23/07/2026
Drama

Ray

Cinebiografia do cantor Ray Charles que conta sua trajetória desde o início da carreira até seus últimos anos de vida.

post-ex_7
Um personagem - Ray Charles - maior do que a vida, um ator (Jamie Foxx) maior do que o filme. Esta é uma breve definição do que se pode esperar da cinebiografia Ray, que ganhou maior projeção especialmente depois de conquistar seis preciosas indicações ao Oscar.

Dessas, a mais justa certamente é a de Jamie Foxx - que consegue não só absorver o modo de andar, jogar a cabeça, mancar e a dicção especial de Ray Charles, mas vai além disso, encarnando sua força e sua fragilidade com a complexidade de uma pessoa real. Com certeza, Foxx é a grande atração do filme e nem poderia ser diferente. Tudo numa cinebiografia depende desta escalação central e Foxx entrega o que promete. É o grande passo para a consagração na carreira deste ator de 37 anos, que conseguiu em 2005 a façanha de uma dupla indicação ao Oscar (também concorre como coadjuvante, em Colateral).

A produção é muito bem-cuidada e registra diversos bons momentos. Vários deles pertencem, curiosamente, à infância do cantor - e muito disto se deve à presença carismática da atriz que interpreta sua mãe, Sharon Warren. A história alinha, assim, os grandes dados biográficos de Ray: infância pobre, morte trágica do irmão menor, cegueira por glaucoma aos 7 anos. Dessa infância nada rósea, o enredo puxa o fio que moveu a energia incandescente de Ray Charles: a absoluta negação da autopiedade, que nasceu nele por conta da educação enérgica da mãe. Sob sua influência, desde menino Ray aprendeu a virar-se sozinho. Desenvolveu, assim, os outros sentidos para compensar a perda da visão e nunca dependeu nem de bengala, nem de um cachorro-guia.

Sem piedade nem pieguice atravancando o caminho, fica muito melhor vislumbrar a personalidade magnética de Ray e sua dura conquista do estrelato, partindo de apresentações em espeluncas enfumaçadas e um bom número de anos de exploração por empresários desonestos até conquistar o posto de astro. O filme deixa claro este esforço e, positivamente, não romanceia o lado obscuro da personalidade do protagonista, mencionando seu vício por heroína e suas incontáveis traições à mulher (Kerry Washington).

Desse retrato, emerge um artista grandioso e um homem por inteiro, ainda que tantas vezes contraditório - por isso mesmo, real. Algumas seqüências, porém, deixam, de acreditar inteiramente nesta magnífica matéria-prima. O filme também dura um pouco mais do que o devido. Por isso, falta-lhe alguma porção da mágica que torna tão especiais outros filmes sobre músicos, como Bird (88), a impecável recriação da vida de Charlie Parker dirigida por Clint Eastwood, e o não menos belo 'Round Midnight (86), de Bertrand Tavernier, que escala o magistral saxofonista Dexter Gordon interpretando um músico fictício, que bem poderia ser a soma da vida do próprio Gordon e de tantos colegas. Falta ao filme de Taylor Hackford essa transcendência. Jamie Foxx bem que merecia um filme que voasse um pouco mais alto. Ray Charles, que morreu em junho de 2004, também. Se serve como consolo, a voz que se ouve nas canções é sempre do próprio cantor, muitas vezes em regravações especiais para o filme.

post