- Por Alysson Oliveira
- 23/08/2004
- Tempo de leitura 2 minutos
Numa época de blockbusters repletos de cenas contendo violência e explosões é um verdadeiro presente poder assistir a um filme tão meditativo, tranqüilo e repleto de imagens de extrema beleza. Não é à toa que Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera surpreendeu a todos que conheciam o cinema do diretor, ganhador do Urso de Prata em Berlim 2004, por Samaria. Afinal, seus filmes anteriores, todos inéditos no Brasil, são completamente diferentes desta produção. Nada mais do que uma fábula budista, o longa abrange o período de 30 a 40 anos na vida de um homem. Cada estação do ano mencionada no título é um segmento da educação espiritual e sentimental do protagonista. Toda a história se passa em um único cenário, um monastério flutuante em um lago isolado e seus arredores. A cada novo período, um desafio que o personagem enfrenta rumo à iluminação espiritual. Enquanto nas duas primeiras estações, primavera e verão, o pequeno monge é um personagem mais passivo, que está aprendendo lições importantes sobre a vida e seguindo a sabedoria de seu mestre, é no outono que o filme ganha mais ritmo. Nessa parte, o protagonista é um jovem adulto com sérios problemas emocionais. Ao chegar no último estágio, o inverno, ele busca um equilíbrio entre as forças que o governam. O epílogo serve para comprovar que a vida segue em ciclos e que nem tudo é um fim, mas um novo começo. Dividindo cada episódio entre 20 e 30 minutos, o diretor - que, aliás, interpreta o jovem monge nas duas últimas estações - conseguiu encontrar um equilíbrio em sua narrativa, que por natureza seria lenta. Apesar de seqüenciais, mas com visual e temáticas distintas, os quatro segmentos são como curta-metragens sobre a formação desse menino. A maior qualidade do filme é contar uma história totalmente calcada em idéias abstratas e os conflitos dessas concepções - como sagrado e profano, paz e violência - e conseguir tocar fundo, sem fazer uma obra demasiadamente zen, a ponto de se tornar incompreensível para aqueles que conhecem pouco da cultura oriental. Mesmo quando há rituais budistas, as ações têm um propósito narrativo e não são simplesmente usadas como recurso estético. Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera foi rodado no lago artificial Jusan, formado há aproximadamente 200 anos na província Gyeongsang. Já o monastério foi construído exclusivamente para o filme.
