05/06/2026

Cine Ceará encerra seções competitivas com o provocativo "A Piedade"


Fortaleza -
A última noite competitiva no Cine Ceará, nesta quarta (12) trouxe o último longa e também o mais provocativo, o concorrente espanhol A Piedade, de Eduardo Casanova. As premiações do festival serão divulgadas hoje à noite, no Cine-teatro São Luiz, quando haverá também uma homenagem ao cantor e compositor cearense Ednardo, de 77 anos.

Famoso pela canção Pavão Mysteriozo, que foi parte da trilha da novela Saramandaia (1976), Ednardo compôs trilhas de cinema dos filmes como Tigipió e O Calor da Pele, de Pedro Jorge de Castro, e Luzia Homem, de Fábio Barreto. Ele recorda, na coletiva desta manhã (13), que o dinheiro ganho com o sucesso de Pavão Mysteriozo ele investiu na realização de um filme, Cauim (1978), que era exibido simultaneamente ao show do mesmo nome. Quando chegou a Brasília, o filme foi apreendido pela polícia e devolvido com cinco cortes, o que prejudicou toda a sincronia e obrigou a que a projeção fosse interrompida. Com o tempo, mais da metade do filme se perdeu, mas Ednardo ainda pensa em recuperar o que resta.

Tendo tido outros problemas com a censura da ditadura militar de 1964-1985, e sido brevemente preso na época, o cantor e compositor não hesita diante de um comentário político: “Governo militar de direita não dá certo governando o Brasil. Esse atual governo eu não entendo como foi eleito”.


Estética forçada
Segundo longa do jovem diretor Casanova, A Piedade investe pesado na estética, com uma direção de arte maneirista e sofisticada, para retratar a relação doentia entre uma mãe, Libertad (Ángela Molina), e seu filho único, Matteo (Manel Llunel). A dependência entre os dois é tóxica, mantendo-se em torno de obstáculos reais ou imaginários a cada vez que se esboça uma possibilidade de separação. Matteo, já adulto, não tem coragem de dar um passo fora de casa sozinho. A mãe, por sua vez, vive em função deste filho, com quem compartilha a cama, o cotidiano e toda sua vida emocional. O diagnóstico de câncer para o rapaz coloca em risco todo este edifício psicótico, em que terão participações eventuais o pai do rapaz (Antonio Durán), sua nova esposa (Ana Polvorosa) e uma psicóloga (María León).


É evidente que este enfant terrible do cinema espanhol não caminha sem um vasto arsenal de referências, de Luis Buñuel, Pedro Almodóvar, David Lynch e muitos outros que adentraram estas temáticas - todos eles com mais êxito. Em sua ânsia de chocar, eventualmente Casanova se perde e deixa de realizar um filme que poderia ter investido um pouco mais em seu roteiro. Inegavelmente, o filme produz imagens poderosas, que denotam que há talento aqui, ainda que produza sequências sem um maior sentido orgânico, ou seja, que parecem destinadas a pura e simplesmente chocar por sua crueza. Assim, carece de amadurecimento para ser mais relevante.

Curtas
Quatro curtas completaram a noite final de exibição dos concorrentes. Alexandrina - Um Relâmpago, de Keila Sakofa (AM), resgatou a esquecida presença dos afrodescendentes no Amazonas, destacando a figura de Alexandrina, mulher negra e livre que se destacou no trabalho científico, trabalhando para dois cientistas estrangeiros que eram, no entanto, adeptos de teorias eugenistas e racistas. Com uma bela direção de arte, o curta inspira-se, em seu visual, em rituais de grande beleza.

Celeste - Sobre Nós, de Natália Araújo (PE), tem como protagonista Marisa, uma motogirl, entregadora de pizzas, que explora as ruas recifenses à noite, uma espécie de figura quase invisível socialmente mas que, no filme, mostra-se dedicada a reflexões interiores sobre essa vida urbana. Ao mesmo tempo, ela enxerga sinais de algo extraordinário no céu, o que pode muito bem ser uma metáfora para uma mudança de que ela tanto precisa.

Apresentado previamente no Festival de Gramado, Último Domingo, de Joana Claude e Renan Barbosa Brandão (RJ), inspira-se livremente em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, para compor um breve relato em torno de uma mulher que recebe a visita de um estranho peregrino e, ao mesmo tempo, descobre-se grávida, desencadeando uma série de suspeitas dos anciãos da comunidade.

Finalmente, Big Bang, de Carlos Segundo (MG), premiado no mais recente Festival de Locarno, desenvolve a história de Chico (Giovanni Venturini), um homem anão que conserta fornos e descobre a resistência como forma de sobreviver ao abandono, preconceito e exclusão.

Foto de Ednardo: Crédito Neusa Barbosa