Através da ótica bizarra de Kitano - que venceu o Leão de Prata como melhor diretor no Festival de Veneza/2003 -, o samurai cego Zatoichi, vagabundo errante, jogador e massagista nas horas vagas, ganha vida novamente e promove um banho de sangue no Japão do século 19, empunhando sua arma contra a corrupção e a violência. Exímio no mortífero zigue-zague da katana, a lendária espada dos samurais, o estradeiro Zatoichi faz parada estratégica na vila dominada pelo clã de um malfeitor exemplar. Ali ele encontra duas irmãs, presumíveis gueishas, decididas a vingar a morte do resto da família. Zatoichi, aliás o massagista Ichi (ou, mais corretamente, Zatô Ichi), andou pelas telas desde o início dos anos 1960 até durante boa parte dos 70, com um capítulo final em meados de 80. Foram mais de vinte episódios (ou as "épocas", como eram conhecidas as seqüelas produzidas no Japão), interpretados do início ao fim pelo extraordinário ator Shintaro Katsu. Com fina ironia e apuradíssima sagacidade, ajudava os necessitados e os desesperados. A maioria daqueles filmes apresentava tramas intrincadas, que evitavam as armadilhas da serialização. A registrar que, durante a série , Zatoichi tinha um encontro com dois titãs do cinema oriental, o Yojimbo de Toshiro Mifune e o espadachim de um braço só, Wang Yu.
Com os cabelos oxigenados, o diretor Kitano e seu alter ego, o ator "Beat" Takeshi, se metem nas vestes de Zatoichi para recontar a saga. Do personagem original, Kitano só manteve as características exteriores: a cegueira, a itinerância de cidade em cidade, a massagem e a jogatina. E, claro, a espada letal escondida em sua bengala. Mas enquanto o antigo Zatoichi era humano, altruísta e emotivo, o atual é irônico, indiferente às pessoas ou ao ambiente ao redor. É apenas uma máquina de matar - razão mais que suficiente para o diretor dedicar mais atenção aos inúmeros duelos. E depois de muito sangue ao borbotões (digitalizado, inclusive) e salpicado de humor negro - com inúmeras referências ao western de Peckinpah e Sergio Leone -, Zatoichi oferece um surpreendente epílogo sob a forma de musical.
