05/06/2026

Gramado premia "Noites Alienígenas" como melhor filme da 50a edição

Gramado - Com a premiação do longa acreano Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho - primeiro longa para cinema produzido no estado -, o 50o. Festival de Gramado concluiu esta sua histórica edição de aniversário contemplando a inclusão das periferias de todos os cantos do País e a diversidade. A produção venceu os Kikitos de melhor filme, ator (o estreante Gabriel Knoxx, que é rapper), atriz coadjuvante (Joana Gatis, que é também figurinista em Pernambuco), ator coadjuvante (Chico Díaz), além de melhor longa para o júri da crítica e uma menção honrosa para Adalino Reis, ator indígena.

Se foi contemplada a
energia inquieta de Noites Alienígenas, que retrata os dilemas de jovens da periferia de Rio Branco cuja vida é atravessada pelo narcotráfico mas também pela resistência das culturas ancestrais indígenas, também não se esqueceu de premiar o humanismo intimista de Marte Um, de Gabriel Martins, o concorrente mineiro que teve a sessão mais comovente do festival e saiu com os troféus de melhor roteiro, trilha musical (Daniel Simitan), melhor filme para o júri popular e um Especial do Júri por “trazer de volta o afeto” - nada mais justo para esta produção que delineia com tantas nuances as lutas de uma família negra e trabalhadora de Contagem (MG) contra as inúmeras contradições do Brasil atual.

Paulistas
Os dois longas paulistas também foram premiados. O drama A Mãe, de Cristiano Burlan, que acompanha o pesadelo de uma mãe (Marcélia Cartaxo), trabalhadora precária e moradora da periferia leste da capital, para descobrir o que ocorreu com seu filho adolescente (morto nas mãos da PM), levou os prêmios de melhor atriz, direção e desenho de som (Ricardo Zollmer). É o segundo Kikito de Marcélia, vencedora também em 2019, por Pacarrete.
Tinnitus, de Gregório Graziosi, conquistou merecidos prêmios técnicos: melhor fotografia (para o português Rui Poças), montagem (Eduardo Serrano) e direção de Arte (Carol Ozzi).
Já na modalidade documentário - competição iniciada este ano e que foi exibida pelo Canal Brasil - o vencedor foi Um Par para Chamar de Seu, de Kelly Cristina Spinelli, sobre mulheres maduras, como a mãe da própria diretora, que contratam personal dancers para acompanhá-las em suas noitadas em bailes de salão.

Outros prêmios
Entre os longas gaúchos, o grande vencedor foi o documentário 5 Casas, de Bruno Gularte Barreto, que retrata um doloroso resgate da história familiar do diretor, nascido na cidade de Don Pedrito. Dos curta brasileiros, o melhor foi o carioca Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli, também vencedor do Prêmio Canal Brasil, que retrata de maneira criativa, recorrendo a coreografias musicais, com passinho de funk, a saga precária dos entregadores de aplicativos.

Internacionais
Numa edição em que os filmes estrangeiros não tiveram tanto brilho quanto a seleção brasileira, foram premiados justamente os três melhores. O grande vencedor foi o uruguaio 9, de Nicolas Branca e Martin Barrenechea, que levou os Kikitos de melhor longa internacional, melhor ator (Enzo Vogrincic), além de melhor longa estrangeiro para a crítica. O filme retrata a crise existencial de um jovem e bem-sucedido jogador de futebol, que é dominado por um pai autoritário e mercenário.

O Kikito de melhor direção ficou para o argentino Néstor Mazzini, pelo drama Cuando Oscurece, que segue a viagem alucinada de um pai (César Troncoso) com sua filha pequena (Matilde Creimer Chiabrando), em fuga com ela depois de um divórcio conturbado.

O excelente suspense chileno Inmersión, do estreante Nicolas Postiglione, colheu os troféus de melhor roteiro e fotografia ao retratar o pesadelo em que se transforma a viagem de barco de um homem rico e distante (Alfredo Castro) com suas filhas quando se deparam com o naufrágio de um bote tripulado por indígenas pobres Mapuche.
O drama mexicano El Camino de Sol, da diretora Claudia Sainte-Luce, levou o troféu de melhor atriz para Anajosé Andrete, que realmente não tinha concorrentes, na pele de uma mãe desesperada para reencontrar o filho pequeno sequestrado diante de seus olhos.


Já o drama peruano La Pampa, de Dorian Fernández Moris, foi o preferido do júri popular, além de ganhar um Prêmio Especial do Júri, abordando o tráfico de meninas na região amazônica do sul daquele país.

Finalizada a 50a. edição, Gramado pôde realmente orgulhar-se de uma história de realização ininterrupta por meio século, resistindo à censura, à ditadura militar, ao fim abrupto da Embrafilme, à extinção do Ministério da Cultura no governo atual e todas as intempéries que a cultura costuma sofrer neste País, dando mostras de resistência e coragem.