05/06/2026

Veneza fecha suas apostas com libelo de Jafar Panahi

Veneza - A cadeira vazia guardada para o cineasta iraniano Jafar Panahi na sala de coletivas de imprensa na manhã desta sexta (9) foi a mais eloquente demonstração da presença fantasma deste premiado diretor, que há 11 anos vem sendo perseguido judicialmente em seu país. Neste momento, ele se encontra inclusive na prisão, o que não foi, mais uma vez, obstáculo a que um filme seu, no caso, Khers Nist (No Bears), tenha sido selecionado num festival internacional. Este foi, aliás, o último filme exibido na competição por aqui, uma chave de ouro. Os prêmios serão anunciados na noite deste sábado (10).

Panahi, que já venceu um Leão de Ouro em 2000 por O Círculo, mais uma vez é personagem de seu filme, que sobrepõe narrativas ao mesclar os acontecimentos que o envolvem numa cidadezinha na fronteira turca e as turbulências de um filme sendo realizado dentro do filme - em que Jafar dirige remotamente, com o auxílio no set de seu filho, Reza, outro personagem da história.

Deste entrelaçamento das fronteiras entre ficção e realidade, Panahi constroi seu questionamento das contradições mais profundas de seu país, como a persistência da superstição baseada em costumes ancestrais - em que o patriarcalismo sempre exerce um peso formidável - e o autoritarismo estatal, manifestado por uma polícia vigilante sobre as pessoas mas inerte frente ao contrabando e outros crimes bem mais reais do que as divergências de opinião.

Mesmo sofrendo pessoalmente uma perseguição constante por todos estes anos, o cineasta iraniano mantém intacta sua veemência e paixão pelo cinema e tira o máximo proveito de suas restritas condições de produção. Falando de sua aldeia, ele fala do mundo. E o último plano de Khers Nist (No Bears) torna-se, com sua absurda prisão, um grito inconformado pela liberdade. Como imaginar que este homem tão sensível, talentoso e valente possa estar, neste momento, atrás das grades, condenado a seis anos de cadeia por vagas acusações conspiratórias contra o Estado teocrático em que vive?

Menina santa
Bateu numa tecla um pouco inusitada o quarto concorrente italiano ao Leão, Chiara, em que a diretora Susanna Nicchiarelli (de Nico) aborda a juventude da futura santa Clara (Margherita Mazzucco) sob um enfoque protofeminista e com números musicais - inclusive recorrendo a uma melodia contemporânea para encerrar a história.

Abordar a religiosidade, ainda mais num país católico e sede do Vaticano, é sempre uma jornada arriscada, que a diretora se dispõe a atravessar sem grandes ousadias, inclusive em termos cênicos, de fotografia, figurino e montagem. Seu ponto de vista é injetar, na figura de Clara, jovem rica que deixa família e fortuna para tornar-se irmã da ordem pobre criada por Francisco (Andrea Carpenzano), outro futuro santo, um componente de afirmação feminina, em pleno século XIII. Na época, mulheres não formavam ordens religiosas, nem tinham a mesma autonomia dos monges liderados por Francisco. Clara quer mudar isso e, dessa maneira, entra em conflito com o cardeal Ugolino, depois Papa Gregório IX (Luigi Lo Cascio).

No final, a diretora não conseguiu decolar nesta proposta de criar uma conexão moderna com a santidade, mesmo colocando Clara sob uma luz protofeminista, especialmente porque seu filme é tão casto e contido quanto a ordem das irmãs de nove séculos atrás.

Documentários
Fora de competição, não faltaram atrações entre os documentários, como Sergio Leone - L’Italiano Che Inventò l’America, de Francesco Zippeli, um generoso apanhado da carreira deste cineasta, contando com farto material de arquivo e generosas entrevistas de tantos que o conheceram e admiraram, como Ennio Morricone e Martin Scorsese.

Sempre chegado a uma polêmica, Oliver Stone divulgou aqui seu documentário Nuclear, em que defende a tese de que a energia nuclear seja rediscutida como uma opção energética limpa para substituir as tecnologias baseadas em carvão e petróleo, para resolver o impasse climático do planeta.

Stone recorre a entrevistas de diversos especialistas, nos EUA, Rússia, França e outros países, sustentando que a energia nuclear foi satanizada precoce e indevidamente por seu uso bélico inicial, em Hiroshima e Nagasáqui. Estes especialistas sustentam a segurança deste tipo de energia, salientando seus escassos acidentes - sem negar sua existência ou gravidade, como em Chernobyl e Fukushima -, seu baixo custo e a possibilidade técnica de rápida construção de usinas. Um filme para conferir e refletir.