O que o espectador deve saber antes de comprar os ingressos de Crimes em Wonderland é que não se trata de um exuberante psicodrama com transbordante humor negro, sexualidade e violência sob medida. Ou seja, não se trata de um Boogie Nights 2. A comparação é cabível, já que ambos os filmes examinam a vida do mesmo homem: John Holmes. Claro que Boogie Nights o fez obliquamente, por meio de uma transparente máscara de ficção. No entanto, não há dúvidas de que por trás do fictício "Dirk Diggler" estava Johnny Wadd (pseudônimo de Holmes), a primeira estrela do cinema pornográfico, famoso principalmente pelo enorme tamanho de seu "talento". Porém, enquanto Boogie Nights mostra a ascensão de Holmes na indústria pornográfica, Crimes em Wonderland apresenta os anos posteriores à fama do ator. Num momento em que seus vícios e seu instável estado mental o colocaram em contato com figuras do baixo mundo de Los Angeles, para manter o contumaz consumo de drogas. Sem os obstáculos criados por alguma expectativa comparativa, o novo filme resultará num honesto e competente drama criminal. Com a ajuda de pontos de vista contraditórios, revela a realidade por trás de um múltiplo assassinato ocorrido no começo dos anos 80 na Avenida Wonderland, em Los Angeles. Holmes estava envolvido e a produção tenta montar o quebra-cabeça que intrigou a polícia na época. Logo no início do filme vemos o ator (interpretado sem muito esforço por Val Kilmer) e sua amante adolescente Dawn (Kate Bosworth), vivendo em motéis baratos e conseguindo dinheiro para as mais variadas drogas. Até que um dia volta ao hotel coberto de sangue, ao mesmo tempo em que os jornais locais noticiam um hediondo assassinato na Avenida Wonderland, onde Dawn havia passado pouco antes com Holmes. A adolescente logo vê uma ligação e acredita no envolvimento do amante na tragédia. Infelizmente, a polícia tem a mesma opinião e começa a interrogar cada um dos suspeitos, entre eles Holmes. Todas as histórias são distintas, apontando conclusões confusas. Caberá ao espectador encontrar o fio condutor para saber o que realmente aconteceu. Tudo isso porque o filme segue um estrutura cinematográfica em que várias pessoas analisam um mesmo fato, na linha de Rashomon, de Akira Kurosawa. Pelo menos, esse é o esforço. Os falsos testemunhos dramatizados dão mais responsabilidades aos atores, que devem provar que seus personagens são inocentes. Nesse ponto, Kilmer é o que menos se destaca, não porque seja um mau ator, mas porque não consegue levar o manipulado Holmes. Por outro lado, Dylan McDermott (irreconhecível, mesmo para os fãs de O Desafio), mostra inusitada e competente intensidade. Tal como Josh Lucas (Doce Lar)e Tim Blake Nelson (Por um Sentido na Vida), usualmente colocados em papéis de trapalhões, mostram-se assustadores criminosos fora de controle. No entanto, deve-se ter paciência ao ir ver Crimes em Wonderland. Por melhores que sejam as atuações - inclua-se Lisa Kudrow no papel mais difícil, o de esposa de Holmes - o começo é um pouco confuso, enquanto conhecemos os personagens. Como a trama só engrena realmente na metade do filme, torna-se bastante cansativo. Um detalhe: há uma cena no começo que faz o espectador atento matar a charada logo nos primeiros vinte minutos de filme - o que é um erro terrível para quem gosta de suspense, o público mais indicado para este filme.
