26/08/2026
Drama

Irmãos de Fé

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Quando Maria - Mãe do Filho de Deus chegou aos cinemas, no ano passado, a Igreja Católica deu início a um curioso processo de catequização - pelo entretenimento. O próprio padre Marcelo Rossi, uma das estrelas do filme, disse que essa era a única mídia que faltava para ser utilizada como instrumento de evangelização. Agora, um ano e um filme depois, já não falta mais nada. As bases do cinema como arma (porque não?) religiosa para aumentar o rebanho - ou evitar que mais ovelhas se debandem para as igrejas evangélicas - já estão lançadas.

Com a produção de Diler Trindade, uma das figuras que mais vêm se destacando no cinema nacional, e distribuição maciça e garantida da Columbia Pictures, Irmãos de Fé pretende repetir o sucesso de seu antecessor que fez cerca de 2,3 milhões de espectadores e vendeu cerca de 280 mil unidades em vídeo e DVD. Esse novo filme tem tudo para aumentar esse público. Depois do lançamento de Maria, Mel Gibson arrasou quarteirões com A Paixão de Cristo, que só no Brasil vendeu quase 7 milhões de ingressos, e pode ter selado um novo segmento no mercado: o de filmes religiosos.

Mas mesmo assim, padre Marcelo e sua comitiva evangelizadora não se renderam ao sangue exibido no filme norte-americano, e contaram com simplicidade o nascimento da Igreja Católica. Irmãos de Fé mostra a conversão de Saulo de Tarso (Thiago Lacerda), posteriormente Paulo de Tarso, de judeu perseguidor de cristãos a uma das figuras mais importantes no nascimento da nova igreja. Segundo os Evangelhos, Saulo rumava para a Síria, quando em uma poderosa visão Jesus lhe apareceu e o deixou temporariamente cego.

Saulo rende-se à vontade do Salvador e não só muda de religião como troca o nome para Paulo. A partir de então, dedica-se a converter as pessoas para o Cristianismo. É nesse ponto que São Paulo e o longa defendem a mesma missão. O filme mostra que todos são e sempre serão muito bem-vindos à Igreja Católica, seja qual for seu credo anterior.

Como em Maria, há a participação do padre Marcelo, um personagem chamado apenas de Padre, mas que claramente é um alter-ego do religioso. Desta vez, no presente, ele ajuda um menino infrator, preso na Febem, que coincidentemente se chama Paulo. Esse rapaz chega às palavras do seu xará através de um exemplar da Bíblia recebida do padre durante uma visita.

Bem menos kitsch que Maria e muito mais cinematográfico, Irmãos de Fé mostra uma evolução na carreira não só de Moacyr Góes (diretor dos dois filmes), mas também na do Padre-ator. Rodado em belíssimas locações no Nordeste brasileiro, o longa naturalmente detém-se mais na história bíblica do que no drama do menor preso. Dessa forma, o filme vai além do simples entretenimento-religioso e se torna uma poderosa arma de catequização. Não uma conversa sem ensinamentos que visam difundir os pensamentos da Igreja Católica. É quase uma missa.

Mas já há uma polêmica a vista. Será o filme anti-semita? Padre, produtor e diretor justificam dizendo o retrato pintado dos judeus está na Bíblia, e por isso não mudaram os textos sagrados em prol do politicamente correto. Mas, no final, o politicamente correto prevalece, assim como a paz entre os povos, e o Padre e seu amigo agora convertido, o jovem Paulo, vão até Jerusalém e rezam no Muro das Lamentações. Assim, o filme tem tudo para agradar aos católicos e àqueles que gostaram de toda a polêmica de A Paixão de Cristo.

Diler, Góes e o padre Marcelo têm tudo para se tornar uma espécie de santa trindade do cinema brasileiro. Até porque enquanto esse tipo de filme estiver dando lucro, eles podem trilhar essa seara por muito tempo. Afinal, a Bíblia é quase uma fonte inesgotável de histórias.
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