de outros personagens, enquanto Amadeu procura vender a droga, sem que Gina saiba o que está acontecendo, criando uma esteira de mortes e reviravoltas pelo caminho.

Há piscadas de olho para referências, assumidas pelo codiretor Pedro Perazzo na coletiva de imprensa, do cinema dos irmãos Coen - sobretudo do acúmulo de desastres fatais visto em Fargo -, com um molho baiano que começa pelo título, uma irônica gíria local que equivale a “tome!”, quando muita coisa dá muito errado para alguém.

O roteiro, de Pedro Perazzo (corroteirista da série Irmãos Freitas), adapta A Guerra dos Bastardos, de Ana Paula Maia, mas, como ele mesmo assumiu na coletiva, toma bastantes liberdades em relação ao livro - que sequer se passa em Salvador, por exemplo.

O ótimo elenco, integrado por Edvana Carvalho, Evelin Buchegger (impagável como Lica, capanga de um chefão do submundo), Jackson Costa, Leandro Villa, Narcival Rubens e outros, é todo de Salvador, vários deles da cena teatral local. Essa experiência prévia permitiu um frutífero período de ensaios prévios, tendo a participação do diretor de fotografia baiano Mateus Rocha ( de Trabalhar Cansa) levado a um enxugamento vital dos diálogos, em proveito de cenas de alta potência visual: caso de uma briga dentro de um automóvel e do desabamento de um teto.

Destacando que procurou “uma cor local” que despisse Salvador dos tradicionais estereótipos ligados ao turismo e à publicidade, Perazzo sustenta que realizou um “policial de dia, solar”. É a mais pura verdade e isso dá uma identidade singular a um filme que tem vocação popular e certamente teria mais eco junto a plateias mais amplas e diversificadas.

Fotos: Neusa Barbosa