A volta por cima de Michael J. Fox
- Por Alysson Oliveira
- 21/04/2023
- Tempo de leitura 14 minutos
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Still: A Michael J. Fox Movie
De ícone pop a ativista por pesquisas sobre o mal de Parkinson – essa trajetória de Michael J. Fox é o que guia o documentário Still: A Michael J. Fox Movie. Dirigido pelo oscarizado Davis Guggenheim (Uma Verdade Inconveniente), o filme é uma celebração da vida e carreira do ator de 61 anos nascido no Canadá.
Colocando Fox na frente da câmera para falar em primeira pessoa, o filme já sai com uma tremenda vantagem: o inegável carisma do astro, cuja carreira decolou quando entrou para um seriado de televisão, Caras & Caretas, cujo sucesso enorme de seu personagem e seu timing para o humor o levaram a estrelar a trilogia De Volta Para o Futuro, tornando-se um dos astros pop mais queridos da década de 1980.
Até hoje, Fox mostra esse mesmo apelo na frente da câmera. Faz piadas, ri do seu passado e mesmo do seu presente, enfrentando os sintomas do Parkinson, como a dificuldade motora. Ele fala sobre isso com candura e sem pudor, nem pena de si mesmo. Uma das melhores cenas no filme mostra-o andando na rua, ao lado de seu fisioterapeuta, quando é cumprimentado por uma fã e acaba caindo sozinho. Ele mesmo ri da situação.
Mas, como também mostra o longa, Fox não encara essa condição exclusivamente com humor. Ele sabe da seriedade de sua condição e é uma das vozes mais potentes nos EUA em manifestações por fundos pela pesquisa sobre o Parkinson. Ao lado de Muhammad Ali, participou de uma sessão especial no Congresso nos EUA pedindo investimentos. Desde o ano 2000, ele mantém uma fundação, que leva seu nome, dedicada à busca pela cura da doença.
Fox é uma alma generosa e um lutador que não se abateu. Mas nem sempre foi assim. Quando sentiu os primeiros sintomas do Parkinson, aos 30 anos, ele escondeu isso do público entupindo-se de remédios que o ajudavam a manter seus movimentos controlados. Foi só apenas 7 anos depois do diagnóstico que ele revelou tudo à mídia, e sua vida se transformou. Como mesmo diz, foi uma libertação poder encarar a condição de frente.
Trabalhando com o montador Michael Harte, Guggenheim acha uma saída sagaz para a construção da narrativa da vida de Fox, ou seja, parte de cenas e diálogos de filmes, séries e programas de televisão construindo a história da vida. É como se o próprio biografado tivesse gravado depoimentos ao longo dos anos. É um trabalho de pesquisa monumental, que funciona muito bem no documentário, que intercala esses resgates como depoimentos, além do ator, de sua mulher, Tracy Pollan, e de suas filhas e filho, além de reencenação de momentos-chave do passado.
Still: A Michael J. Fox Movie é um filme generoso com Fox e o público. Pode não trazer novidades – o roteiro parte do próprio livro autobiográfico que o ator lançou em 2020 –, mas é uma celebração de uma das grandes figuras do cinema dos anos de 1980, e um retrato bonito da resistência e generosidade.
Última sessão:
IMS Paulista (SP) - 21/04/2023 às 19h30

Pianoforte
Pianoforte
é uma espécie de Big Brother da música erudita. Dirigido pelo polonês Jakub Pitek, o documentário tem como cenário a Competição Internacional Chopin de Piano, que acontece em Varsóvia a cada 5 anos. É uma disputa acirrada e exigente, e nem sempre há um ganhador ou ganhadora – nos anos de 1990, 1995 e 2005, ninguém venceu.
é uma espécie de Big Brother da música erudita. Dirigido pelo polonês Jakub Pitek, o documentário tem como cenário a Competição Internacional Chopin de Piano, que acontece em Varsóvia a cada 5 anos. É uma disputa acirrada e exigente, e nem sempre há um ganhador ou ganhadora – nos anos de 1990, 1995 e 2005, ninguém venceu.
O filme acompanha alguns dos competidores e competidoras e, como um reality show de televisão, a montagem é extremamente importante na criação das narrativas individuais de cada pianista. Cada um ou uma tem uma relação particular com o piano e Chopin. Eles e elas vêm de lugares diferentes, com idades e formações distintas. O filme destaca elementos marcantes de suas personalidades, o que faz o público do longa se apegar ou não.
Ao todo, são 87 inscritos e apenas 12 conseguem chegar à final depois de 3 etapas. O adolescente chinês Hao Rao é o mais jovem e extremamente dedicado, mas sua juventude e inexperiência podem pesar contra. Já a italiana Leonora Armellini gosta de tocar Metálica no piano entre uma sonata e uma valsa. A russa Eva Gevorgyan é tida com uma loira platinada misteriosa que pouco se mistura com os outros. A também italiana Michelle Candotti é a mais simpática, é mais pés no chão. Por fim, há o polonês Marcin Majchrowski, que desponta como uma espécie de vilão egocêntrico, e o ítalo-esloveno Alexander Gadjiev, ele mesmo já uma estrela do mundo dos pianistas - e o filme o trata como tal.
