A base da trama está em algo chamado Fenômeno da Voz Eletrônica (FVE), ou Eletronic Voice Phenomenon (EVP), no original - um processo no qual os entes queridos tentam se comunicar com os vivos usando a estática de aparelhos como rádios e televisores. Céticos preferem acreditar que isso se dá por interferência ou modulação cruzada. Aparentemente, o assunto começou com Thomas Edison, que era meio obcecado com a idéia de falar com os mortos. Ele chegou até a dizer que no futuro seria criado um aparelho para esse tipo de comunicação - só não sabia que seriam o rádio e a TV.
Jonathan (Michael Keaton) leva uma vida feliz ao lado da segunda mulher, a escritora Anna (Chandra West). Mas como este é um suspense sobre mortos, alguém tem que morrer. No caso, os produtores e o roteirista optaram por matar Anna, até porque Jon (e não 'John', como a legenda em português insiste em dizer) é interpretado por alguém um pouco mais famoso do que Chandra West.
Ele fica desolado por meses, embora tente levar uma vida normal. Quem irá mudar sua existência será Raymond (Ian McNeice), uma espécie de médium eletrônico que há anos grava manifestações de pessoas mortas e procura os parentes vivos para mostrar a fita e dar conforto. No início Jon parece não acreditar - uma reação que Keaton tenta mostrar simplesmente arqueando a sobrancelha, enquanto a câmera faz piruetas em volta da dupla.
No entanto, aos poucos, conforme estabelece um contato com a morta, Jon acaba se tornando um fã do FVE. Aliás, fica tão fã que enche sua casa de televisores, rádios e computadores, toda a parafernália necessária para gravar vozes do além. A boa notícia é que ele grava manifestações de sua esposa. A má notícia: a ligação está cruzada, e as outras 'pessoas' não são bem o Gasparzinho.
Estreante em cinema, o diretor Geoffrey Sax até tenta manter o clima de suspense e mistério. Mas nem com toda ajuda deste e do outro mundo ele consegue cobrir as crateras lunares que existem no roteiro de Niall Johnson.
A premissa instigante do primeiro ato se transforma num drama familiar sobrenatural à medida que Jon (com a ajuda de sua falecida esposa) começa a salvar vidas ou confortar pessoas que perderam entes queridos. Nunca fica clara a razão de Jon ser uma espécie de iluminado, escolhido para ser o herói do dia. Por que não dividir as tarefas entre ele e Sara Tate (Deborah Kara Unger), que também acredita no FVE?
Em sua conclusão, Vozes do Além tem mais interferência do que rádio mal sintonizada. A solução, supostamente ambígua, é confusa e virtualmente inexistente. Talvez houvesse algum sentido no filme, mas algo acabou no chão da sala de edição ou na lixeira do computador do roteirista. Em tempo, o título original, "White Noise", é o mesmo de um premiado livro do norte-americano Don DeLillo, publicado no Brasil como Ruído Branco. Barry Sonnenfeld, que detém os direitos de adaptação da obra para o cinema, tentou entrar em acordo com a Universal para a mudança do título deste filme, mas não conseguiu.
