Com um nome um tanto provocativo, Minha Mãe Gosta de Mulher pode ser uma grata surpresa para quem gosta do humor tipicamente espanhol. Muito embora, como comédia romântica, o filme copie as fórmulas encontradas em inúmeras produções americanas do gênero, as diretoras estreantes Inés París e Daniela Fejerman conseguem dar uma nova cara ao seu trabalho. Muito pela ampla utilização de referências do cotidiano ibérico, muito pelo projeto ser impulsionado a partir do argumento lésbico implícito na anedótica chamada.Talvez no Brasil o trabalho da dupla de cineastas (que têm formação teatral) passe como exagerado - como todo o comportamento do espanhol médio - mas o filme é suficientemente inteligente para plantar o assunto da tolerância sobre a liberdade sexual em uma sociedade como a espanhola. Na terra de Almodóvar e Alex de la Iglesia, que se diz moderna e mente aberta, ainda se pode assistir a uma luta silenciosa contra o resquício de obscurantismo franquista e à submissão a toda uma moral instigada pela classe conservadora dominante. E como melhor questionar a moral e a liberdade moderna (seja ela qual for), senão por meio de histórias familiares? E é exatamente isso que oferece o filme de París e Fejerman, ao fazer um retrato psicológico da personagem Elvira (a esplêndida Leonor Watling), filha do meio de Sofia (uma Rosa María Sardá bastante sóbria), que não apenas tem que aceitar a nova sexualidade de sua mãe, mas suportar sua contínua frustração profissional e uma desastrosa vida afetiva. Os múltiplos matizes que compõem a vida de Elvira criam uma personagem muito bem desenhada, que somada à divertida interpretação da talentosa Leonor Watling (Fale com Ela, Minha Vida Sem Mim) converte-se em um híbrido de qualquer dos papéis interpretados por Woody Allen, com obviamente suas devidas separações. Essa combinação evita que a trama estanque na frase enunciativa da produção, ao mesmo tempo que nos traz de forma hilária uma série de assombros psicológicos modernos: uma total negação sobre relações, compartilhamento de neuras com psicanalista, insegurança e o sentimento de isolamento.O competente roteiro criado pelas diretoras, desta forma, não apenas nos traz um interessante retrato psicológico, como ao mesmo tempo uma justa tolerância, tão necessária quanto óbvia. Principalmente ao apresentar de forma tão delicada a feminilidade, por meio das poesias e versos de Safo. Muito bem lembrado, mesmo que superficialmente.Como segue certas fórmulas de comédia romântica, com o que os espectadores vão perceber que estão realmente habituados, o happy end é inevitável. Mesmo a canção-tema se vê um pouco forçada, apesar de bem-humorada. Cabe, portanto, a cada um julgar se o saldo final desmerece o filme. Mas há uma série de pontos positivos que tornam inegável que Minha Mãe Gosta de Mulher é uma diversão bem inteligente.