Acompanhamos, então, as preparações, os momentos de aflição e alegria desse grupo de participantes. Num lance que o filme gosta de expor algumas vezes, Majchrowski assiste em diversos momentos o anúncio no qual seu nome aparece como aprovado para a segunda fase. Dessa forma, o documentário expõe seu lado egocêntrico.
Hao sai do filme como o mais querido. Impossível não torcer por ele, em sua inocência e paixão, tornando-se o inesperado herói aqui. Sua dedicação é comovente mas, ao mesmo tempo, há algo de aflitivo na obsessão de sua mãe, o tempo todo com ele, a lembrá-lo de que precisa praticar para vencer.
É uma competição extremamente difícil, na qual uma nota fora do lugar significa a eliminação. O que leva esses jovens a se submeterem a isso? As respostas são várias, e algumas emergem ao longo do filme. E é Candotti que aponta a mais coerente: uma vitória irá alavancar a carreira e garantir um futuro financeiro. O filme toca de leve a questão de quão peculiar é transformar a arte numa competição. Não é bem isso que interessa a Pi?tek, mas o que
Pianoforte
tem a revelar é um lado contemporâneo perverso, mostrando que o discurso da meritocracia nunca é verdadeiro.
Pianoforte
tem a revelar é um lado contemporâneo perverso, mostrando que o discurso da meritocracia nunca é verdadeiro.
Sessões:
IMS Paulista (SP) - 21/04/2023 às 17h00
NET Botafogo (RJ) - 21/04/2023 às 14h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 22/04/2023 às 18h00
COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Santino
Dirigido pelo cineasta e artista plástico Cao Guimarães, Santino é um documentário de delicada beleza visual, numa fotografia pálida, assinada pelo próprio diretor e o produtor do filme, Beto Magalhães. Tal como em seus longas Alma do Osso e Andarilho, o diretor mergulha no sertão mineiro, um espaço à Guimarães Rosa, marcado pela paisagem e por figuras peculiares.
Quem dá nome ao filme é Santino Lopes Araújo, um homem, que, na primeira cena, aparece cuidando de um cemitério e contando um pouco da história do lugar. Logo entra em questões metafísicas, quando perguntado se gostaria de ser enterrado ali. Esse começo já dá o tom do filme todo, esse diálogo entre o histórico material e o espiritual, uma característica tão forte nesse personagem.
Guimarães dá espaço, primeiramente, para Santino falar suas histórias, sua cosmovisão, como por exemplo, este planeta é uma escola, para onde outros 12 planetas enviam pessoas para estudar. Em meio a essas histórias, ele toca também em questões mais terrenas, como os falsos pastores e como o dinheiro acabou entrando nas religiões.
É muito fácil entender como Guimarães se deixa levar pela fala de Santino. Ele é carismático, conta suas histórias sem titubear, com segurança e riqueza de detalhes. Às vezes, é um pouco confuso, ele mesmo se contradiz, nas nem por isso se torna menos sedutor em seus causos extraterrenos.
O contraponto a isso está em Maria Cristina, mulher de Santino e muito mais pé no chão do que ele. Ela, por exemplo, não deixa que as duas filhas adolescentes consumam as plantas que o pai garante curar diversos males.
Não há nada de uma religião institucionalizada em Santino. Ele combina crenças, misticismos e invenções para criar sua própria narrativa espiritual, que comunga também do mundo material. Também nesse sentido, ele é uma figura fascinante. Na televisão, ele assiste a um filme que fala sobre a criação do mundo. Seria um programa ligado à sua visão do mundo? Não, é o filme Lanterna Verde, mais uma vez nos lembrando que a linha entre o fantástico e o real é bastante tênue.
Última Sessão:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 21/04/2023 às 19h00
HOMENAGEM A GODARD

História(s) do Cinema
Qualquer pessoa minimamente familiarizada com os filmes de Jean-Luc Godard não vai se aproximar de sua série
História(s) do Cinema
esperando algo didático e cronológico. Conhecido por romper com o cânone, não ia ser numa obra documental que o cineasta baixaria a guarda. A quem se dispuser a entregar-se a esse documentário monumental, o resultado é extremamente recompensante.
História(s) do Cinema
esperando algo didático e cronológico. Conhecido por romper com o cânone, não ia ser numa obra documental que o cineasta baixaria a guarda. A quem se dispuser a entregar-se a esse documentário monumental, o resultado é extremamente recompensante.
Colagem de imagens construída ao longo de quase uma década, a série é composta de oito episódios cujas durações variam entre pouco menos de uma hora e 26 minutos, resgatando de forma temática momentos da história do cinema por um viés e olhar pessoal do diretor, homenageado pelo É Tudo Verdade neste ano.
Numa leitura muito pós-moderna, Godard retira a historicização do cinema e busca um fluxo de conexões entre eras e lugares distantes que reverberam entre si. A rica pesquisa de imagens é impressionante na montagem fragmentada, que coloca o público de forma ativa, a ponto de formar as ligações nem sempre claras. Ao fundo, a voz do próprio diretor num texto mais poético do que informativo.
