- Por Neusa Barbosa
- 03/03/2004
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Assinado por Silvio Tendler (Jango, Os Anos JK), documentarista competente bem antes que o gênero virasse febre no cinema brasileiro, por pouco este filme histórico nunca chegou ao circuito comercial. Por 18 anos, a mãe de Glauber, dona Lúcia Rocha, não permitiu ao cineasta o uso das imagens filmadas por Tendler no velório e funeral do filho, em 1981. A proibição durou até 1999, quando finalmente o diretor e dona Lúcia, uma espécie de madrinha informal do cinema brasileiro, fizeram as pazes, depois de um incansável trabalho de convencimento do diretor. Tanta polêmica em torno das imagens de um funeral repetiram, ironicamente, o mesmo impasse que cerca, ainda hoje, as imagens feitas pelo próprio Glauber no enterro do pintor Di Cavalcanti - cuja filha, Elizabeth Cavalcanti, não permitiu até hoje que fossem exibidas nos cinemas.Mas o longo período em que as imagens fúnebres de Glauber permaneceram guardadas, infelizmente, também cobrou seu preço. A maior parte delas perdeu a banda sonora e os diálogos foram substituídos por música. Um dos poucos depoimentos cujo som foi preservado foi o do antropólogo Darcy Ribeiro, durante o sepultamento do diretor, lembrando que Glauber foi o "mais indignado" de todos os brasileiros. Darcy referia-se ao estilo apaixonado com que o cineasta abraçava suas causas, não importando os inimigos que fazia ao longo do caminho - e que não foram poucos. Foi assim, por exemplo, com o filme A Idade da Terra, apresentado em 1980 no Festival de Veneza, rejeitado pela crítica e o público italianos. A sessão foi melancolicamente encerrada com poucas pessoas na sala, o que levou Glauber a desancar o cineasta francês Louis Malle, vencedor do Leão de Ouro com Atlantic City. O brasileiro acusou Malle de ser agente da CIA. Esse era o estilo metralhadora giratória de Glauber, sua marca registrada e que não pode ser ignorado quando se fala de sua vida e obra. Apaixonado pelo cinema e pelo país, o cineasta deixou uma das obras mais consistentes e discutidas do cinema brasileiro, partindo de Barravento (1961), que ele realizou com apenas 22 anos, seguido de Deus e o Diabo na Terra do Sol, feito apenas dois anos depois. Indiscutivelmente reverente ao cineasta baiano, o filme de Tendler apresenta igualmente novos depoimentos e imagens de arquivo que permitem iluminar um pouco o mistério desse criador inquieto que, ainda hoje, é o cineasta brasileiro mais reconhecido no exterior, com uma obra que corre o mundo em mostras e festivais.O trabalho recebeu o troféu de melhor filme para o júri popular e o prêmio do júri oficial no Festival de Brasília 2003.
