Halder Gomes abandona a comédia e abraça a pintura em "Vermelho Monet"
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 10/12/2022
- Tempo de leitura 4 minutos

Recife - Deixando de lado suas comédias rasgadas, como Cine Holliúdy 1 e 2, o diretor cearense Halder Gomes apresentou um lado mais sério e sofisticado no longa Vermelho Monet
(foto ao lado), primeiro concorrente da mostra competitiva de longas do Cine PE, aberto nesta sexta (9/12), no Teatro da Praça.
O próprio Halder define seu filme como um “drama autoral”, até porque dramas não são estranhos na carreira do cineasta, roteirista e produtor - caso de As mães de Chico Xavier (2011), codirigido por Glauber Filho.
No filme, estrelado por Chico Díaz, Maria Fernanda Cândido e a promissora estreante Samantha Müller, percorre-se uma trama nos bastidores do mercado de arte, envolvendo a falsificação de obras e a feitura de um quadro excepcional.

Chico Díaz interpreta um pintor, Johannes Van Almeida, que, anos atrás, fez parte de um bem-sucedido esquema de falsificações de quadros supostamente antigos, associado com uma poderosa marchand com conexões internacionais, Antoinette (Maria Fernanda Cândido). Depois, ele enfrentou a prisão e hoje vive recluso, em decadência e crise pessoal. Duas outras mulheres entram neste circuito: Adele (Gracinda Nave), a esposa de Johannes, hoje sofrendo de Alzheimer, e a jovem atriz Florence (Samantha Müller), que se torna objeto de desejo de Antoinette e está no centro de um plano para torná-la musa de uma nova obra do pintor.
Halder Gomes, diretor, e a atriz estreante Samantha Muller, do longa "Vermelho Monet" - Crédito: Neusa Barbosa
Apoiando-se na direção de arte cuidadosa de Juliana Ribeiro e na trilha sonora de Herlon Robson, Vermelho Monet constrói-se a partir de uma série de referências canônicas, tanto nas artes plásticas, quanto na música, numa construção sonora que mistura música clássica, de Erik Satie e Piotr Tchaikovsky a Heitor Villa-Lobos, e também populares, de Kleiton e Kledir a Donna Summer. No meio desse contexto, encaixa-se uma narrativa dramática que testa os limites das relações turbulentas entre os personagens, num melodrama que investe numa linguagem mais rebuscada e ganha um tom lusófono ao apoiar-se, em parte, em textos da poetisa portuguesa Florbela Espanca - que é personagem interpretada por Florence dentro de um filme que ela está ensaiando.
Na coletiva do filme, nesta manhã de sábado (10), Halder contou que Vermelho Monet é um projeto que levou 10 anos para ser finalizado e reflete seu intenso interesse pela pintura. “Viajo muito para ver museus”, revelou. O roteiro, que ele assina com colaboração de Michelline Helena, partiu da ideia de “contar a história de um quadro e como ele pode ganhar vida”. Nesse processo, ficou claro que o filme teria que ser produzido fora do Brasil, para ficar mais perto de todas as suas referências, e acabou sendo filmado em Lisboa - o que também permitiu uma redução de custos, por particularidades do modo de produção em Portugal.
Por todas essas características, o filme, evidentemente, não tem o apelo popular de outros trabalhos de Halder e será distribuído, segundo ele mesmo, dentro de um esquadro de filme de arte. No Brasil, a distribuição será feita pela Pandora.

História de vida
Abrindo a noite, antes do longa, foi apresentado o curta A Vida Secreta de Delly, de Marlom Meirelles, resultado de uma produção das Oficinas Documentando, muita ativa no estado de Pernambuco. O magnético protagonista do documentário é Delly Batista, catador de recicláveis em Cabo Santo Agostinho, que tem uma história de vida altamente dramática, e sobressai na tela como uma trajetória de exclusão, preconceito e superação. Expulso de casa aos 12 anos por sua homossexualidade, Delly passou por várias experiências dramáticas, tendo sido por 5 anos amante de um traficante, sobrevivendo a uma tentativa de assassinato e finalmente se reinventando como catador, depois de retomar contato com a mãe, que havia deixado de ver desde a infância.

Na coletiva do filme, Delly contou que “nem mesmo minha mãe sabia de todas as histórias que conto”. Muito menos, seus colegas na usina de reciclagem. Mas isto não foi problema, muito pelo contrário. “A partir da oficina, descobri que posso ser Delly e as pessoas que trabalham comigo aceitaram isso”, afirmou.
Delly Batista, personagem do curta "A vida secreta de Delly" - Crédito: Neusa Barbosa
Outro curta, Leila para sempre Diniz (1975), foi exibido dentro da homenagem prestada pelo festival ao diretor carioca Sérgio Rezende.