Os sons, aliás, são outro desafio aqui. Nem sempre as imagens dos filmes casam com o que se ouve. Frases aleatórias em vozes inesperadas são jogadas em momentos ao acaso: “O cinema substitui nosso olhar”; “Além disso, o cinema é uma indústria”; “Para que fazer simples, se é possível complicar?” - essa em especial parece ligar-se a todo o cinema de Godard.
Cada episódio é dedicado a pessoas do cinema, passando por figuras como Glauber Rocha, John Cassavetes, Santiago Alvarez, Nicole Ladmiral e até o próprio Godard. O ego aqui não é pouco, mas é possível fazer vistas grossas a esses momentos, dada a riqueza da série que, mais do que construir, desconstrói a história do cinema. Há, infelizmente, uma centralidade europeia – em especial francesa – e estadunidense, deixando quase que de lado América Latina, África e Ásia, embora apareçam em algum momento.
O episódio mais bonito é dedicado à Nouvelle Vague, da qual o próprio Godard fez parte. Partindo de sua própria posição, ele resgata sua relação com a Cinemateca Francesa, mas também com seu colega François Truffaut, que acaba se tornando objeto de uma inesperada homenagem carinhosa.
Esse vasto panorama, que nos bombardeia de imagens, sons e textos, é exigente – requer mais de uma revisão para se compreender e captar boa parte –, mas também é um salto sem rede de proteção, repleto de riscos e adrenalina que mostra o olhar sobre o cinema de um homem claramente apaixonado por essa arte e seu ofício. E, como com tantos outros seus filmes, aqui Godard nos lega um obra-prima.
Sessões:
HISTÓRIA(S) DO CINEMA - TODAS AS HISTÓRIAS
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 21/04/2023 às 15h00
HISTÓRIA(S) DO CINEMA - UMA SÓ HISTÓRIA/APENAS CINEMA
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 21/04/2023 às 18h00
HISTÓRIA(S) DO CINEMA - BELEZA FATAL/A MOEDA ABSOLUTA/UMA NOVA ONDA
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 22/04/2023 às 15h00
HISTÓRIA(S) DO CINEMA - O CONTROLE DO UNIVERSO/OS SIGNOS ENTRE NÓS
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (RJ) - 22/04/2023 às 18h00
FOCO LATINO
Beleza Silenciosa
“Por muitos anos, a casa dos meus avós parecia o lugar mais seguro, então, deixou de ser”, afirma a diretora Jasmín Mara López em seu impressionante documentário
Beleza Silenciosa. É um filme em primeira pessoa, no qual ela confronta um episódio traumático de seu passado: ser abusada sexualmente pelo avô aos 10 anos de idade. E ela não foi a única vítima dele.
Beleza Silenciosa. É um filme em primeira pessoa, no qual ela confronta um episódio traumático de seu passado: ser abusada sexualmente pelo avô aos 10 anos de idade. E ela não foi a única vítima dele.
Ela começa resgatando a história de sua família. Quando criança, morou com a mãe, a irmã e o irmão com os avós e os tios caçulas. Seria mais uma história de uma mãe solo tentando criar os filhos depois da separação, mas o fato que Jasmín enfrentou quando criança a marcou para sempre, e o filme se torna uma maneira de tentar lidar com esse fantasma que a persegue.
A família tinha o costume de fazer muitas imagens caseiras com uma câmera. Desses registros, vemos a jovem Jasmín, feliz em sua infância, até passar pelo episódio de abuso. Ela recorda que, como muitas vítimas, sentia-se culpada. Quando tenta confrontar o avô, no presente, ele nega, diz que são coisas que colocaram em sua cabeça.
Então, ela resolve abrir a história para toda a família. A primeira a aparecer em cena é a mãe dela, filha do avô abusador. As duas nunca tiveram uma relação muito saudável, mas, finalmente, a partir dessa revelação, mãe e filha parecem começar a se entender. Essa mesma família que era o lugar de medo, também era a sua segurança, como ela mesma diz sobre seus primos e primas na mesma época da infância.
Beleza Silenciosa
é uma investigação sobre trauma e resistência, sobre os laços que se apertam e se afrouxam diante da adversidade. Jasmín é uma cineasta que conta sua história com força e sagacidade. O tema é duro e poderia cair num sensacionalismo barato, mas ela é cuidadosa com a maneira como lida com o abuso, e, em seu documentário, mais do que uma denúncia, faz um alerta.
é uma investigação sobre trauma e resistência, sobre os laços que se apertam e se afrouxam diante da adversidade. Jasmín é uma cineasta que conta sua história com força e sagacidade. O tema é duro e poderia cair num sensacionalismo barato, mas ela é cuidadosa com a maneira como lida com o abuso, e, em seu documentário, mais do que uma denúncia, faz um alerta.
Sessões:
Sesc Digital entre 17 e 23 de abril
CCSP - Lima Barreto (SP) - 21/04/2023 às 19h00
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