O diretor Jorge Furtado continua firme no seu projeto de fazer cinema jovem de qualidade. Consegue mais do que isso - faz filmes para adolescentes que não são proibidos para adultos. Foi assim em seu belo longa de estréia, Era uma Vez Dois Verões, continuou na mesma linha em O Homem que Copiava - visto por quase 700.000 espectadores. Neste terceiro longa, Meu Tio Matou um Cara, Furtado associa-se a Guel Arraes no roteiro e a receita mantém o pique.
Desde o título, a história brinca com a tentativa aflita dos adultos para manter as aparências diante de uma situação-limite, compensada pela ironia e a clareza com que os adolescentes percebem e analisam tudo, não raro melhor do que os pais. Parte-se de uma família de classe média balançada por um crime. O tio que matou o cara é Éder (Lázaro Ramos), aquele típico indivíduo que nunca deu muito certo em atividade nenhuma e toda hora se apaixona pela pessoa errada. Desta vez, foi Soraia (Débora Secco), escultural mulher casada, de quem Éder mata o marido num confronto muito mal-contado.
Para o irmão mais velho de Éder, Laerte (Ailton Graça) e sua mulher, Cléa (Dira Paes), é o fim do mundo. Para o filho do casal, Duca (Darlan Cunha), abre-se oportunidades para muitas descobertas. Parte de uma geração alimentada desde o berço pelos gibis e seriados de tevê, Duca é capaz de conselhos preciosos sobre como Éder e seus pais devem lidar com o problema.
A notícia inesperada coloca Duca em evidência em sua escola - e não de maneira negativa. Nestes tempos em que a notoriedade é um valor em si, ter um tio nos noticiários é motivo de prestígio, independentemente do motivo. Sem contar que as pontas soltas no depoimento do tio estimulam Duca e seus melhores amigos, Isa (Sophia Reis) e Kid (Renan Gioelli), a brincar de detetives.
O trio de amigos vive também a ambigüidade de um triângulo amoroso não-declarado, às voltas com o despertar da sexualidade. Tal como acontecia em Era uma Vez Dois Verões, Furtado revela os sentimentos divididos dessa idade com uma sinceridade magnífica. O desenvolvimento da narrativa acredita na inteligência de quem vê, apoiado em atuações de uma naturalidade que nunca perde a forma.
A questão racial, mais uma vez ventilada, como em O Homem que Copiava, é abordada de forma impecável, já que normaliza a presença de negros na classe média e a convivência entre todas as cores do arco-íris nacional sem chamar a atenção para isso nem fazer discurso.
